  A BELA E A FERA
Beauty and the Beast
Hannah Howell
Inglaterra, Sculo XVI
Por trs das aparncias...
s vsperas de seu casamento, Gytha Raouille, uma jovem de rara beleza, descobre que o noivo est morto. E agora ela deve se casar com o novo herdeiro das terras
de Saitun, um cavaleiro endurecido por muitas batalhas, conhecido como Diabo Vermelho... Com o rosto marcado por cicatrizes e o corao ferido por uma grande desiluso,
a ltima coisa que Thayer Saitun deseja  uma esposa. Porm, nem mesmo o Diabo Vermelho consegue romper o compromisso assumido por seu pai adotivo anos atrs. Assim,
ele se v unido a uma mulher linda e inocente. Mas seria a doce Gytha capaz de enxergar alm das aparncias e descobrir os sentimentos profundos que ele guarda na
alma?
Digitalizao: Crysty
Reviso: Ana Ribeiro
Querida leitora,
Este  um livro que segue a linha do maravilhoso clssico conto de fadas, a histria de amor entre uma mulher e um homem que somente ela acha bonito. Um romance 
com profundidade de contedo e de emoo, que voc vai adorar!
Leonice Pomponi 
Editora
Copyright (c) 2007 by Hannah Howell
Originalmente publicado em 2007 pela Kensington Publishing Corp.
PUBLICADO SOB ACORDO COM KENSINGTON PUBLISHING CORP.
NY, NY - USA
Todos os direitos reservados.
Todos os personagens desta obra so fictcios. Qualquer semelhana com pessoas vivas ou mortas ter sido mera coincidncia.
Proibida a reproduo, total ou parcial, desta publicao, seja qual for o meio, eletrnico ou mecnico, sem a permisso expressa da Editora Nova Cultural Ltda.
TTULO ORIGINAL: Beauty and the Beast
EDITORA: Leonice Pomponio
ASSISTENTES EDITORIAIS 
Patrcia Chaves 
Silvia Moreira
EDIO/TEXTO
Traduo: Dbora Guimares
Reviso: Giacomo Leone
ARTE Mnica Maldonado
ILUSTRAO Hankins + Tegenborg, Ltd.
MARKETING/COMERCIAL Andra Riccelli
PRODUO GRFICA Snia Sassi
PAGINAO Dany Editora Ltda.
(c) 2008 Editora Nova Cultural Ltda.
Rua Paes Leme, 524 - 10 andar - CEP 05424-010 - So Paulo - SP
www.novacultural.com.br
Premedia, impresso e acabamento: RR Donnelley
   CAPTULO I
     Inglaterra, 1365
     - Morto?
     - Totalmente morto.
     - Mas como?
     - Caiu do cavalo e quebrou o pescoo.
     Gytha piscou, depois olhou atenta para o pai. No havia em seu rosto nenhum sinal de mentira, embora ele parecesse estranhamente desconfortvel. Ela esperou 
sentir tristeza pela perda do prometido, o belo e galante baro William Saitun. O pesar surgiu e se foi. Afinal, pouco vira esse homem. O que a intrigava agora era 
por que os preparativos para o casamento ainda prosseguiam. Se William estava morto, no poderia haver casamento! Um momento mais tarde, sua me revelou estar pensando 
a mesma coisa.
     - Mas e o casamento? O banquete est quase pronto. Os convidados esto chegando. Devo mand-los embora?
     - No  necessrio, Bertha, querida.
     - Papai, no posso me casar com um homem morto!
     - E claro que no, querida. - John Raouille cobriu rapidamente a mo delicada da filha com a dele, grossa e calejada.
     - No vamos interromper os preparativos? - Gytha franziu a testa confusa, notando que o pai no se movia.
     - Minha filha, o acordo que fiz com meu bom amigo, o baro Saitun, que Deus guarde sua alma, previa que voc se casaria com o herdeiro dos bens dos Saitun.
     - E esse era William.
     - Sim, mas h outros herdeiros. Thayer vem logo depois de William na sucesso pela herana.
     - Ento, est dizendo que agora devo me casar com Thayer? - Ela no sabia se entendia o acordo feito pelo pai.
     - No. Ele morreu na Frana.
     Ou era uma noiva amaldioada, ou os Saitun no eram muito saudveis, ela pensou.
     - Vou me casar ou no, papai?
     - Sim, voc vai. O terceiro herdeiro  Robert. E com ele que vai se casar amanh. Creio que j o conhece.
     Sua memria era uma caracterstica pela qual muitos a admiravam. Era rpida e muito exata, guardando at os menores detalhes com clareza e preciso. Ela a usava 
agora, mas no se sentia feliz por isso. Se no possusse memria to precisa, Robert Saitun no teria ficado gravado em seus pensamentos. Ele havia sido como uma 
sombra para William e passava a maior parte do tempo tentando fugir dos gritos e das ordens do tio, um homem muito desagradvel que o dominava completamente.
     - Sim, eu o conheci. No acha que ... bem, desrespeitoso me casar com outro homem to pouco tempo depois da morte da Wiliiam?
     - Bem... William morreu h algum tempo. Ele estava muito longe daqui, por isso voc no foi chamada para perto de seu leito.
     Nem fora informada, ela pensou.
     - E o segundo herdeiro? Esse Thayer que nunca conheci?
     - J disse, filha, ele morreu na Frana. No quero parecer insensvel, mas talvez tenha sido melhor assim. Ele no era homem para voc, Gytha.
     Thayer Saitun removeu a mo feminina de seu peito e sentou-se.
     - J amanheceu, mulher. E hora de ir embora. Pegando a bolsa de sob o travesseiro, ele extraiu dela algumas moedas e as jogou na direo da mulher, que as pegou 
com facilidade. Um sorriso cnico distendeu seus lbios. Os olhos atentos a viram pesar as moedas na palma da mo. A mulher tambm sorriu. Havia sido sempre assim. 
Era um homem respeitado e honrado por outros homens, temido por eles, mas as mulheres tinham sempre de ver o brilho de seu dinheiro antes de demonstrar algum interesse.
     Deitando-se novamente e cruzando os braos sob a nuca, ele a viu se vestir sem pressa. Estava farto de meretrizes sem nome, mas pelo menos havia nelas uma certa 
honestidade, e essas mulheres no podiam se dar ao luxo de desprez-lo por ser grande, desprovido de encantos fsicos ou, pior ainda, ruivo. Embora no tivesse na 
pele o tom avermelhado que sempre amaldioava os ruivos, sabia que poucas pessoas notavam esse detalhe. Cabelos vermelhos e sardas cobriam boa parte de seu corpo. 
At seu tamanho era um ponto negativo, porque representava simplesmente uma rea maior para a maldita colorao exibir-se. O som da porta sendo aberta o arrancou 
da autodepreciao.
     - Pretende passar o dia na cama? - perguntou Roger, seu brao direito. Antes de entrar e fechar a porta, ele deixou o entretenimento noturno de Thayer sair.
     - No.
     Thayer levantou-se e foi se lavar.
      - Um revs nos espera. - Roger acomodou-se na cama desfeita. -- Logo voc vai deixar de ser um herdeiro.
     - Sim. William logo ter um herdeiro. No tenho dvidas disso. Ele j provou sua habilidade nesse campo muitas vezes.
     - No parece estar muito preocupado com a iminncia de se tornar um cavaleiro sem terras ou o administrador de algum proprietrio abastado.
     - Isso pouco me incomoda. S um tolo pensaria que um homem como William nunca se casaria nem teria um herdeiro. Melhor que a obrigao seja dele, no minha. 
Eu teria dificuldades para cumpri-la.
     - Subestima seu valor. Nunca o vi sem uma meretriz para aquecer sua cama.
     - Antes elas se certificam do valor do meu dinheiro. Thayer ignorou o ar de desaprovao de Roger diante da amargura que ele no conseguia esconder. Roger no 
o via como as mulheres o viam. O amigo via nele um valoroso companheiro de batalha, algum que era como um irmo. Roger no via nada de errado em cabelos vermelhos. 
Aos olhos de um homem, os plos abundantes em seu peito, os caracis nas virilhas e os plos em seus braos e pernas eram sinais de virilidade. Os homens tambm 
invejavam sua silhueta grandiosa. Muitos gostariam de poder estar ombros e cabea acima de outros homens. No entendiam que ser to maior que muitas belas e delicadas 
damas inspirava nelas mais medo do que admirao.
     Roger tambm no percebia nada de errado em seu rosto, to forte quanto seu corpo. Anos de vida pela lmina da espada haviam comeado a transformar a ausncia 
de beleza de Thayer em feira. Quando Roger via como vrias fraturas haviam deixado seu nariz ligeiramente torto, simplesmente lembrava as batalhas que as causaram. 
Thayer sabia que ter todos os dentes era algo de que devia se orgulhar, mas esse orgulho era reduzido pela conscincia de que a boca de lbios finos comeava a mostrar 
cicatrizes de todas as vezes em que sofrer cortes. Ele tocou a cicatriz que marcava sua face. Roger tambm no veria nada de errado nisso, pois recordaria a gloriosa 
batalha que causara a marca.
     Ele tentou ajeitar os cabelos, que tinham a infeliz tendncia para encaracolar. Mesmo que Roger estivesse certo, mesmo que pudesse capturar o corao de uma 
mulher, no tinha importncia. No possua casa para abrigar essa mulher. Se encontrasse o amor, seria apenas para ver essa mulher ser dada a outro homem. Poucos 
queriam dar suas filhas a um cavaleiro sem terras.
     - Venha, Roger, me ajude a aparar as pontas. Logo teremos de sair. Anseio por ver aquela que William diz ser um anjo.
     Gytha entrou no quarto e bateu a porta. Jogando-se sobre a cama, ela comeou a praguejar com veemncia e continuamente. A boca carnuda e vermelha, to freqentemente 
elogiada por seus pretendentes, cuspia todos os horrveis palavres que ela conhecia. E quando esses terminaram, ela inventou outros. Como sempre acontecia quando 
extravasava dessa maneira, finalmente ela disse um improprio que considerou engraado. Rindo, viu a porta ser aberta e sua prima Margaret olhar cautelosamente para 
o interior do quarto.
     - Terminou? - Margaret entrou devagar, fechando a porta atrs dela.
     - Sim. Acabei de lanar uma maldio sobre cada homem do reino. E pensei no que poderia acontecer se a maldio surtisse efeito. - Ela riu novamente.
     - H momentos em que penso que voc deveria estar pagando uma grande penitncia. - Margaret sorriu sem entusiasmo e deixou sobre a cama um vestido de bordado 
muito elaborado. - Seu vestido de noiva. Finalmente est pronto. Vamos ver como fica em voc.
     Sentando-se, Gytha tocou o vestido, reconhecendo e apreciando sua beleza, mas sem sentir alegria por isso.
     - Voc deve ser a melhor costureira do mundo. Podia costurar para a rainha. - Ela sorriu ao ver o rosto da prima corar.
     De fato, pensou, Margaret no era s bela com seus olhos cor de mbar e o cabelo castanho-claro, mas j estava bem perto de completar dezoito anos. Ela tambm 
devia se casar. Era verdade que Margaret no poderia almejar nada muito elevado, mas nem por isso estava sem possibilidades. Seu tio havia assegurado um dote para 
ela, nica filha bastarda, e uma soma admirvel fazia parte dele. Talvez pudesse haver algum adequado para a prima entre os homens que compunham a entourage de 
seu marido. Teria de se dedicar a essa questo.
     - Gytha, pare de fazer planos para mim. Imediatamente.
     Tentando parecer inocente, mesmo sabendo que fracassava, Gytha murmurou:
     - Eu jamais seria to impertinente.
     - Humph. Praguejando, e agora mentindo. Seus pecados crescem. Vai experimentar o vestido?
     - Suponho que seja necessrio. Afinal, o casamento ser celebrado amanh. - Sem se mover, Gytha continuou olhando para o vestido.
     Margaret suspirou, pegou uma escova, sentou-se atrs da prima e comeou a escovar seus longos cabelos cor de mel. Mesmo carrancuda, Gytha era linda, e jamais 
exibia vaidade. Margaret sentia que sua prima merecia uma vida melhor. Na verdade, ela acreditava realmente que uma jovem como Gytha devia poder escolher o prprio 
marido, casar-se por amor.
     A beleza da prima tambm estava na alma. Os olhos azuis e brilhantes e o corpo sensual podiam causar admirao e desejo em muitos homens, mas seu esprito amoroso 
suavizava at mesmo os mais cnicos. Como os irmos, Gytha via a prpria beleza como um presente de Deus, algo a ser brevemente apreciado e depois posto de lado 
por no ter grande importncia. Freqentemente, quando era forada a se defender ou esquivar de um pretendente mais ardoroso, ela considerava sua aparncia mais 
uma maldio do que uma bno. Precisava de um homem que pudesse enxergar sua essncia, alm do rosto encantador, e reconhec-la como o verdadeiro tesouro, e Margaret 
estava certa de que Robert Saitun no era esse homem.
     Livrando-se da melancolia, Gytha murmurou:
     - De alguma forma, parece errado me casar to rapidamente com o herdeiro sucessor de William.
     - No sei se  to rpido assim. Creio que William morreu h algum tempo. Alm do mais, interromper os preparativos agora traria grande prejuzo financeiro 
a seu pai. - Margaret ajudou-a a despir o vestido e perguntou: - Conhece Robert?
     - No. Por que acha que estava aqui praguejando contra tudo e todos? No estou preparada para isso.
     - Muitos diriam que no teria sido necessrio se preparar para desposar lorde William.
     -  verdade, ele era belo, forte e honrado. Mesmo assim, o casamento representa um grande passo. E sempre melhor ter algum tempo para refletir. Mas, em menos 
de um dia, estarei me casando com um homem que no conheo. Nada sei sobre o carter de Robert.
     - Teve sorte por conhecer William to bem. Poucas mulheres tm essa vantagem.
     - E verdade, mas essa parece ser uma maneira monstruosa de conduzir a questo. Uma mulher  protegida e preservada em sua pureza durante toda a infncia e a 
juventude. Um dia, ela se v diante de um homem, na frente de um sacerdote, e recebe ordens estritas para ir viver ao lado desse desconhecido e obedecer a suas ordens 
sempre sem nunca question-lo. Receio cometer alguma tolice por causa do nervosismo. Talvez at desmaie.
     Margaret riu.
     - Voc nunca desmaiou. E ouso dizer que jamais desmaiar.
     - Uma pena. Assim seria poupada de grande desconforto.
     - Tia Bertha certamente conversou com voc. Deve saber o que esperar.
     - Sim, ela conversou comigo. Porm, foi muito difcil compreender o que ela dizia. Tantos rubores, tremores e hesitaes!
     Margaret riu novamente.
     - Posso at ver. Pobre tia Bertha.
     - Pobre de mim! Contudo, a questo que mais me preocupa  que terei de me despir. No posso gostar disso.
     Concentrando-se em fazer os laos do vestido de Gytha, Margaret disfarou uma careta. Ela tambm no gostava da idia. Gytha tinha um corpo capaz de despertar 
a luxria dos homens. Embora no tivesse conscincia disso, aparentemente, essa era uma das razes pelas quais fora to ferrenhamente protegida. De alguma forma, 
ela conseguia ser esbelta e elegante e, ao mesmo tempo, exuberante e sensual. Mais vezes do que pudera contar, Margaret vira o fogo se acender nos olhos de um homem 
diante de sua prima. Acidentes ocorreram, apesar da cuidadosa vigilncia, ocasies em que Gytha tivera de se retirar apressadamente para preservar sua virtude. Coloc-la 
nua diante de um homem era altamente perigoso, especialmente um homem que teria todos os direitos sobre ela. A pobre Gytha poderia viver em sua noite de npcias 
uma experincia violenta e dolorosa.
     - Ele tambm ter de se despir - Margaret finalmente murmurou. - Pronto. - Ela se afastou de Gytha. - Ah, voc vai ser uma noiva encantadora.
     - O vestido  lindo. - Gytha virou-se devagar diante do espelho. - No precisa de ajustes. - O caimento era perfeito. - J esteve com Robert? - Ela sorriu da 
expresso assustada de Margaret, consciente de ter mudado de assunto de repente, um hbito difcil de romper.
     - J o vi, e voc tambm. Lembra-se do rapaz que acompanhava William em sua ltima visita?
     - Sim. S queria ouvir sua opinio.
     - Bem, ele  esguio e claro. E quieto.
     - Hum. Muito quieto. To discreto quanto  possvel. Fico me perguntando quando ele foi sagrado cavaleiro e por qu. No posso dizer que ele honre o ttulo, 
porque passa todo o tempo tentando fugir da autoridade do tio, uma atitude que no condiz com um cavaleiro. - Ela suspirou. - Ah, bem. Pelo menos no preciso temer 
que seja um bruto.
     - H muito a ser dito em favor disso. - Margaret ajudou Gytha a tirar o vestido.
     - Longe do tio e do primo, talvez ele mostre um lado mais favorvel de seu carter.
     -  o que espero.
     Pouco tempo depois da chegada de Robert, Gytha j comeava a pensar que sua esperana era v. Charles Pickney, tio de Robert, estava sempre por perto. Tudo 
que ela descobriu foi que no era capaz de gostar de Charles Pickney, por mais que se esforasse. Assim que teve uma oportunidade, ela escapou do futuro marido, 
e de sua sombra, para ir procurar por Margaret, a quem arrastou para fora do castelo para colher flores.
     O dia era ensolarado e quente, e os campos em torno do castelo estavam cobertos de botes. Logo o humor de Gytha comeou a melhorar. Adorava a primavera com 
sua promessa de vida e calor, e rir e caminhar na companhia de Margaret, ajudou-a a esquecer as preocupaes. Em pouco tempo, ela lembrava mais uma menina rstica 
e desprovida de maneiras do que uma dama  vspera de seu casamento, mas no se importava com isso. S por algum tempo, pretendia esquecer Robert, o tio dele e o 
casamento.
     Thayer viu as duas jovens correndo pelo campo e se deteve a alguns metros delas. Rpido, ele fez um sinal aos dois homens que o acompanhavam para que tambm 
parassem, sabendo que o mais impulsivo deles as abordaria sem nenhuma sutileza, se assim permitisse. Apesar do estado descomposto das duas, sabia que no se aproximava 
de camponesas. Os vestidos eram finos demais. Temendo assust-las, ele cavalgou cauteloso na direo da dupla, seguido de perto por seus homens. Logo sua aproximao 
foi notada. Ao parar perto delas, Thayer sentiu-se fortemente afetado pela beleza da pequenina loira.
     - Ol, senhoras. - O sorriso com que ela o brindou tirou-lhe o flego. - Colhem flores para a noiva?
     - Sim. Veio para o casamento, senhor? - Gytha descobriu que era fcil sorrir para o grande homem ruivo, embora ele fosse muito maior do que ela e ainda mais 
imponente sobre seu cavalo negro.
     -- Sim, por isso estamos aqui. Meu primo  o noivo. Flertando abertamente com as duas jovens, Roger indagou:
     - Acham que a celebrao vai justificar a jornada?
     - Certamente, senhor. - Gytha conduzia a conversa, porque Margaret estava aparentemente aturdida e sem ao. - Vinho e cerveja fluiro como um rio caudaloso. 
Haver muita comida de sabor inigualvel. Menestris tocaro com habilidade insupervel. - Ela no conseguiu conter totalmente o riso provocado por seus comentrios.
     -  apropriado, considerando que meu primo afirma que vai se casar com o anjo do Oeste.
     Thayer se espantou com a gargalhada franca e doce.
     - Um anjo, ? - Gytha olhou para Margaret, que emergira do estupor e sorria. - Eu no poderia dizer. - Ela agarrou a mo da prima. - Voltaremos a nos ver no 
castelo - disse, j comeando a correr e puxando Margaret atrs dela.
     -  uma pena no podermos segui-las. - Roger olhou para Thayer. - Esse banquete se torna mais promissor a cada momento.
     Thayer sentiu o peso da depresso sobre os ombros. Havia experimentado uma forte e inegvel atrao pela delicada donzela de cabelos dourados como a luz do 
sol. A reao da jovem a sua presena tinha sido mais do que jamais obtivera de muitas criadas ao longo dos anos. Porm, sabia que ela no iria alm disso. No com 
ele. Comeava a temer as festividades que se aproximavam. Com muito esforo, conteve o impulso de fugir. William era seu favorito entre os poucos parentes que tinha, 
e no permitiria que uma moa e delicada criada de olhos azuis o impedisse de testemunhar seu casamento.
     - A loira pequenina era toda sorrisos para voc - Roger comentou quando eles retomaram a cavalgada num trote lento.
     - Ela foi polida, nada mais. - Thayer instigou o cavalo e seguiu na frente de Roger, encerrando a conversa.
     Roger praguejou em pensamento. Thayer tinha grande confiana em sua habilidade e fora, uma segurana que beirava a arrogncia. Entretanto, com relao s mulheres, 
ele era totalmente inseguro. E a culpada disso era lady Elizabeth Sevilliers. Alguns poderiam dizer que Thayer fora tolo amando uma mulher como ela. Contudo, o dano 
que a megera causara era indiscutvel. Mesmo que pudesse convencer Thayer de que a pequenina loira demonstrara interesse, isso s o faria se manter afastado. Thayer 
era o flagelo de qualquer campo de batalha, mas uma donzela bela e bem-nascida o enchia de pavor. Elizabeth era uma donzela bela e bem-nascida.
     Decidindo que no perderia tempo discutindo, ele resmungou:
     - Sim, talvez. Vamos ver o tal anjo de William. E evidente que essa  uma regio de plidas beldades.
     Gytha parou de correr ao ver o castelo. Ela e Margaret levaram um ou dois minutos para recuperar o flego. Num acordo silencioso, as duas se esforaram para 
pr alguma ordem na aparncia descomposta. Gytha notou que a prima precisava de menos cuidados do que ela, e ainda se esforava para se limpar e ajeitar as roupas, 
quando percebeu que os cavaleiros que haviam encontrado pouco antes, j se aproximavam.
     - Ele no  nada parecido com William ou Robert. - Gytha suspirou ao ver o ruivo encorpado desmontar com elegncia natural. - Que olhos encantadores.
     - Eu sei. - Margaret imitou o suspiro da prima ao ver o cavaleiro que acompanhava o grande homem ruivo. - E como grama nova, fresca e recm-sada da terra.
     Com a testa franzida, Gytha murmurou:
     - Verde? Como pode achar que ele tem olhos verdes?
     - Ao compreender de quem Margaret estava falando, ela riu. - Oh, no! Ento  l que est sua ateno.
     - Quieta. Eles podem ouvir. Quem tem olhos encantadores, ento?
     - Ora, o grande homem ruivo,  claro.
     - O grande homem ruivo? Est brincando!
     Gytha sentiu uma forte necessidade de defender o desconhecido da perplexidade boquiaberta de Margaret, mas no saberia dizer por qu.
     - No. Ele tem olhos encantadores. A cor  linda. Um castanho suave, doce.
     - Doce? No se pode dizer que uma cor  doce. Margaret sentia uma estranha mistura de confuso e humor. Alguns dos mais belos cavaleiros haviam assediado Gytha 
sem nenhum sucesso, e agora um breve encontro com um cavaleiro grande, ruivo e um tanto castigado por marcas e cicatrizes, a deixava toda derretida.
     - No tenho tanta certeza, realmente - Gytha respondeu. - Porm, doce  a palavra que me vem  mente. - Com um suspiro, ela se dirigiu  parte posterior do 
castelo. - Ah, bem, de volta a Robert.
     Seguindo a prima, Margaret perguntou:
     - O que achou do jovem cavaleiro de olhos verdes? Gytha precisou de um momento para se lembrar do homem a quem Margaret se referia.
     - Ele  favorecido.
     As palavras ecoaram na mente de Margaret at ganharem a magnitude de uma revelao. Como ela e a prima tiveram de se esgueirar pela entrada dos fundos do castelo 
para chegarem aos seus aposentos sem serem notadas, o silncio de espanto no foi percebido, para seu grande alvio. Quando Gytha dizia que um homem era favorecido, 
estava apenas sendo polida. No significava nada. Escolher um trao e elogi-lo era sua verdadeira forma de louvor.
     Elas entraram no quarto de Gytha, e Margaret fechou a porta, olhando para a prima com verdadeira perplexidade.
     - Ah - Gytha sentou-se na cama -, estamos seguras e, melhor ainda, no fomos vistas. Mame ficaria aborrecida se eu fosse pega nesse estado.
     - No estamos em estado to condenvel.
     - H barro na bainha do meu vestido.
     - Oh. Sim, isso teria aborrecido minha tia. O que faremos com as flores? - Margaret deixou-as ao lado de Gytha sobre a cama. - Uma guirlanda para nossos cabelos?
     - Boa idia. Usarei a minha esta noite, enquanto ainda esto frescas e lindas. Se ainda restarem algumas, mandaremos a criada coloc-las no aposento nupcial. 
Elas perfumaro o ar. - Comeou a escolher as flores que queria.
     Sentada na cama e dedicando-se  mesma tarefa, Margaret perguntou:
     - O que tanto a impressionou no grande cavaleiro ruivo?
     - Que importncia tem isso? Amanh me casarei com Robert.
     Gytha no conseguia esconder a repentina tristeza que transbordava em sua voz.
     - Se quer mesmo saber, isso me intriga. Voc j teve a seus ps o corao de muitos homens jovens e belos.
     - Duvido que eles se tenham realmente posto a meus ps, embora me importunassem com poesias ruins.
     - Digamos que eles flertaram com voc, ento. Tudo que jamais disse sobre eles, se  que disse alguma coisa, foi que eram favorecidos. Ento, surge um homem 
que no  nem isso. Na verdade, comparado a William, esse cavaleiro ruivo  quase feio.
     - Dependendo de quando o pobre William morreu, o cavaleiro poderia ser belo comparado a ele agora.
     - Gytha!
     Margaret no conseguia conter o riso ou disfarar a irritao provocada pelas respostas evasivas da prima.
     - Nunca olhou para algum e sentiu vontade de sorrir por pouca ou nenhuma razo?
     - Sim, para bebs, normalmente. H algo em um beb que provoca em mim uma felicidade terna.
     - Foi o que senti quando olhei para aquele homem. Senti vontade de cuidar dele, de faz-lo sorrir.
     - Os homens cuidam das mulheres - Margaret resmungou, sentindo-se um tanto surpresa. - As mulheres no podem cuidar dos homens.
     - Oh, sim... Os homens lutam, protegem, lideram e fazem coisas dessa natureza. Eu sei. Certa vez perguntei a papai se as mulheres eram realmente postas no mundo 
somente para ter filhos. Ele respondeu que no. Disse que ramos criadas para no deixarmos os homens esquecerem as coisas suaves e belas da vida, para mantermos 
vivas as emoes mais delicadas. Ele me disse que ramos postas no mundo para suavizar os caminhos de um homem, confort-lo e dar a ele refgio quando o mundo l 
fora se torna cruel demais.
     - E  isso que sentiu vontade de fazer por aquele homem?
     - Sim. Quis apagar as linhas de preocupao de seu rosto, fazer aquela voz rica vibrar numa gargalhada.- Ela suspirou. - Mas no cabe a mim fazer tais coisas. 
Em menos de um dia estarei casada com Robert.
     - No sente nada disso por ele?
     - Receio que no. Talvez mais tarde. Agora, quero apenas comand-lo, como tantos outros j fazem com sua permisso.
     - Isso no  bom para o casamento.
     - Bem, um casamento  sempre o que se faz dele. - Gytha foi examinar sua guirlanda de flores diante do espelho. - Pronto. O que acha dela?
     Margaret aceitou a mudana de assunto e, caminhando at a porta para deixar entrar a criada que acabara de bater, ela assentiu.
     - Muito linda. Vai us-la esta noite?
     - Sim. Ah, Edna. - Ela sorriu para a jovem e graciosa criada.-Tem notcias de nossos hspedes recm-chegados?
     - Sim, senhora. O maior  chamado por todos de Diabo Vermelho. O Diabo Vermelho e seu bando de bastardos.
     Gytha franziu a testa.
     - E um apelido cruel.
     - Mas verdadeiro. Quase sempre verdadeiro, pelo menos. O homem  realmente vermelho, e dizem que ele  o prprio demnio no campo de batalha. Muitos de seus 
homens so bastardos, filhos naturais de homens de origem elevada. Todos eles tm habilidade e conhecimento, mas nenhum tem dinheiro ou terra. Ento, eles seguem 
o Diabo Vermelho e vendem suas espadas como ele faz com a dele. Dizem que a simples viso desse grupo  suficiente para pr fim a uma batalha. O inimigo foge ou 
se rende imediatamente.
     - E um pensamento agradvel, mas duvido de que o Diabo Vermelho tenha conquistado tantas cicatrizes com rendies em massa - comentou Gytha. - Quem  ele?
     - Um Saitun, pelo que ouvi dizer. Solteiro, sem terras, mas rico em honra. E no muito pobre em moedas, a julgar pelos rumores.
     Margaret balanou a cabea.
     - No devia incentivar toda essa fofoca.
     - A fofoca vai existir com ou sem meu incentivo. No preciso encoraj-la. Por que no devo lucrar com ela? E quanto ao homem que cavalga  direita do Diabo 
Vermelho, Edna?
     - Gytha! - Margaret exclamou, corando. Ao ver o rubor, Gytha piscou para a prima.
     -Vamos, admita que est curiosa. Edna? Sabe alguma coisa sobre ele?
     Com ar sonhador, Edna suspirou.
     - Ah, que homem. Um belo sorriso.
     - Como se eu no soubesse - Margaret resmungou para si mesma. - Chegou h poucos momentos e j atraiu os olhares de todas as criadas.
     No foi fcil, mas Gytha conteve o riso.
     - Isso  tudo que sabe dele, Edna? Que tem um belo sorriso?
     - No, senhora. Ele tambm  solteiro. Na verdade, acho que todos so. Seu nome  Roger. Sir Roger. Ele  um cavaleiro.
     - Obrigada, Edna. Vamos precisar de gua para banho, por favor. - Assim que a crida saiu, Gytha olhou para a prima e sorriu. -  isso, Margaret. O homem  solteiro.
     - Sim,  um mestre na arte do flerte. Deve ser um patife, tambm.
     -Tsk, tsk. - Gytha assumiu uma expresso pesarosa. - Rotular o pobre homem dessa maneira s porque ele sorriu para uma criada graciosa... Receio que seu corao 
esteja endurecido, prima.
     - Bobagem. E pare de me provocar. Dessa vez no vai dar certo. Sim, ele  atraente. Sim, meu corao se comporta de um jeito estranho quando olho para ele. 
Porm,  melhor parar de pensar nele. O homem  destitudo de terra, possivelmente pobre. Se algum dia ele procurar uma esposa, no h de querer algum na mesma 
posio.
     Gytha foi tomada por um repentino desnimo. No havia argumento que pudesse utilizar contra essa triste realidade. Mesmo que pudesse pensar em algum, era melhor 
guard-lo para si mesma. No faria bem nenhum a Margaret alimentar esperanas que bem poderiam ser falsas. Mesmo sem nenhuma riqueza, o cavaleiro podia obter terras 
e dinheiro pelo casamento, conquistando assim tudo de que fora privado pela condio de bastardo. Isso seria mais importante que qualquer lao emocional. Moeda e 
propriedade estariam sempre acima do amor. Era um fato da vida que ela no negaria, por mais que o deplorasse.
     O desnimo tornou-se ainda maior quando ela foi forada a admitir que esse era o fator decisivo em seu prprio casamento. Tinha certeza do amor do pai, mas, 
com relao ao matrimnio, ele em nenhum momento havia considerado seus sentimentos. Estudara a linhagem do marido, suas propriedades e quanto dinheiro ele tinha. 
Seu interesse estava em garantir que ela fosse bem situada e provida, mesmo que no fosse amada. Se tentasse sugerir outro tipo de arranjo, ele certamente a julgaria 
louca. E essa seria a opinio da maioria.
     Embora se preocupasse com seu futuro emocional, essa no era a maior das preocupaes de Gytha. Seus pais haviam encontrado o amor. Precisava acreditar que 
tinha chances de viver algo parecido. Se no conhecesse o amor, ao menos poderia encontrar contentamento. E ela disse a si mesma que isso seria o bastante.
     Arrancada das sombrias reflexes pelo retorno de Edna, Gytha comeou a se preparar para as festividades daquela noite. Muitos convidados j estavam ali para 
o casamento, e a ocasio prometia ser animada. Ela tentou recuperar o nimo habitual. Os convidados esperavam uma noiva sorridente.
     - Tem medo do que est por vir? -- Margaret props a pergunta tmida quando elas se vestiam.
     - Um pouco. Meu maior receio  odiar partilhar da cama de meu marido.
     - Ningum espera que uma dama aprecie tal obrigao.
     - E o que dizem. Porm, se isso  verdade, por que tanta gente continua fazendo a mesma coisa com tanta freqncia? Por que as mulheres tomam amantes? Penso 
que essas coisas nos so ditas para que nos mantenhamos castas. - Ela deu de ombros. - Pouco importa. Prazer no  necessariamente o que busco. S no quero sentir 
repulsa. Se Deus me der vida longa, passarei muito tempo na cama de meu marido. Pense em como seria terrvel no tolerar essa experincia.
     - O que acha que pode considerar repugnante?
     - No sei ao certo. J disse, mame no foi muito precisa.
     - Mas deve ter obtido algum conhecimento com essa conversa.
     - Bem,  algo relacionado ao que existe entre as pernas de um homem. Ele vai fazer algo comigo usando esse apndice. Algo que tem a ver com o que existe entre 
as minhas pernas. E como essas duas coisas se relacionam que eu no pude discernir. - Gytha franziu a testa, surpresa com o ataque de riso da criada. - Talvez Edna 
possa esclarecer a dvida.
     Sufocando o riso, a criada se dirigiu  porta.
     - Oh, no, senhora. No cabe a mim esse papel. Movendo-se com rapidez, Gytha bloqueou a sada do quarto.
     - Edna, vai me mandar para o leito nupcial em total ignorncia? No contarei a ningum que falamos sobre isso. Todos pensaro que mame foi mais coerente do 
que realmente foi.
     - Receio conhecer apenas palavras rspidas e imprprias para os seus ouvidos, senhora.
     - Meus ouvidos sobrevivero. Edna,  melhor comear a falar, porque no vai sair daqui antes disso. No entende que  melhor para mim se eu souber? Melhor para 
todos?
     A criada refletiu por um momento e assentiu. Com grande agitao e seguidos rubores, ela explicou exatamente o que aconteceria na noite do casamento de Gytha. 
Quando terminou, um silncio prolongado invadiu o quarto por vrios segundos, at Gytha recuperar a voz. Finalmente, murmurando um agradecimento contido, ela permitiu 
que Edna sasse do quarto. Depois de fechar a porta, se apoiou nela como se temesse cair.
     - Bem, no sou mais ignorante.
     - E agora tem medo?
     - No sei ao certo, Margaret. Talvez seja melhor assim. - Ela suspirou e balanou a cabea. - Sinto-me melhor agora que sei o que me espera. H uma coisa que 
receio, ao pensar nisso.
     - O que ?
     - Temo comear a pensar muito em como ser com Robert.
     - Pelo sangue de Cristo! Eu disse que o Diabo Vermelho era um cavaleiro bom demais para ser derrubado por um francs!
     Detida repentinamente, Gytha tropeou e praguejou em voz baixa, dizendo a si mesma que a culpa era dela. Se no estivesse olhando com tanto interesse para o 
Diabo Vermelho, que entrara no salo poucos passos na frente dela, certamente teria notado que seu acompanhante havia parado. Ela se encolheu ao sentir os dedos 
de Robert apertando seu brao. Sria, olhou para a mo que a segurava com brutalidade. Tentando livrar-se do doloroso contato fsico, ela ergueu o olhar para o rosto 
de Robert e franziu a testa.
     Ele estava plido. Os olhos cor de mbar pareciam querer saltar das rbitas. Pequenas gotas de suor surgiram em sua testa. Seguindo a direo de seu olhar horrorizado, 
ela percebeu que Robert olhava para o Diabo Vermelho. Como no havia ameaa partindo daquela direo, ela ficou intrigada e curiosa com a estranha reao do noivo.
     Thayer olhou para o homem que acabara de falar. Encontrara-o algumas vezes e chegara a lutar a seu lado uma vez. Disposto a descobrir o que havia provocado 
to estranho comentrio, ele caminhou na direo desse homem.
     - Ouviu dizer que fui vencido na Frana? O homem assentiu.
     - Onde ouviu isso?
     - Ouvi a notcia de nosso anfitrio, meu primo, sir John Raouille.
     Olhando para o anfitrio, que o fitava sem tentar esconder o choque, Thayer perguntou:
     - Quem lhe falou sobre minha morte?
     - Seu prprio parente.
     - William?
     - No, sir Robert e o tio dele. - John apontou para Gytha e Robert, ainda parados na porta.
     Virando-se, Thayer olhou para o primo assustado e trmulo sem demonstrar nenhuma afeio.
     - Sua concluso foi prematura e infundada, primo. Por qu?
     Com um grito sufocado, Robert soltou o brao de Gytha. Ele se virou para correr, mas no foi suficientemente rpido. Thayer o agarrou pela elegante casaca. 
Os ps de Robert balanavam centmetros acima do cho, e ele comeou a emitir sons estrangulados enquanto as mos finas e alvas puxavam inutilmente a mo forte e 
enorme de Thayer, que o segurava com firmeza apertando-lhe o pescoo.
     Notando a dificuldade de Robert, Gytha murmurou:
     - Creio que ele no poder responder nessa posio. Ela sorriu quando o Diabo Vermelho olhou em sua direo.
     Soltando o primo prestes a ter um colapso, Thayer disparou:
     - Responda. Por qu?
     - Meu tio me disse - Robert falou com dificuldade. - Ele contou que voc havia sido derrotado na Frana.
     Thayer empurrou Robert, que caiu no cho sem nenhuma elegncia. Pensativo, o Diabo Vermelho cocou o queixo.
     - Que utilidade pode ter tal mentira? Voc e Charles nada tm a lucrar com minha morte.
     Com a ajuda de Gytha e Margaret, Robert levantou-se, tentando recompor-se.
     -  evidente que lucro. Voc no  o herdeiro de William? E eu no sou seu herdeiro? - Ele gritou ao ser novamente agarrado pela gola da casaca.
     Com o rosto quase tocando o de Robert, ento ainda mais plido, Thayer gritou:
     - Onde est William?
     - Morto - guinchou Robert. Jogado para o lado, ele bateu a cabea no cho com fora suficiente para perder a conscincia.
     Virando-se para o pai de Gytha, Thayer perguntou em voz baixa e ameaadora:
     - To morto quanto eu?
     - No, William est realmente morto.
     - Quem garante? O mentiroso que Robert chama de parente?
     - O prprio escudeiro de William nos trouxe a notcia.
     - Como foi que ele encontrou a morte?
     - Caiu do cavalo ou foi derrubado, no sabemos ao certo. Seu pescoo se partiu. Sinto muito. - Apesar das inmeras indicaes oferecidas pelo breve e ruidoso 
confronto, John ainda no sabia quem era o alvo da fria do homem. - Voc  sir Thayer Saitun?
     - Sim. - Com os pensamentos centrados na perda de William, Thayer suportou as apresentaes com grande dificuldade. - William est morto, mas o casamento vai 
acontecer?
     Gytha ajudava Margaret na tentativa de reanimar Robert, mas ergueu os olhos para responder:
     - Eu ia me casar com seu primo aqui.
     Vendo a ruga na testa de Thayer, John se apressou em explicar.
     - Faz parte do acordo.
     - Que acordo?
     - O acordo que assinei com o pai de William. Acertamos o casamento quando Gytha ainda era um beb. A Peste havia deixado sua primeira cicatriz sobre a Terra, 
por isso o acordo foi redigido de maneira um pouco... estranha. - Ele fez uma pausa e ordenou que a esposa fosse buscar a cpia do documento. - O nome de Gytha consta 
do acordo, mas no o de William. O pai dele queria a unio entre as famlias. E eu tambm. Trs de vocs poderiam chegar  maturidade e realizar esse propsito. 
William, voc e Robert. Todos estavam sob os cuidados do pai de William naquela poca. O acordo decreta que Gytha se casaria com o herdeiro de Saitun, aquele que 
sobrevivesse, fosse ele William, voc ou Robert.
     Gytha sentiu o olhar de Thayer como um toque fsico e doloroso. A cor havia desaparecido de seu rosto. Ele parecia horrorizado. Essa era uma reao que ela 
jamais havia causado em um homem. Sabia que no a teria incomodado se fosse outro homem, porque nunca se importara com o que pensavam dela. Era injusto que se importasse 
agora, exatamente com um homem que parecia consider-la uma praga.
     Lady Raouille colocou um documento na mo de Thayer, arrancando-o do estupor em choque. Por um momento ele olhou aturdido para a folha de papel, a mente tomada 
por pensamentos fragmentados. Agora ele era um homem de posses, um homem de propriedade e ttulo. No seria difcil aceitar a mudana. Mas o preo a pagar por isso 
o enchia de pavor. Teria de se casar. E que esposa teria! Um homem como ele se casar com tamanha beldade era simplesmente uma maldio.
     Finalmente, se obrigou a ler o documento que tinha na mo, mas no encontrou nenhum alvio ali. Na caligrafia firme de seu pai adotivo e tio, o documento afirmava 
que o proprietrio do castelo de Saitun Manor se casaria com Gytha Odel Raouille quando ela completasse dezessete anos. No era mais o casamento de William que ele 
testemunhava, mas o prprio casamento. Seus olhos recaram sobre Gytha quando ela e outra jovem ajudavam Robert a se sentar. Ele ainda estava atordoado, mas no 
tinha tempo para ocupar-se do primo agora. Ele encarou John Raouille.
     - Isto  legal?
     - Legal e vlido. Como pode ver, o rei colocou seu selo aprovando a unio entre nossas famlias.
     Thayer viu o selo real. O documento o obrigava a se casar com Gytha. A aprovao do rei conferia ainda mais peso a essa obrigao. Na verdade, tal aprovao 
era quase uma ordem real. O ttulo de lorde, baro de Saitun, agora era dele, bem como o castelo de Saitun Manor. Tambm era dele a riqueza da famlia. E tambm 
era dele Gytha Raouille, mesmo que no a quisesse. Ele estava ali. A noiva estava ali. O casamento havia sido preparado. No havia como escapar.
     Ainda aturdido pela seqncia de eventos, Thayer se deixou levar para a mesa e ocupou o assento entre John e Gytha. Ele notou vagamente o olhar preocupado de 
Roger, que se sentara entre Gytha e Margaret, que tambm exibia uma expresso apreensiva. Nesse momento precisava de mais do que uma simples apreenso. Robert estava 
sentado ao lado de lady Raouille e parecia prestes a explodir em lgrimas. Thayer tambm sentia uma forte vontade de chorar e gritar. Ele mal reconheceu a qualidade 
indiscutvel da comida e do vinho que eram servidos enquanto tentava encontrar uma forma de escapar. No entanto, no havia nenhuma.
     Gytha olhou para o noivo, esvaziou sua taa de vinho e esticou o brao para que fosse servida mais uma dose. Cuidava para que sua taa fosse mantida cheia durante 
toda a refeio, esperando afogar a prpria dor em vinho. Sabia que no era a vaidade ferida que lhe causava o desconforto. No s a vaidade. Era verdade que os 
homens sempre haviam reagido de maneira favorvel a sua presena. Tambm era verdade que nunca se importara muito com essa reao do sexo oposto. Mas agora era diferente. 
Pela primeira vez na vida sentia um certo interesse por um homem. Um sentimento autntico, genuno. E dessa vez o homem no se interessava por seus sorrisos. Esse 
homem reagia  notcia do iminente casamento com ela como se acabasse de ser informado de que contrara a Peste. Sim, encharcar-se de vinho era exatamente o que 
ela precisava fazer nesse momento. Segurando a taa para ser cheia mais uma vez, ela ignorou as tentativas de Margaret de chamar sua ateno.
     Margaret estava to preocupada com Gytha que esquecia suas maneiras. Debruando-se sobre a mesa, ela passou um brao pela frente de um espantado Roger para 
cutucar a prima, conseguindo finalmente chamar sua ateno. A luminosidade nos olhos de Gytha quando ela se virou para fit-la s alimentou sua preocupao.
     - Quer parar de beber como...
     - Como se comemorasse? - Gytha sorriu e bebeu mais alguns goles. - E uma comemorao, no ? Minha festa de casamento, na verdade. Ento, estou festejando.
     - Est se embriagando, isso sim.
     Gytha olhou para Roger e notou que ele ria.
     - Diga-me, senhor, o que as pessoas fazem em uma festa?
     - Comem, bebem e celebram - ele respondeu com um sorriso.
     - Ah! Eu j comi. Agora estou bebendo. E estou celebrando. V, Margaret? No h nada com que se preocupar.
     Quando Gytha se virou, Margaret tentou cutuc-la novamente, mas Roger a deteve.
     - Deixe a moa em paz, senhorita. Ela no faz mais do que todos os outros.
     - O que  muito mais do que ela jamais fez. Gytha nunca bebe mais do que uma taa de vinho com a refeio. Ela nunca se embriaga. No imagino onde essa indulgncia 
a levar.
     - Direto para a cama, sem dvida.
     Margaret se preparava para responder quando uma voz masculina e familiar gritou:
     - Com licena! No me deixaram nada para comer, ento?
     - Bayard! - Gytha exclamou, levantando-se de um salto para ir cumprimentar o irmo. Margaret fez o mesmo.
     Ela correu para o rapaz esguio parado na porta. Sem nenhuma dificuldade, o recm-chegado tomou nos braos as duas jovens. Todos riram enquanto Gytha e Margaret 
cobriam o rosto do recm-chegado de beijos e o crivavam de perguntas. Por cima do ombro do irmo, ela viu lorde Edgar, seu tio, aproximando-se da porta. Logo os 
pais de Gytha tambm foram cumprimentar o filho e, depois de uma acolhida mais contida, eles o convidaram a se sentar. Olhando em. volta para o alegre grupo reunido 
momentaneamente na porta, Gytha percebeu que havia algo na festa de casamento que merecia sua gratido. Sua famlia estava novamente reunida.
     Observando a feliz reunio, Roger murmurou:
     - O rapaz tem excelente aparncia. John Raouille produz herdeiros de beleza admirvel.
     Thayer concordou com um granhido. No podia deixar de pensar em como duas pessoas to comuns quanto John e Bertha podiam ter produzido filhos to belos. Quando 
ele se surpreendeu imaginando qual seria a aparncia de seus filhos com uma mulher to linda quanto Gytha, praguejou para si mesmo. Pensar em futuros filhos era 
um final de aceitao de seu destino, quase um sopro de esperana para o futuro. Nunca tivera intenes reais de se casar. Agora que tinha posses, esse era um passo 
natural.
     Porm, no queria uma esposa to bela. Nesse caso, o futuro traria apenas problemas, decepo e dor.
     - Feriu profundamente os sentimentos da moa-Roger continuou.
     - Como assim?-Thayer tinha dificuldades para acreditar nisso.
     - Como assim? - Roger balanou a cabea com espanto. - E ainda pergunta, depois de ter se sentado a como quem se prepara para prender uma ratoeira no prprio 
traseiro?
     - Um homem como eu  solicitado a se casar com uma mulher linda... E como uma ratoeira. - Podia imaginar o futuro. Dias e dias chutando homens para fora de 
sua cama.
     - Meu amigo, pela primeira vez na vida est fazendo um julgamento sem ter conhecimento do caso. Est tirando concluses sem fatos que possam justific-las. 
Sim, a moa  linda e pode incendiar o sangue de um homem. Porm, c estou eu, pronto para trocar sorrisos e flertar, e ela no correspondeu aos meus esforos. No 
acredito que seja leviana.
     - Ela no precisa ser. Ainda assim, estarei tropeando em homens apaixonados at o fim de meus dias. E quando envelhecer, ela vai acabar sucumbindo a um ou 
outro assdio mais ardiloso.
     - Ento, endurea seu corao e deixe o corpo se banquetear com essa bela esposa.
     Havia na voz de Roger uma rispidez que assustou Thayer. Entretanto, ele no teve tempo para refletir sobre a razo disso. Estava sendo apresentado a Bayard 
Raouille e lorde Edgar Raouille, irmo e tio de sua futura esposa. Alguns comentrios sutis entre os membros da famlia revelaram quem era Margaret e agora tambm 
sabia que ela era a razo pela qual esposa e filhos de Edgar no compareciam ao casamento. Os poucos comentrios lamentavam apenas a ausncia dos filhos de Edgar.
     - John e Fulke ainda no chegaram? - Bayard perguntou.
     - No - respondeu o pai dele. - Mandaram mensagens explicando a demora. Esperamos que eles cheguem a tempo de testemunhar a cerimnia.
     - Tenho certeza de que chegaro. - Bayard sorriu para Gytha. - Vejo que houve outra troca de noivos.
     - Parece que sim. Robert precipitou-se ao se colocar na posio de herdeiro. O relato sobre a morte de sir Thayer era inverdico - ela respondeu.
     Enquanto Bayard ria, Thayer olhava para a noiva. Estava certo de ter detectado sarcasmo por trs de suas palavras, mas ela parecia doce demais para esse tipo 
de atitude. A exagerada inocncia no olhar, porm, alimentou suas suspeitas. Ele decidiu considerar essa questo mais tarde, em outra ocasio.
     Todos conversavam, mas ele no ouvia o que diziam, pois ponderava a situao em que se encontrava e tentava aceitar o destino que se apresentava sem aviso prvio. 
Margaret falava sobre a cerimnia de casamento na manh seguinte, e ele queria acompanhar com ateno a reao de Gytha.
     - Veremos - ela resmungou. - Podemos acordar e descobrir que o noivo fugiu.
     Thayer encarou-a com ar severo.
     - Eu estarei aqui. No costumo romper acordos.
     - Perdo! - Ela ps a mo sobre o peito num gesto dramtico. - O romance est no ar esta noite.
     Roger engasgou com a bebida. Margaret riu e bateu nas costas dele. Os dois pareciam se divertir muito, ao contrrio do noivo. Thayer olhou para a taa de vinho 
que Gytha tinha na mo, e seus olhos excessivamente brilhantes e a cor nas faces, sugeriram que ela j havia bebido demais. Ele estendeu a mo para pegar a taa 
e descobriu que, alm de ter uma forte tendncia para o sarcasmo, sua noiva tambm podia ser obstinada.
     Gytha agarrou a taa e se recusou a entreg-la. Ela o encarou sria, reconhecendo que j havia bebido em excesso, mas sentia a necessidade de beber ainda mais. 
No desistiria de sua taa. O vinho aliviava o desconforto causado pela atitude ofensiva do noivo.
     Notando como a noiva olhava para a mo de Thayer, Margaret colocou um pedao de carne na mo de Roger.
     - Quando ela abrir a boca, encha-a de carne.
     - Mas por qu? - Roger no sabia se devia seguir a estranha sugesto.
     - No h tempo para explicar. L vai ela. Faa o que eu disse... depressa!
     Quando Gytha se preparava para cravar os dentes na mo de Thayer, ela se descobriu com a boca cheia de carne. Metade do pedao ainda estava do lado de fora. 
Quando ouviu as gargalhadas de Margaret e Roger, ela compreendeu que a prima estava por trs de sua incapacidade de causar dano ao futuro marido. Sem deixar de encar-lo, 
ela mastigou lentamente e engoliu o alimento.
     Era difcil, mas Thayer conseguiu conter o riso. Sabia que era melhor no ceder ao sorriso que ameaava distender seus lbios. Uma coisa que devia esperar da 
esposa era obedincia, e sentia que era necessrio inform-la de sua inteno desde o incio. O pai dela, porm, roubou-lhe a oportunidade.
     - Gytha, minha filha, por que no vai mostrar o jardim a sir Thayer? - Ele olhou para o cavaleiro, tentando transmitir sua esperana. Algum tempo sozinhos, 
e tudo comearia a melhorar. - Senhor, garanto que vai apreciar meu jardim.
     Sentindo as intenes do homem, Thayer murmurou:
     - Talvez seja melhor deixarmos esse passeio para a luz do dia.
     - No  preciso esperar. O jardim est iluminado pela lua e por muitas tochas.
     Mesmo embriagada como estava, Gytha no tinha dificuldades para adivinhar a inteno do pai. Ela se preparava para dizer que no sentia nenhuma necessidade 
imediata de conhecer melhor o noivo, quando viu Thayer olhar para Roger com ar de splica. Roger suspirou, mas levantou-se assim que Thayer se ps em p. Ela tambm 
se levantou e chamou Margaret com um gesto. Se Thayer insistia em ter companhia, ela no seria diferente. Com relutncia semelhante a de Roger, Margaret levantou-se.
     - Pensei que iriam apenas os dois - John murmurou, olhando intrigado para a filha.
     - Se meu noivo decidiu levar um acompanhante, creio que devo fazer o mesmo.
     Sentindo-se corar, Thayer segurou o brao da noiva e a levou para longe dali. Irritado, ele notou que Gytha levava a taa e um bom suprimento de vinho para 
mant-la cheia. Roger e Margaret os seguiam, a presena dos dois o ajudou a recuperar parte da calma.
     Uma vez do lado de fora, ele logo entendeu o comentrio do pai de Gytha. Arbustos, rvores e flores ofereciam total privacidade a quem quisesse caminhar e apreciar 
a beleza natural do lugar. De incio, um homem podia decidir que o uso do espao era frvolo, tal a preciosidade com que eram tratados os canteiros de formatos geomtricos 
e cores vibrantes. Thayer vira jardins parecidos em manses da Europa, mas sabia que o estilo ainda era novidade na Inglaterra. Ali os jardins eram apenas um emaranhado 
de plantas ao natural ou canteiros de vegetais teis, temperos e ervas para a culinria. John tambm acertara ao insinuar que aquele era um excelente lugar para 
o romance.
     Thayer fez uma careta ao pensar na ltima palavra. Romance. Sua noiva merecia um pouco de seduo. No podia negar essa verdade. Ela no era culpada pela situao 
nem pela prpria beleza. Infelizmente, a arte da seduo se perdera para ele. Vendo Gytha caminhar alguns passos na sua frente, e registrando o silncio constrangido 
de Roger, ele tentou pensar em alguma coisa para dizer. Qualquer coisa.
     Ignorando a desaprovao de Margaret, Gytha enchia novamente sua taa e a dela. Ela ofereceu vinho a Roger, fazendo um grande esforo para se livrar da raiva 
que a envenenava rapidamente. No dia seguinte se casaria com o homem que marchava atrs dela. Em um lugar que sugeria romance, ele se mantinha afastado e carrancudo. 
De repente foi tomada por um impulso de falar diretamente, com total honestidade. Precisava descobrir exatamente por que ele se opunha com tanto fervor  idia de 
despos-la. Parando repentinamente, ela se virou para encar-lo.
     Ainda pensativo, buscando as palavras com desespero crescente, Thayer no a viu parar e tropeou nela, derrubando-a na grama a seus ps. Roger e ele se moveram 
ao mesmo tempo, ambos com a inteno de ajud-la a se levantar, e quase tropearam um no outro. Margaret tambm correu e estendeu a mo.
     - Devia ter avisado que pretendia parar - Thayer disparou enquanto Gytha, j em p, removia as folhas de grama do vestido.
     - Parei porque pretendia lhe falar, senhor.
     - Sim? O que tem a dizer?
     Gytha o encarou e decidiu que sua posio ali era muito desconfortvel e delicada. Com tudo que ocupava sua mente e todas as palavras que tinha para dizer, 
sentia que poderia sofrer um severo torcicolo antes de dar a misso por cumprida. Olhando em volta, ela localizou um banco de pedra. Segurando-o pela mo, puxou 
o assustado noivo at l e, depois de coloc-lo sentado, mantendo-se ela mesma em p, finalmente conseguiu encar-lo com um pouco mais de conforto.
     - O que o repudia tanto nessa idia de nos casarmos? - ela perguntou.
     - Gytha... - Margaret comeou num protesto hesitante. - E uma pergunta razovel, prima. E ento, senhor? Prefere as damas morenas?
     - No. - No podia falar a ela sobre seus medos, sobre como temia um futuro cheio de sofrimento, vergonha e traio.
     - Sou pequena demais para o seu gosto, ento?
     - Bem,  verdade que seria difcil encontr-la, se fosse um pouco mais baixa.
     - Ah, entendo. Lamenta que eu no seja mais alta? - Ela franziu a testa ao v-lo balanar a cabea numa resposta negativa. - Mais magra? Mais gorda?
     Apesar do esforo para resistir, os olhos de Thayer analisaram a figura esguia. No havia nada nela que pudesse criticar. Seios altos e cheios, cintura estreita 
e quadril arredondado, enfim, propores que despertavam nele um inegvel interesse. Seu corpo manifestava sem equvoco a nsia de comear logo a vida conjugal com 
Gytha.
     - Nada disso. Fiquei chocado, apenas. Vim para c esperando testemunhar o casamento de William, e de repente, descubro que William est morto e eu serei o noivo. 
Vim com a inteno de conhecer a esposa de meu primo. Em vez disso, sou apresentado  minha futura esposa. Essa  uma situao que deixaria qualquer homem perturbado.
     Ela entendia o sentimento. Mesmo assim, tinha certeza de que o noivo no estava dizendo toda a verdade. Apesar do vinho que lhe perturbava o raciocnio, ela 
tambm sabia que era intil continuar pressionando. Felizmente j tomara a deciso de encerrar o assunto, porque vozes do outro lado de um canteiro atraram sua 
ateno.
     - No devemos - protestava arfante uma voz feminina. - Meu marido...
     - Est encharcado de vinho e bem prximo da inconscincia.
     - Sua esposa?
     - Deitada. E ela no d muita importncia a como me entretenho. Ah, voc  to encantadora... Seus seios so fartos e doces como meles maduros.
     Gytha olhou para Margaret, que cobria o rosto vermelho com as mos. Embora sempre houvesse escutado comentrios sobre amantes e encontros fortuitos, infidelidade 
e adultrio, nunca acreditara muito neles. Seus pais eram profundamente apaixonados, e ela considerava o casamento fiel e slido de que era fruto, como via de regra. 
Agora ficava claro que os rumores tinham, sim, um fundo de verdade.
     No auge da indignao, ela decidiu que tais coisas no seriam permitidas em sua casa. Depois de censurar com o olhar os dois homens que pareciam se divertir, 
Gytha caminhou na direo da cerca natural. Ouvindo os passos dos trs companheiros atrs dela, tratou de se apressar para no se deixar deter. A viso do casal 
abraado e deitado no cho a enfureceu. O homem a viu e se apressou em ficar em p, mas ela o atingiu com um inesperado e violento chute nas ndegas. O casal tentava 
ajeitar as roupas sob o olhar severo de Gytha. Ela comeou um duro sermo, enfatizando certas declaraes com um chute ou empurro direcionado a um ou outro. Sentia-se 
capaz de entender as fragilidades humanas e podia tolerar seus erros, mas isso j era demais. Encontrar algum em flagrante adultrio no jardim recm-construdo 
por seu pai, entre as flores que eram o orgulho e a alegria de sua me, era mais do que podia tolerar. Inteiramente vestida e recomposta, a mulher por fim se revoltou.
     - O que sabe sobre o amor?
     - Est dizendo que ama esse patife infiel? - Se houvesse amor envolvido, poderia temperar sua condenao, embora julgasse tolice amar um homem capaz de trair 
a prpria esposa.
     A mulher hesitou e, quando respondeu, no havia convico em sua voz.
     - Bem...  claro que sim.
     - Mentira! Agora aumenta seus pecados mentindo. Volte para seu marido. Seu lugar  ao lado dele.
     - J viu meu marido?
     - Sim, e reconheo que ele no tem a beleza desse porco traidor. Porm, ele  limpo, saudvel e ainda tem todos os dentes e cabelo. E tambm parece ser um homem 
alegre. Podia ter encontrado algum pior. Agora sumam os dois, porque j esto me aborrecendo.
     Ela se surpreendeu quando o casal se apressou em obedecer ao comando imperioso.
     - Oh, Gytha - Margaret murmurou quando o casal adltero desapareceu -, no devia ter interferido.
     - Margaret, meus pais passeiam por esse jardim. Thayer ria sem parar. Roger tambm gargalhava. Gytha olhava para o cho como se o casal houvesse deixado na 
relva marcas indelveis, e ainda parecia indignada. Furiosa ela era ainda mais linda.
     Devagar, Gytha olhou para Thayer atrada pelo som de sua risada. Era profunda, rica, mas com uma qualidade quase juvenil. Era contagiosa. Roger tambm ria. 
Margaret estava intrigada. Gytha sentiu vontade de perguntar  prima se a risada de Roger aquecia seu interior como a de Thayer a aquecia por dentro.
     - Suponho que tenha sido tolice minha interferir - ela murmurou, aproximando-se de onde ele se sentara no cho com as costas apoiadas contra uma rvore.
     Roger levantou-se, segurou a mo de Margaret e a levou para longe dali. Pelo que podia ver, seu pai no era o nico a acreditar que devia passar algum tempo 
com Thayer. S ela e ele. Embora no tentasse det-los, Gytha se sentia dividida. O ataque de riso suavizara a expresso de Thayer, tornando-o menos distante. No 
entanto, no lbia o que dizer ou o que fazer. Estava nervosa, quase tmida.
     Sabia que a frieza e o distanciamento de Thayer podiam retornar, porque havia muitas razes para isso. O choque de descobrir-se noivo, porm, no era uma delas. 
E ela no sabia como chegar  verdade por trs daquele estranho comportamento.
     Tentar pensar em um jeito de comear a conversa fazia lua cabea doer. Nunca tivera um problema antes. A nica dificuldade que enfrentara havia sido manter 
a conversa amena, evitando palavras de amor ou desejo que Sempre acabavam escapando dos lbios de outros homens. Todos os outros, menos seu noivo. Ela suspirou tomada 
por uma sbita tristeza, reconhecendo que no teria esse problema agora. Era difcil no pensar na crueldade do destino. Essa era a primeira vez que desejava ouvir 
palavras doces, mas estava certa de que o homem a seu lado no as pronunciaria.
     Thayer estudou a noiva to prxima dele. No havia malcia em seu rosto alvo e perfeito. Nenhum trao de vaidade ofuscava o brilho natural de sua beleza. Havia 
em torno dela uma aura que sugeria que havia sido uma criana protegida. Mesmo assim, ele se agarrava ao desconforto, temendo relaxar, sabendo que, se no se defendesse, 
nenhum ferimento sofrido em batalha poderia se igualar em dor ao sofrimento que seria resultante de tal entrega.
     - Eles s iro a outro lugar. - Thayer mantinha o tom gentil, evitando dar a entender que a ridicularizava de alguma maneira. - Pode ter dificultado a relao, 
mas no a impediu.
     - Eu j pensei nisso. Eles vo arder no inferno.
     - Gytha, essa  uma ocorrncia muito comum. Mulheres tomam amantes, homens se deitam com meretrizes...
     - Meus pais no cometem tais pecados. So fiis aos votos que fizeram perante Deus. E eu sei que a fidelidade  resultante do amor que fortalece o casamento.
     - Sim. Qualquer um que os conhea pode ver que se amam, e nisso eles so afortunados. Mas nem todos tm essa sorte, e muitos tomam amantes.
     - Amantes... bah! Parceiros na luxria. No havia amor algum entre aquele casal. E  a que o pecado realmente reside. - De repente ela pensou em algo que a 
atingiu com um raio. - Voc vai ter amantes?
     Por um momento ele se sentiu tentado a falar duramente sobre impertinncia. Esse era um assunto que qualquer esposa sensata e obediente devia ignorar. Gytha 
era mesmo impertinente e ousada, mas tambm era ingnua a ponto de ainda acreditar na santidade do casamento. Ele decidiu que esse no era o momento para um sermo. 
Alm do mais, sabia que, enquanto a esposa se mantivesse fiel, ele no teria dificuldade para fazer o mesmo. Possua um saudvel apetite sexual, mas no precisava 
de variedade. Se Gytha levasse algum calor a sua cama, no sentiria nenhuma necessidade de buscar outros leitos.
     - No, a menos que voc leve outro homem para sua cama.
     A beleza do sorriso de Gytha o fez perder o flego.
     - Nesse caso,  melhor comear a escrever cartas de despedida a todas as mulheres com quem se relaciona.
     - No tenho nenhuma amante.
     A incredulidade no rosto de sua noiva era lisonjeira.
     - As mulheres que conheo se interessam antes pelo valor da minha moeda. - Ele riu diante da persistente expresso de dvida, mas logo ficou srio. - Conheceu 
William?
     - No muito bem. Passamos apenas algumas poucas horas juntos. Quer saber se choro a morte de meu noivo?
     Ele assentiu lentamente.
     - No o conheci o bastante para isso. O que senti foi apenas um pesar passageiro pela perda de um homem jovem e saudvel.
     - Sim, e em circunstncias muito terrveis.
     Ele falou distrado, pensando que estavam ali prximos, sozinhos. A beleza de Gytha era do tipo que inspirava os menestris. Saber que ela logo seria sua pelas 
leis do rei e de Deus era inebriante. Ele tocou os cabelos brilhantes e estudou o rosto delicado e os lbios carnudos.
     Gytha reconhecia aquele olhar, mas no sentia o habitual impulso de se afastar.
     - Pretende me beijar?
     - Voc  sempre to ousada em suas perguntas?
     - Dizem que sim. Mas creio que o vinho me torna ainda mais arrojada que de costume. Vai ou no? - ela tornou a indagar.
     - confesso que a idia me agrada. - Ele afagou a face corada com a ponta dos dedos. - William a beijou?
     - Sim, e tive de cont-lo com alguns tapas, uma ou duas vezes. Ele tinha idias atrevidas sobre a arte de conquistar uma mulher.
     Thayer bem podia imaginar como o primo se comportara com uma mulher de to estonteante beleza. Ele sorriu.
     - E Robert?
     - Eu mal havia me tornado noiva dele quando voc chegou. Se quer uma lista, confesso que no tenho muitos nomes a recitar, mas j tive de aturar um dilvio 
de poesias enjoativas e horrveis.
     O comentrio espontneo o fez rir.
     - O vinho tambm a torna impertinente.
     - Receio que essa caracterstica no seja culpa do vinho. - Ela o observou com uma expresso ansiosa, cheia de expectativa e curiosa, tentando adivinhar como 
seria ser beijada por esse homem.
     Notando seu olhar, Thayer balanou a cabea admirado e a tomou nos braos. Era um orgulho ser objeto de ateno da beldade. Firme, ele disse a si mesmo que 
vivia apenas um prazer passageiro, mas a idia pouco fazia para amenizar a sensao prazerosa.
     Sem mais pensar, ele a beijou. Quando Gytha o abraou e correspondeu, o beijo ganhou ardor. S quando Thayer tentou tornar o beijo ainda mais ntimo, ela recuou 
hesitante, encarando-o com uma mistura de curiosidade e irritao. Mas havia tambm uma ponta de desejo em sua expresso.
     - Foi nesse momento que esbofeteei William.
     As mos deslizando por suas costas despertavam nela um delicioso calor.
     -Voc o preveniu da maneira como est me prevenindo? Thayer beijou-a vrias vezes no rosto.
     - No. - Estava ofegante. A voz soava rouca, o que a surpreendia.
     - Isso  s uma parte do beijo. Venha, deixe-me beij-la. - Ela ofereceu os lbios. - Ah, que viso deliciosa.
     Thayer beijou-a novamente, dessa vez com maior intimidade, e Gytha suspirou de satisfao. Cada instante alimentava o calor que a incendiava por dentro. Ela 
o abraou com mais fora, deixando-se puxar para o colo do noivo. Quando o beijo chegou ao fim, ela estava trmula em seus braos. A paixo tornava nebulosos seus 
pensamentos, dominado ento por estranhas sensaes.
     Thayer tambm estava um pouco tonto. Nunca um nico beijo o excitara tanto. Talvez fosse a errante esperana alimentada pelo brilho que via nos olhos dela. 
Nada do que dissesse a si mesmo poderia mudar o que via nos olhos de Gytha. Excitara muitas mulheres antes, mas nenhuma como ela. Mulheres como ela nunca se aproximavam 
o bastante para testar sua habilidade ou a falta dela.
     - Eu me sa bem? - ela murmurou. Ele sorriu.
     - Sim. Muito bem. Tanto, que acho melhor voltarmos para a festa. - Ajudou-a a se levantar. - No quero ser esbofeteado.
     Trocando informaes variadas sobre eles, Gytha e Thayer retornaram ao salo e se juntaram a Roger e Margaret. Embora participasse da conversa, Thayer estava 
mergulhado nos prprios pensamentos, tomado por dvidas e medos. Gytha havia sido noiva de William, um homem de beleza excepcional, e depois quase se casara com 
Robert, que tambm era muito atraente. Agora se casaria com ele. Sentira sua reao quando a beijara, mas sabia que logo ela se ressentiria por ter se casado com 
o primo mais desprovido de atrativos fsicos. Por mais que tentasse se livrar dos pensamentos, sempre que olhava para a noiva, ele antevia problemas.
   CAPTULO II
     Apesar da generosa dose de vinho, Thayer continuava tenso. Na companhia dos trs irmos de Gytha, ele esperava pela noiva e notava que os trs rapazes tambm 
exibiam traos surpreendentemente belos. Alegres e vigorosos, faziam o possvel para mant-lo relaxado, mas o esforo era intil, para seu desnimo. Nem mesmo o 
ambiente de camaradagem podia dispersar os sussurros em torno dele ou ceg-lo para os olhares lanados em sua direo. Piedade. Era esse o sentimento dos convidados 
pela noiva. Todos ali sentiam que a beleza da noiva seria desperdiada ao lado de um homem como ele, e era impossvel no concordar com aquelas pessoas.
     - Sinto que temos o dever de preveni-lo sobre o carter de nossa irm. - Fulke Raouille piscou para Thayer e riu.
     Thayer conseguiu sorrir para o rapaz.
     - Pretende relacionar os defeitos dela?
     John, o irmo mais velho, assumiu um ar de falso Ultraje.
     - Nossa irm no tem defeitos. Apenas um ou dois arranhes em sua perfeio.
     - Disse bem - murmurou Thayer.
     Bayard acrescentou:
     - Ela no foi mimada, mas tem sido coberta de muitos cuidados, como Margaret, que a acompanhar. Ambas foram protegidas como duas donzelas devem ser.
     - Isso  evidente nas maneiras de ambas. Sossegue seus temores, Raouille. Pretendo ser um bom marido para Gytha.
     - Em alguns momentos vai sentir que sua pacincia est por um fio.
     - John tem razo - confirmou Fulke. - Nossa irm sempre teve liberdade para expressar opinies.
     John assentiu e acrescentou:
     - E  comum que seu senso de humor parea estranho. Juntando-se ao quarteto, o pai de Gytha disse:
     - E ela insiste em ser ouvida. No nos interprete mal. No estamos querendo convenc-lo de que vai se casar com uma megera intolervel. No  isso. O fato  
que ela nunca acata ordens num silncio submisso, porque sempre insiste em obter explicaes. Sim, e quer ter tambm uma chance de expressar sua opinio sobre o 
assunto. E ela  muito obstinada nesse sentido.
     - Sim - confirmou Fulke -, ela  conhecida por se agarrar s coisas at ser ouvida.
     Momentaneamente distrado de suas preocupaes, Thayer sorriu.
     - Ela se agarra s coisas? O pai de Gytha suspirou.
     - Mesas, cadeiras, at pessoas. Agarra-se como musgo.  impossvel demov-la.
     Thayer riu.
     - O que o destino reservou para mim?
     Lorde John sorriu.
     - Ela no ser uma esposa tediosa. A muito o que dizer em favor disso.
     Antes que Thayer pudesse responder, Roger se aproximou e perguntou:
     - Algum viu Robert ou aquele tio dele?
     - Sim - respondeu lorde John. - Partiram antes do nascer do sol.
     Thayer franziu a testa ao receber essa informao. Havia presumido que a falta de retribuio imediata deixaria clara sua inteno de dar  dupla o benefcio 
da dvida. No havia razo para a fuga desesperada. Em sua opinio, o ato servia para confirmar a culpa dos dois, mas ele baniu da mente todo e qualquer pensamento 
sobre ambos.
     A chegada de Gytha interrompeu a reflexo e o deixou sem ar. Sua beleza era acentuada pela evidente falta de vaidade e pela simplicidade que iluminava seus 
traos perfeitos. Ela se aproximava devagar, parando aqui e ali para cumprimentar os convidados que queriam desejar felicidade e sorte. Seu sorriso era tmido, mas 
no havia nele sinal de relutncia. Isso s serviu para reduzir um pouco a tenso que o afligia.
     Gytha caminhava para o futuro marido com passos seguros. Estava um pouco nervosa, mas alegre, tambm, e no havia sentido nada parecido com William ou Robert. 
S com Thayer Saitun. William e Robert no haviam dado a seus sonhos uma dose de sensualidade. S Thayer Saitun. Esses sonhos haviam despertado nela uma certa curiosidade. 
Ao pousar sua mo sobre a de Thayer, ela descobriu que esperava ansiosa pela noite de npcias, apesar do receio gerado pela inexperincia.
     A cerimnia foi mais rpida do que ela havia previsto. Suspeitava de que o nervosismo a roubava da noo do tempo real. Toda a sua ateno estava concentrada 
no sacerdote, nas palavras que ele dizia, na voz rica e profunda de Thayer repetindo seus votos. Ela se ajoelhou ao lado dele inundada pelo conhecimento de que, 
quaisquer que fossem os problemas no futuro, seu lugar era bem ali, ao lado do marido. Quando a cerimnia a separou de Thayer, ela se descobriu aborrecida por isso.
     A celebrao prosseguia animada quando Roger conseguiu um momento a ss com Thayer.
     - Uma noiva encantadora, Thayer.
     - No h criatura viva capaz de discordar disso.
     - Mas voc ficaria mais feliz se ela fosse desprovida de encantos.
     - Sim, embora muitos me considerem maluco por isso. Voc, inclusive. Olhe ali. Estamos casados h poucas horas, e ela j est cercada de admiradores.
     - Sim, mas note os olhos dela, meu amigo. Aquele olhar doce sempre recai sobre voc, ignorando os homens que a cercam. No seja injusto. No a condene sem provas 
ou julgamento.
     Thayer suspirou profundamente.
     - Eu sei que seria melhor se ela no fosse to bela. Por outro lado, essa ser uma vitria conquistada com muito esforo. Muitos buscam alimentar meus temores. 
Muitos dizem que meu casamento  um passo grande demais para minha posio, que agora possuo algo mais valioso do que eu mesmo. Lembram-me de que sempre haver algum 
tentando roubar-me o trofu.
     - No oua o que dizem.
     - No  to fcil.
     - Se sua apreenso tem fundamento e a jovem s procura um rosto bonito, ento ela no  digna de sua preocupao e de seu sofrimento.
     - Eu sei. - Thayer olhou para a esposa esperando poder absorver essas palavras de sabedoria.
     O rosto que Gytha buscava constantemente na multido era julgado por muitos de excessiva beleza, fato que muitos se viam obrigados a elogiar e comentar com 
ela. Gytha sorria e era sempre polida com os rapazes que a assediavam, mas seguia Thayer com o olhar. Por mais que tentasse faz-lo entender que desejava ser resgatada 
de seus admiradores, ele no captava a mensagem. Finalmente, ela procurou pelo pai disposta a pedir sua ajuda. No mesmo instante, ele a salvou do grupo vido.
     Infelizmente, ele no a levou para Thayer, mas para um grupo de jovens mulheres do qual fazia parte Margaret, o que a agradou muito. Mas logo ela compreendeu 
que essa seria sua nica satisfao. A prima era a nica que sabia conter a lngua. As outras manifestavam piedade por ela ter de aceitar a pssima escolha feita 
em seu nome, um marido feio e desprovido de graa e riqueza, e apesar do esforo para manter a calma e ignor-las, Gytha ia ficando cada vez mais zangada.
     Uma jovem chamada Anne suspirou profundamente.
     - Ah, voc  to corajosa! Como suporta bem o infortnio.
     - No sofri nenhum infortnio - Gytha falava por entre os dentes, mas nenhuma delas parecia perceber sua ira.
     Sua prima Isabel falou num tom excessivamente doce e falso:
     - No precisa esconder o que sente. Ele  horrvel. To horrivelmente vermelho!
     Gytha se ressentiu com as palavras usadas para descrever seu marido.
     - Ele  um homem bom e forte. Sua coragem foi provada muitas vezes.
     - Oh, ningum duvida disso - disse uma loira chamada Edwina. - Ah, mas depois do doce William? Deve ser terrvel ver-se obrigada a casar com um homem to carente 
de beleza e elegncia. E no esquea, Gytha, que um homem casado com a espada raramente tem vida longa.
     Gytha ergueu a taa com a evidente inteno de esvazi-la sobre a cabea de Edwina, mas algum segurou seu pulso. A interveno de seu irmo Fulke no a agradou, 
e ela o encarou furiosa. O sorriso de Fulke s alimentou sua ira, mas Gytha no protestou, porque seu irmo j a levava para longe do grupo, o que era um alvio.
     Thayer observava a esposa e percebia sua contrariedade. Ele a seguiu quando Fulke a afastou do grupo. Margaret tambm corria atrs deles. Gytha se virou para 
fit-lo quando sentiu a presena prxima, e Thayer se assustou com a fria estampada nos olhos da esposa. Estava curioso quanto  causa de to intensa emoo.
     Fulke balanou a cabea e riu, arruinando o esforo para se mostrar austero.
     - Querida irm, no  boa idia lavar nossos convidados com vinho.
     - Era isso ou arrancar os olhos dela. - Gytha recuperou a taa que o irmo lhe havia roubado.
      - Que vocabulrio! - Fulke revirou os olhos numa expresso exagerada de falso desnimo.
     Margaret tocou o brao da prima oferecendo conforto.
     - Elas esto com inveja, s isso. Queriam que a festa fosse delas.
     - Ah - Thayer murmurou, levando a mo da esposa aos lbios -, elas foram venenosas com voc, no ?
     Um pouco mais calma, Gytha olhou para o homem, que agora chamava de marido. A mo enorme envolvia completamente a dela, mas o toque era gentil, e essa gentileza 
se refletia nos olhos emoldurados por clios longos e escuros.
     - Sim, mas eu j devia saber que tais tolices devem ser ignoradas. Receio ter um temperamento ligeiramente voltil. - Ela olhou para Fulke com ar debochado 
ao ouvir sua gargalhada. - Ignore esse tolo - disse a Thayer antes de beber mais um gole de vinho.
     Os dois irmos comearam a trocar provocaes, e logo Roger se juntou ao grupo. Thayer decidiu que tinha muitas preocupaes, mas a famlia da esposa no era 
uma delas. Havia entre eles uma proximidade que se estendia para os novos membros, e esse era um importante benefcio. Uma famlia problemtica podia se tornar uma 
praga na vida de um homem. Depois de passar alguns momentos na companhia dos Raouille, sabia que podia confiar neles. Gostaria de poder ter essa mesma confiana 
em Gytha.
     Logo o baile comeou, e em pouco tempo Thayer percebeu que a esposa adorava danar. Infelizmente, ele mesmo danava to raramente que no confiava na prpria 
habilidade. Mesmo assim, danou com Gytha algumas vezes, odiando entreg-la a tantos cavalheiros que a olhavam com ar de cobia. Para impedir que esses pretendentes 
ansiosos se aproximassem dela, ele recorreu a seus homens. Todos se dispuseram a danar com ela. Confiava neles. S por isso foi capaz de permitir  esposa o prazer 
de danar e ainda desfrutar da alegria de observ-la.
     Porm, foi com alvio que ele viu chegar o momento da consumao do casamento, um ritual testemunhado por um pequeno e seleto grupo. A permanncia das pessoas 
nos aposentos do casal seria breve, e os comentrios picantes eram recebidos com bom humor. Assim que a porta se fechou atrs dos convidados, Thayer se virou de 
lado para fitar a esposa.
     Embora tivesse sido exposta ao grupo apenas por um breve momento, Gytha estava visivelmente constrangida. Ela se cobria com o lenol e tentava no corar. Quando 
Thayer ofereceu uma taa de vinho, ela a aceitou com um olhar tmido na direo do marido.
     - Est com medo, Gytha?
     - No. Sim. No sei ao certo. No estou acostumada a ser observada - ela sussurrou. - E no gostei muito.
     Em silncio, ele admitiu que tambm no havia apreciado muito a experincia. Escolhera Roger, Merlion, Rev e Torr como suas testemunhas, e eles haviam olhado 
para Gytha com admirao reverente e com grande respeito. Mesmo assim, foi um alvio quando ela recebeu permisso para buscar refgio sob as cobertas um instante 
depois de despir o robe. Thayer ressentia-se contra o sentimento de posse, mas era intil neg-lo.
     - Eles agora so como sua famlia - disse, tentando acalm-la. - Os homens que escolhi so muito prximos de mim, quase como meus parentes, mais do que Robert, 
aquele tolo. Esto comigo desde o incio, lutando ao meu lado por muitos anos. No posso contar quantas vezes salvamos a vida uns dos outros. Alm do mais, isso 
s  feito uma vez, minha querida, e j acabou. Ela assentiu, um pouco mais relaxada, depois o encarou e recordou as palavras de Edwina.
     - Vai continuar sobrevivendo de sua espada?
     - No. Agora sou um homem de posses. No ser mais necessrio. Tenho a cama e a comida que antes precisava assegurar pela lmina da minha espada. Porm, um 
homem precisa lutar de tempos em tempos, seja pelo rei ou por razes prprias. Considerando o lugar onde vivemos, duvido que minha espada enferruje por falta de 
uso. Alm disso, a propriedade que agora me traz pelo casamento  muito prxima da problemtica Gales. Pedi a meus homens para ficarem e integrarem minha guarda. 
Isso vai nos manter seguros e protegidos.
     O sorriso aliviado de Gytha quase o fez jurar nunca mais erguer a espada. Ele deslizou a mo sobre o ombro nu da esposa e sentiu a pele quente e macia como 
a mais flna seda. Seus clios eram longos, espessos e sedosos. Quando ela baixava as plpebras, esses clios projetavam sombras sobre suas faces coradas, e ele se 
inclinou para beijar o nariz delicado.
     Thayer pensou nas mulheres de quem havia comprado favores sexuais recentemente e foi invadido por uma breve onda de culpa. Ele baniu o sentimento. Naquele tempo 
no era comprometido nem antecipava tal evento. E havia sido melhor assim. Sentia o sangue ferver nas veias mesmo tendo se deitado recentemente com meretrizes. Queria 
introduzir a esposa nos mistrios do leito conjugal com delicadeza e sem pressa, e, se houvesse passado muito tempo sem o conforto de um corpo feminino, isso acabaria 
sendo ainda mais difcil do que seria nas atuais circunstncias.
     Tirando a taa vazia da mo dela, ele a ps sobre a mesa de cabeceira.
     - Tentarei no machuc-la, Gytha.
     - Sei que uma certa dor  inevitvel. Minha criada, Edna, foi muito precisa em seu relato.
     - Sua criada? - Ele riu. - Sua me nunca conversou com voc?
     - Sim. - Havia na voz dela um tremor que revelava nervosismo. - Mas com tanta hesitao e todos aqueles rubores, s consegui entender o trecho sobre dever e 
modstia. Aprendi muito pouco com minha me. Estava justamente dizendo isso a Margaret, quando Edna, que arrumava meu quarto naquele momento, comeou a rir. Eu percebi 
que ela sabia mais sobre o assunto e a fiz falar.
     - Uma criada - ele murmurou. - Sim, vai precisar de uma criada. Acha que Edna aceitaria nos acompanhar e ir viver em nossa casa?
     - No imagino por que no. Ela no tem famlia ou amante que possam ret-la aqui. E sua idia  brilhante! - deu um gritinho quando o marido comeou a puxar 
as cobertas.
     Thayer preferia o ambiente iluminado, mas sabia que, por enquanto, era melhor respeitar a modstia da esposa. Ele se levantou para apagar todas as velas, deixando 
apenas as duas ao lado da cama. Quando retornou, foi impossvel no sorrir da expresso atnita no rosto de Gytha.
     Ele deu de ombros. Estavam casados. Ela teria de se habituar com sua aparncia. No havia nada que ele pudesse fazer para melhor-la.
     Apesar do rubor intenso, Gytha o observava. Sabia que sua opinio era parcial, mas considerava o marido simplesmente adorvel. Os cabelos vermelhos e as cicatrizes 
de inmeras batalhas no a repeliam. Seus olhos registraram os ombros largos, a cintura esguia, o quadril estreito e as pernas longas e musculosas. O corpo possua 
uma graa quase animal, e a ereo s acentuava essa caracterstica selvagem. Era impossvel no pensar se sua figura to pequenina poderia acomod-lo. Apesar do 
esforo para no demonstrar medo, ela o olhou com receio quando o marido se deitou a seu lado. Relutante, Gytha deixou-se descobrir.
     Percebendo o receio da esposa, Thayer desejou poder aplac-lo, mas sabia que seria difcil de controlar sua necessidade. O sentimento se confirmou quando ele 
pde ver o corpo nu de Gytha  luz plida das velas. Um rubor da timidez tingia a pele acetinada, e ela agitava as mos numa tentativa de cobrir-se. Gentilmente, 
ele a segurou pelos pulsos e apreciou a beleza escultural com total liberdade.
     Os mamilos rosados se enrijeceram sob seu olhar. A cintura era delgada o bastante para ser contornada por uma de suas mos, ou era essa a impresso que ele 
tinha. As pernas eram bem torneadas. Um ninho dourado ocultava a feminilidade. Thayer a encarou.  - Ah, Gytha, minha esposa, voc  realmente linda - ele murmurou 
antes de beij-la.
     Ela o abraou e correspondeu ao beijo sem nenhuma hesitao. Thayer cobriu o corpo delicado com o dele e sentiu o tremor que a sacudiu.
     Devagar, ele comeou a acarici-la. Gytha sentia-se inebriada pelos beijos ardentes. Um som rouco escapou de sua garganta quando ele tocou um seio, e apertou 
o mamilo entre os dedos e friccionando-o, enrijecendo-o. Era como se houvesse fogo correndo em suas veias. Seus lbios deixaram os dela para beijar-lhe o pescoo, 
acariciando-o com a ponta da lngua.
     - Serei gentil com voc - ele prometeu. - Confie em mim, minha querida.
     - Eu confio - ela murmurou com voz rouca. Thayer no viu sarcasmo em seus olhos, mas a resposta o deixou confuso.
     - Ento, por que treme de medo, minha pequena?
     - No  medo. - Era difcil falar enquanto ele acariciava seu seio, porque o toque das mos fortes roubava-lhe a capacidade de raciocinar. - No sei determinar 
o que me perturba.
     - O que sente, minha querida? - Ele acariciou-a no ventre e sentiu um novo tremor.
     - Sinto-me arder.  como se meu sangue fervesse. Isso me assusta um pouco.
     Chocado por saber que suas carcias a inflamavam tanto, ele teve dificuldades para responder. A voz soou como um sussurro rouco.
     - No h nada a temer nisso.
     - No quero desapont-lo. Ah, Thayer... - Ela acariciou os abundantes cabelos vermelhos e o beijou com ardor.
     - No vai me desapontar, querida. Como poderia? - ele indagou com voz rouca antes de beijar um dos seios.
     Gytha se contorcia sob a lngua quente e mida. O teor foi superado pela paixo. Com uma certa timidez inicial, ela moveu as mos pelas costas largas e pelos 
braos musculosos, e tocar a pele quente e firme alimentou seu desejo.
     A maneira como ele a tocava nas coxas produzia uma estranha sensao de peso em suas pernas. Os dedos vidos tocaram plos entre elas. Gytha se afastou fugindo 
ao contato. Com os olhos tomados pelo choque, ela o encarou.
     Thayer segurou-a pelo quadril para mant-la quieta. Decidindo que a dor seria mais suportvel se fosse rpida, ele a penetrou de uma s vez. O grito abafado 
o encheu de pesar, mas, encontrando a barreira da inocncia, ele a superou com firmeza. Depois ficou imvel, abraando-a e tentando reacender o desejo da esposa.
     - Calma, meu amor. - Ele a beijou, tranqilizando-a. - Abra-se para mim, querida, entregue-me seus segredos. Gytha descobriu que no tinha escolha. Ele a beijava 
entre os lbios e os seios, cobrindo cada centmetro de pele. O fogo voltou a arder com fora redobrada. As carcias que antes ela oferecia hesitante e tmida agora 
se tornavam frenticas.
     As sensaes eram to envolventes que ela mal percebeu a mudana de posio. Quando sentiu a prova concreta do desejo do marido dentro de seu corpo, ela gemeu 
e comeou uma dana ritual mais antiga que o mundo, esfregando sua pele na dele numa urgncia instintiva. S quando ele tambm comeou a se mover a paixo arrefeceu. 
Tenso e antecipao a tomaram de assalto. O que estava acontecendo?
     Por que sentia aquela crescente tenso na regio do ventre?
     Gytha o fitava assustada. Os olhos dele brilhavam intensamente. Algo dilatara suas pupilas e ele tinha o rosto corado. A dor breve e aguda havia desaparecido. 
Ela percebia novamente o encaixe perfeito entre os corpos, quase como se fossem um s. O estranho calor que ele era capaz de provocar voltava a inundar suas veias, 
alimentado pelos beijos suaves, mas midos e quentes.
     - Tive medo de no poder acomod-lo - ela revelou com voz trmula, surpresa com a prpria ousadia.
     Thayer riu, traando com a lngua o desenho da orelha delicada.
     - Estou muito bem acomodado. Quase como se penetrasse o paraso. Agora, envolva meu corpo com suas pernas, querida.
     - Assim? - Ela enlaou a cintura do marido com as pernas.
     - Sim. - Thayer se movia devagar, ouvindo os gemidos de prazer e surpresa. - Ainda sente dor?
     - No. - O prazer a fez fechar os olhos. Ele a observava encantado.
     - Temia me sentir repelida pelo ato... Ou aborrec-lo expressando excessiva apreciao...
     Ele balanou a cabea numa resposta negativa.
     - Sei que outros homens discordam de mim, mas uma esposa que corresponda ao meu desejo me agrada muito mais.
     - Voc... gostou?
     Ele afagou o rosto delicado.
     - Nunca gostei tanto antes.-Thayer beijou-a. - Gostei tanto, que acho que vou repetir a experincia. Gytha suspirou satisfeita.
     - Imediatamente?
     A inocncia da esposa o encantava, e ele decidiu preserv-la. Gytha teria toda a vida para compreender que o ato sexual ia muito alm do que ela havia experimentado 
at ento.
     - Por qu? Est dolorida, pequena?
     - No. No realmente.
     - Isso era tudo que eu precisava saber.
     Mais uma vez, ele reacendeu a paixo que ainda no chegara em seu apogeu. Agora que havia superado o temor, ela se sentia livre pra apreciar ainda mais o prazer 
proporcionado pela experincia. Os sentimentos que Thayer despertava eram deliciosos.
     Ele a amava com menos controle, extravasando a paixo sem reservas. Os sinais que antes questionara agora sabia serem indicaes do desejo da esposa por ele. 
O conhecimento era quase to excitante quanto a prpria mulher.
     A luz da manh penetrava no quarto quando Thayer acordou e olhou para a delicada criatura que dormia com a cabea apoiada em seu peito. Logo o desjejum nupcial 
seria levado ao quarto, e ento o lenol manchado seria exbido a um seleto grupo de testemunhas para comprovar a inocncia de sua esposa e a consumao do casamento. 
Ele se levantou, pensando que seria melhor evitar que Gytha fosse novamente estudada em sua intimidade. Um sorriso distendeu seus lbios quando, ainda dormindo, 
ela murmurou seu nome. Ele correu para ir buscar robes para os dois. J vestido, Thayer descobriu que acordar a esposa no era tarefa fcil.
     - J  manh? - ela perguntou sonolenta, sentando-se na cama e deixando-se vestir com o robe.
     - Sim, e logo as pessoas estaro chegando. No  necessrio exibir seus encantos pela segunda vez.
     - Quanta considerao...
     Coberta, Gytha bocejou e deixou a cabea cair sobre o peito do marido.                                                                          
     Ele riu e a deitou novamente.
     - Ah, bem, sei que no deixei voc dormir muito.
     - Hum... Muito pouco. - Ela se aninhou nos braos fortes, sentindo-se aquecida e contente.
     - Podemos dormir agora.
     Bocejando, ela fechou os olhos, indicando que aceitava a sugesto. Embora nunca tivesse sido uma pessoa preguiosa, acordar cedo no era uma das tarefas favoritas 
de Gytha. Porm, nunca antes havia sido to difcil. Nunca antes tivera um sono to entrecortado. Noites de npcias e sono eram duas coisas incompatveis. O prazer 
de se aninhar no peito de Thayer a fazia odiar ainda mais a idia de deixar o paraso da cama quente.
     Ele estava quase adormecendo quando o grupo da noite anterior retornou ao quarto seguido por uma criada carregando uma bandeja. Quando no conseguiu acordar 
a esposa, Thayer teve de suportar muitos comentrios maliciosos. A cerimnia do desjejum foi realizada com eles ainda na cama. Consternado, Thayer viu a esposa se 
agitar no sono, murmurar seu nome e esfregar o corpo no dele com evidente inteno sensual. As mulheres saram do quarto correndo, corando e rindo. Os homens eram 
mais recalcitrantes.
     Quando todos se retiraram, ele tentou comer ainda segurando a esposa adormecida, mas seus movimentos e o aroma da comida produziram o efeito esperado. Gytha 
comeou a despertar. Ela se sentou devagar, piscando algumas vezes e esfregando os olhos. Era simplesmente adorvel.
     -  melhor comer - ele disse, colocando a bandeja sobre seus joelhos -, antes que eu acabe com tudo.
     Sorrindo sonolenta, ela se serviu. Sua timidez era evidente. Terminada a refeio, Thayer removeu a bandeja e Gytha se encolheu sob as cobertas.
     Deitado de lado, ele tocou o rosto levemente corado.
     - Est muito quieta. No vai dar um beijo em seu marido?
     Ela o beijou acanhada. Thayer se deu por satisfeito, mas s por um momento. Depois aprofundou o beijo. Quando ergueu a cabea, ele arfava. Era satisfatrio 
perceber que ela exibia a mesma reao.
     - E dia - Gytha murmurou, segurando o robe e odiando o prprio constrangimento.
     Sorrindo, ele a despiu.
     - Sim, pequena, e conheo um jeito perfeito para celebrar o nascer do sol.
     Ela no o repeliu, apesar da timidez, do cansao e do corpo dolorido.
     - No prefere a penumbra?
      Apoiado sobre um cotovelo, ele apreciava seu corpo com desejo e evidente apetite.
     - No, porque ela ocultaria de meus olhos toda a sua beleza.
     Os dedos acariciavam um seio. Queria possu-la  luz do dia para certificar-se de que a paixo da esposa no havia sido um sonho. Queria ver sua reao claramente, 
livre da iluso criada pela luz das velas.
     Depois do inferno para o qual Elizabeth o arrastara, havia jurado nunca mais se envolver com uma mulher de origem elevada e beleza mais do que mediana. Agora 
se via casado com uma. Pior, sentia no peito um calor traioeiro, uma resposta tema a cada sorriso ou olhar. Quando beijou aquele seio macio, ele sentiu o fogo invadi-lo 
e reconheceu o temor de fazer papel de tolo mais uma vez.
     Gytha tremia de prazer. Ele a beijava e acariciava, e ela tambm o tocava sem reservas ou hesitao. Com abandono crescente, movia-se sob o corpo do marido 
e o tocava nas coxas, deslizando os dedos pela parte interna delas.
     Thayer no conteve um gemido rouco quando os dedos delicados encontraram sua pulsante e ereta masculinidade. Seu corpo tremia com a fora do prazer. Surpresa, 
ela  interrompeu a carcia, mas ele agarrou-lhe a mo e a levou de volta ao membro trgido.                                                   
     - Sim, doce Gytha, toque-me. - O desejo fazia sua voz soar tensa, tornando as carcias mais ferozes. - Sim, meu amor, sim. Toque-me. Envolva-me com seus dedos.
     Apesar do esforo para conter-se, sua paixo tornava-se selvagem. O toque de Gytha o induzia a esquecer a cautela. Para seu deleite, ela tambm ardia.
     Gytha sentia prazer com a crescente ferocidade do marido, embora suas carcias fossem quase um assalto. A posse era quase dolorosa, mas ela sentia intenso prazer. 
Quando chegou ao clmax, ela soube que tinha a companhia do marido.
     Thayer precisou de algum tempo para recuperar o equilbrio. Ento, ele olhou admirado para a mulher em seus braos, viu as marcas vermelhas na pele alva e foi 
tomado pelo remorso. Porm, as mos que acariciavam seu peito no revelavam raiva ou temor, somente uma letargia saciada.
      Gytha afagava o peito coberto por caracis vermelhos e movia as pernas sobre as dele, deliciando-se com a sensao. A unio entre os corpos era algo que ela 
apreciava.
     - Isso  maravilhoso, no ?
     - Maravilhoso? - No sabia a que ela se referia com "isso".
     - Somos to diferentes, mas nos encaixamos com perfeio.
     - Sim,  verdade. Machuquei voc?
     - No. - Ela o fitou com um sorriso sugestivo. - Comeo a pensar que talvez no tenham sido seus inimigos que o apelidaram de Diabo Vermelho. Talvez tenham 
sido as mulheres cuja cama voc visitou.
     - Feiticeira. - Ela o beijou com ternura. - Voc me incendeia, doce Gytha. Receio perder o controle.
     - Eu poderia entender.
     - Sim, agora pode.
     - Sim, eu posso. No me comporto como uma dama em certos momentos.
     - Bem, uma dama nem sempre satisfaz um homem na cama. - Ele a aninhou contra o peito. - Uma certa ousadia  aprecivel em uma esposa - provocou rindo.
     Gytha riu sonolenta.
     - Homem pervertido. Logo teremos de sair da cama.
     - Descanse um pouco, querida.
     - Parece um pecado continuar deitada at to tarde.
     -Ningum sentir nossa falta. Tambm preciso traar os planos para os prximos dias, planejar a viagem...
     - Mais uma razo para nos levantarmos.
     - Descanse, minha linda. Isso tudo pode esperar.
     - Como voc decidir.
     - Essa  uma atitude apropriada para uma esposa.
     Rindo, ela se ajeitou nos braos do marido. No desejava estar em outro lugar. Fazer amor com Thayer s intensificara a sensao de ter encontrado seu lugar 
no mundo. S uma coisa a perturbava. Apesar do ardor da paixo, sentia em Thayer uma reticncia, como se ele quisesse se manter distante. Ele precisaria de tempo. 
Faria tudo que pudesse para demonstrar que a unio entre eles era perfeita. Quando adormeceu, ela sonhou com os filhos que teriam e com o futuro de paz que os aguardava. 
Estava certa de que logo ele partilharia desses sonhos.
     Thayer olhava para a esposa e era tomado por uma intensa admirao. Apesar do fogo que o consumira, pudera observ-la e certificar-se de que a paixo no havia 
sido iluso ou truque da luz. Ela realmente ardia sob seu toque. A constatao era inebriante, mas tambm era uma fonte de consternao. Agora que a apresentara 
s delcias da paixo, ela no esbofetearia to rapidamente um galante oportunista. Sua moralidade anterior podia ter sido fruto da ignorncia. Agora ela veria homens 
e mulheres com olhos de adulta, no mais com a ingenuidade de uma criana. Temia ter selado o prprio destino, o de marido trado e infeliz.
     Gytha sentia uma mistura de agitao e tristeza. Uma semana depois do casamento, ela e Thayer estavam prontos para partir. Comeavam juntos uma nova vida. Infelizmente, 
tambm deixava para trs tudo que amava e conhecia. Sabia que a famlia estaria sempre ali, mas tudo mudaria definitivamente. Era necessrio. Agora seu mundo era 
o mundo de Thayer.
     Quando o pai a abraou para despedir-se, ela viu o brilho das lgrimas nos olhos dele. Vira esse mesmo brilho nos olhos dos irmos, e a me chorava copiosamente. 
Temendo sucumbir s lgrimas, Gytha subiu na carruagem para se unir a Margaret e Edna. As lgrimas distorceram a imagem do castelo desaparecendo ao longe. Era impossvel 
cont-las.
     O destino agora era Saitun Manor. Estava ansiosa para conhecer o lugar. Assim que tudo fosse posto em ordem ali, eles seguiriam para a pequena propriedade que 
ela herdara com o casamento. Era difcil no se agitar com a viagem. Viajara muito pouco na vida, e nunca para to longe. Tambm era difcil no sentir um certo 
receio. Olhando para os vinte homens que os acompanhavam na jornada, ela disse a si mesma que o medo era tolo. Thayer e Roger eram lutadores endurecidos, bem como 
os outros doze homens a servio de seu marido, muitos deles consagrados cavaleiros no campo de batalha. Seu pai cedera seis homens para o pequeno batalho, todos 
guerreiros fortes e corajosos. Nenhum deles escondera a alegria por poder cavalgar ao lado do renomado Diabo Vermelho. Ela sabia que no precisava ter medo.
     O pouco que conseguira descobrir havia confirmado tudo que Edna tinha dito sobre Thayer e seus homens. Muitos eram filhos ilegtimos de nobres, como eram tambm 
os pajens e escudeiros que os serviam. De fato, muitos pajens eram meios-irmos dos homens a quem serviam.
     Um deles despertou seu interesse. Ele tinha cabelos vermelhos como o fogo, e Gytha decidiu que falaria com o marido sobre o menino assim que tivesse uma oportunidade. 
O cime quase a dominara quando vira o garoto pela primeira, mas ela tratou de se conter. Ele devia ter oito ou nove anos. Gytha era uma criana quando de seu nascimento. 
Mesmo assim, descobriria a verdade. S no sabia como reagiria se suas suspeitas se confirmassem.
     Roger a viu observando o menino novamente.
     - E melhor contar a ela - ele sugeriu em voz baixa a Thayer.
     Thayer olhou para a esposa e suspirou.
     - Sim. Sabia que Gytha no seria reticente, por isso fiz a escolha mais covarde. Decidi esperar que ela perguntasse sobre Bek. A histria  srdida. No tenho 
muita vontade de repeti-la. Especialmente para ela.
     - Ela  uma das poucas pessoas que tm o direito de saber. Porm, entendo sua relutncia. A inocncia de Gytha  admirvel. At Margaret e a criada exibem essa 
mesma doura. E como se vivessem em um mundo distante do nosso.
     - Lorde John fez de sua casa um mundo nico. Quem pode culp-lo? H muita escurido no mundo. Seu povo segue o que ele determina. E uma gente boa e simples 
que acredita que regras foram feitas para serem cumpridas. Ele trata seu povo com bondade e compreenso, o eles pagam por esse tratamento com uma lealdade inabalvel. 
E um exemplo claro de como a vida pode ser... mas raramente . Infelizmente.
     - Eu confesso que teria apreciado um ambiente menos correto. Senti falta das criadas que conheci em outras propriedades. At os filhos dele tm de ir  cidade 
para se deitarem com uma mulher. - Thayer e Roger riram. - Mas entendo o lado positivo disso tudo.
     - Como assim?
     - No h nenhuma possibilidade de uma criada se colocar acima da esposa, de pensar que  melhor do que ela. A senhora do lugar no precisa lidar com situaes 
delicadas dessa natureza.
     - Sim. - Thayer franziu a testa. - Talvez eu tenha de limpar minha propriedade.
     - As mulheres cuidaro disso. No tema.
     Quando pararam para dormir, o entusiasmo de Gytha pela viagem havia diminudo muito. Era tudo to tedioso e sujo! Assim que a tenda de Thayer foi armada, ela 
pediu gua e o menino chamado Bek atendeu  solicitao, obrigando-a a lembrar de algo que se esforava para esquecer. Ela viu o garoto de cabelos de fogo se afastar, 
depois entrou na tenda.
     Margaret balanou a cabea. - Por que hesita em interrog-lo sobre o menino?
     - Porque essa  uma questo difcil.
     - Nunca a vi to hesitante antes. 
     - Ah, Margaret talvez eu tenha medo do que vou ouvir.
     - Melhor saber a verdade, milady - Edna disse enquanto ajudava sua senhora com a gua.
     - Por que diz isso? Todos afirmam que uma esposa  mais feliz quando se mantm ignorante.
     - Bobagem. E se a mulher ainda for viva? E se for uma fina dama? Pode encontr-la em algum momento. E se souber toda a histria por terceiros, por algum que 
possa envenenar o relato e seu corao? No,  melhor saber tudo, milady, porque assim evitar surpresas no futuro. E... - Edna respirou fundo. -  melhor saber 
se esse  um amor do passado ou uma rival a ser combatida.
     Era justamente isso que Gytha mais temia.
     - Tudo que diz  verdade, Edna. S preciso encontrar coragem para interrog-lo.
     - Venha - Margaret tocou seu brao num gesto de compreenso e solidariedade -, vamos at a rea que cerca o acampamento. Vi algumas flores espalhadas pelo bosque. 
Traremos algumas para amenizar o cheiro dos cavalos e dos homens suados. Colher flores vai acalm-la.
     Antes que Gytha pudesse protestar, Edna as conduziu at a sada da tenda. Os homens davam pouca ateno a elas, e as duas atravessaram o acampamento sem que 
ningum as detivesse. Sem pressa, caminharam pelo bosque tomando o cuidado de no se afastarem muito da rea, mantendo-se perto o bastante para ouvirem os homens 
trabalhando no acampamento. Gytha logo se sentiu mais calma cercada pelo silncio. Ela sorriu agradecida para Margaret, que colhia flores.
     Quando se preparavam para voltar ao acampamento, Gytha viu um campo particularmente colorido e perfumado. Ela se abaixou para colher as flores, atrasando-se 
vrios passos atrs de Margaret. Ao se levantar, viu-se diante de um homem armado.
     Por um instante, o choque a paralisou. Olhou em volta,  viu que outros homens surgiam de trs das rvores frondosas, puxando seus cavalos. Era um ataque. Ela 
se abaixou quando o homem na sua frente tentou agarr-la, esquivando-se com sucesso.
     - Corra, Margaret - Gytha gritou, tentando chegar ao acampamento.
     Margaret hesitou apenas um segundo, olhando para trs para ver o que acontecia, mas obedeceu  ordem da prima e tambm correu para o acampamento.
     - Alerte-os, Margaret - Gytha gritou enquanto corria, sentindo que o homem se aproximava.
     - As armas! Ataque! As armas! - Margaret berrava. Os homens no bosque montaram em seus cavalos, privados do elemento-surpresa que tanto os teria beneficiado.
     Thayer ouviu os gritos de Margaret e ficou tenso. As palavras no eram claras, mas o significado era bvio. Embora os homens j se armassem, Thayer vociferava 
suas ordens. Aflita, Edna se aproximou dele.
     - Elas foram sozinhas para a floresta?
     - Sim, meu senhor. - Ela recuou ao ver a fria nos olhos do novo senhor. - Foram colher flores.
     Thayer correu na direo das rvores no mesmo instante em que Margaret surgia do meio delas.
     - Onde est Gytha?
     - Bem atrs de mim - ela respondeu sem interromper a fuga alucinada.  Na entrada do bosque, Thayer lutou contra o pnico que ameaava domin-lo.
     -Gytha!
     - Aqui, Thayer - ela respondeu surgindo por entre as rvores.
     Olhar para o rosto do marido renovou suas foras, e ela passou por ele com a velocidade do vento, seguindo para a tenda sem argumentar ou fazer perguntas, limitando-se 
a acatar a ordem dada por um sinal silencioso. A fria de Thayer era quase tangvel. Ela ouviu o grito de seu perseguidor, mas no parou para olhar para trs. Sabia 
que a cena era sangrenta. Na tenda, Edna e Margaret j esperavam por ela. Juntas, assistiram  batalha com um misto de horror e fascinao.
     Gytha no sentia medo. No muito. No podia imaginar que seu marido, to grande, forte e habilidoso, seria derrotado. No dessa vez. Ela tentou acalmar as companheiras, 
argumentando que estavam protegidas pelo grupo de pajens e escudeiros reunidos diante da tenda. Entendia a preocupao de todos e admirava a coragem dos meninos, 
que se colocavam diante da tenda com a ntida inteno de proteger a nova senhora. Porm, no acreditava que esse inimigo em particular pudesse passar por Thayer 
e seus homens.
     Passos atrs dela atraram-lhe a ateno, e ela se virou apavorada. Um homem conseguira contornar o acampamento e invadi-lo pela parte de trs, e agora caminhava 
em sua direo. Gytha empurrou Margaret e Edna para fora da tenda, para longe do perigo imediato. Assustadas, as duas mulheres tropearam nos garotos. Antes que 
algum pudesse vir em socorro, Gytha foi agarrada pelo invasor.
     Apesar da luta desesperada, ele a levou para fora da tenda, colocando-a na frente do prprio corpo. Mesmo Aterrorizada, ela ficou emocionada com a ao dos 
pajens. Rpidos, eles cercaram as mulheres e, empunhando espadas, no fizeram nenhum movimento por medo de que ela sofresse as conseqncias.
     Gytha j havia compreendido que no seria morta, mas aprisionada. Seria refm. O medo deu lugar  fria, e ela lutou com vigor renovado. Os movimentos no serviram 
para libert-la, mas obrigaram o atacante a recuar desequilibrado. Ele ainda praguejava quando Gytha sentiu uma forte dor na cabea. Depois mergulhou na escurido.
     Removendo a espada de outro corpo, Thayer parou para olhar para a tenda. Um grito agudo ecoara no refgio das mulheres, um grito que o encheu de apreenso. 
Ainda estava olhando na mesma direo quando um homem segurando Gytha a atingiu na cabea com o cabo da espada. Um uivo furioso brotou de seu peito quando ela caiu 
inconsciente. Sem pensar na prpria retaguarda, Thayer Correu para Gytha. A batalha chegava ao fim. Roger corria atrs dele com a inteno de proteg-lo, tendo se 
certificado de que nenhum dos atacantes em fuga tirava proveito do momento de desateno de Thayer. O homem que havia capturado Gytha empalideceu ao v-lo correndo 
em sua direo. Margaret, Edna e os pajens tambm estavam muito plidos. Qualquer pessoa normal ficaria apavorada com o avano furioso. Mas, aliviado, Roger viu 
Thayer conter o impulso assassino.
      Ele recuperou a sanidade a tempo de deter-se antes de atacar o homem que segurava Gytha. O desconhecido a mantinha diante do corpo, e foi justamente a viso 
da esposa desfalecida e indefesa que o fez parar. Thayer encarou o rival, a espada pronta para o ataque, o instinto clamando para que ele enterrasse a lmina naquele 
que ousara ameaar sua esposa.
     - Cuidado - Bek murmurou, reconhecendo a fria que distorcia os traos do pai. - Ele fez da senhora um escudo.
     - Sim, eu sei. O covarde se esconde atrs de uma saia. Venha me enfrentar como um homem, verme rastejante.
     - Desejo me render. O homem olhou para Roger. - Desejo me render.
     Roger segurou o brao de Thayer para impedir movimentos impetuosos e ordenou:
     - Jogue a espada para longe.
     Depois de uma breve hesitao, ainda mantendo Gytha como refm, o homem atirou a espada aos ps de Thayer, que tremia sob a fora do impulso de matar, mas deixou 
Roger recolher a arma e se aproximar do atacante. Sem dizer nada, Thayer embainhou a espada e tirou a esposa dos braos do trmulo desconhecido. Ele a levou para 
sua tenda. Ainda a estava deitando sobre a cama, quando Margaret e Edna entraram correndo.
     Olhando para Gytha, Edna anunciou:
     - Vamos cuidar dos ferimentos, milorde. Foi s um golpe na cabea.
     - Tem certeza?
     - Sim, milorde. V? Ela j comea a despertar. Podemos cuidar dela.
     Thayer olhou para Gytha por um momento, lutando contra o pnico diante de sua imobilidade e palidez. Edna estava certa. Gytha j se mexia e tinha a testa franzida 
como se os pensamentos despertassem. Virando-se repentinamente, ele saiu da tenda e quase derrubou Roger, que o esperava na porta.
     - Quantos perdemos? - ele perguntou, caminhando para o nico prisioneiro.
     - Dois esto mortos. Trs sofreram ferimentos, mas nada muito grave. Foi tolice das mulheres se afastarem daquela maneira, mas seus gritos nos salvaram. - Eles 
pararam diante dos prisioneiros, e Roger murmurou: - No vai descobrir nada se matar esse homem.
     - No vou mat-lo. - Thayer olhou para o homem assustado. - Seu nome?
     - John Black, milorde.
     - Quem o mandou aqui, John Black? - Ao perceber a hesitao antes da resposta, Thayer praguejou. - Vou arrancar a pele de seus ossos. Tira por tira...
     - Fomos contratados por seu primo, milorde.
     - Robert Saitun?
     - Sim, embora tenhamos recebido as ordens do tio dele. Agarrando o homem pela frente da camisa, Thayer ordenou:
     - Voc vai procurar meu querido primo Robert e aquele cachorro vadio que o comanda. Vai aconselh-los a desaparecer antes que eu os encontre. No quero matar 
meus parentes, mas, por Deus, no hesitarei em tirar a vida daqueles dois vermes, caso os veja ou sinta o cheiro deles. - Ele jogou o homem para o lado. - Cortem 
trs dedos da mo que ele usa para empunhar a espada - Ordenou aos homens que guardavam o prisioneiro -, depois mandem-no embora.
     Thayer caminhou para os barris de gua, cerrando a mente para as splicas do atacante e para seus gritos de pavor e dor quando a ordem foi cumprida.
     - A senhora? - Bek se apressou em providenciar um balde de gua para o pai.
     - Edna garantiu que ela s sofreu um golpe na cabea. Roger sorriu agradecido quando Bek providenciou gua para ele tambm.
     - Por isso sua punio foi to branda? - ele perguntou.
     - No. - Thayer suspirou enquanto o menino o ajudava a despir a metade superior do corpo. - O homem s cumpria ordens. Ficou claro que ele controlou a prpria 
fora quando agrediu Gytha. Ele s queria cont-la. Compreendi tudo isso quando superei a cegueira da fria.
     Com a ajuda de Bek, Roger tambm desnudou o tronco.
     - Acha que foi sensato prevenir Robert ou seu tio? Thayer deu de ombros e comeou a se lavar.
     - Quem sabe? Acredito que esse ataque foi impensado e precipitado. Robert queria Gytha. Vi a expresso dele quando fui nomeado noivo. Alm do mais, ele  meu 
nico parente alm de Bek. No quero mat-lo. O tio dele est por trs disso. Ele quer Robert como herdeiro dos bens e deve estar disposto a tudo para isso. Temos 
de nos manter vigilantes. No quero que a histria de minha morte seja verdadeira na prxima vez em que for contada.
     - Especialmente quando h tantas razes para viver - Roger murmurou, olhando para a tenda de Thayer.
     - Sim. - Ele olhou na mesma direo enquanto se enxugava.
     - Foi ela quem viu o homem entrando na tenda - relatou Bek. - E empurrou as outras duas damas para fora, garantindo sua segurana.
     - E foi capturada - resmungou Thayer.
     - Quando gritar com ela, procure no exagerar.
     - O que est dizendo?
     - Bem, a cabea dela vai doer por um tempo. Depois de olhar para o filho por um momento, Thayer sorriu.
     - Um cavalheiro no grita com uma dama. Bek retribuiu o sorriso do pai antes de dizer com entusiasmo infantil:
     - Viu como correram?
     - Sim, os miserveis foram rpidos na fuga - concordou Roger.
     - No me refiro aos homens, sir Roger. Falo das damas. - Ele sorriu quando os dois adultos riram. - Nunca pensei que mulheres pudessem correr tanto. Aposto 
que elas so mais rpidas que alguns do nosso grupo.
     - Sim, elas so velozes. E isso me d uma idia. Talvez - Thayer continuou rindo -, possamos coloc-las para disputar corridas e ganhar algum dinheiro para 
ns. - A expresso chocada do filho o fez gargalhar. - E s uma piada, menino. Agora v providenciar uma refeio para ns. Comerei enquanto cuido de Gytha. Acabei 
de ver Edna indo buscar comida. Gytha deve ter despertado.
     Enquanto Bek corria a obedecer, Thayer foi cuidar de uma tarefa pessoal. Precisava providenciar uma mortalha para os dois mortos. Assim que passassem por uma 
igreja, cuidaria do enterro em solo sagrado. Lamentava as duas mortes, mas estava aliviado por nenhum deles ser prximo ou ter passado muito tempo em sua companhia. 
Depois de trocar algumas palavras com os feridos, assegurando-se de que nenhum deles corria riscos, ele se sentou com Roger para comer.
     Houve um silncio prolongado antes de Roger murmurar:
     - Est muito pensativo, amigo.
     - E s o efeito da batalha. A calmaria que segue a tempestade. - Podia ver a dvida no rosto de Roger. - Como um homem pode evitar que seu corao derreta por 
uma bela mulher?
     - No pode. No se tiver de ser assim...
     - O que tinha de ser era Gytha e William se casarem.
     - Talvez no. Quem sabe como operam Deus e o destino?
     - No ns, pobres mortais, isso  certo.
     - Eu no me deixaria importunar por isso. Viva esse momento. Apesar de toda a dor que esse sentimento pode causar, no existe nada que possa super-lo.
     - Fala como se tivesse experincia.
     Thayer no se lembrava de Roger ter mencionado problemas semelhantes antes.
     - Sim,  verdade. Foi h muitos anos. No havia esperana para aquele amor, porque eu era um cavaleiro destitudo e pobre, como ainda sou. Mesmo tendo sido 
breve, foi glorioso.
     - E com isso voc no aprendeu nada sobre como conter esses sentimentos?
     - No quero aprender essa lio. O que aprendi foi perceber quando ele pode trazer alegria ou tristeza. E assim incentivar as possveis ocorrncias felizes. 
- Ele respirou fundo, sabendo que as palavras seguintes tocariam um ponto sensvel. - Eu sabia que meu amor seria infrutfero naquelas circunstncias, e ainda assim 
o ofertei. A dama no fez falsas promessas, sempre disse a verdade. Quando o pouco que tnhamos chegou ao fim, a dor foi compartilhada. Ela nunca me tratou com desdm. 
Seu corao no era escravo, como o meu. mas ela nunca me desprezou por isso. Nunca zombou dos meus sentimentos.
     - E a est a diferena - Thayer murmurou. Roger assentiu.
     - Sim, a est a diferena. Talvez possa pensar um pouco sobre isso.
     Prometendo a si mesmo que pensaria, Thayer se retirou para sua tenda e dispensou Margaret e Edna. Por um tempo pensou que Gytha estivesse dormindo, at surpreend-la 
olhando para ele. Como uma criana, ela tentava se esconder fechando os olhos para evitar sua ira, uma raiva que ele j no sentia mais. Thayer apagou a vela, despiu-se, 
deitou-se e tomou o corpo tenso em seus braos.
     - Como est a cabea? - perguntou, beijando-a na testa para ajud-la a relaxar.
     Gytha soube que ele no estava mais furioso. Sentia-se covarde por ter fingido dormir para evitar a raiva que o marido tinha todo o direito de sentir, mas no 
se sentira preparada para o confronto. No fundo, sabia que as palavras cortantes de Thayer poderiam faz-la sangrar.
     - Di um pouco, mas no muito. - Ela o enlaou pela cintura.
     - Foi tolice sair por a sozinha.
     - E no estava sozinha.
      Ele riu.
     - Gytha, isso  um sermo. Fique quieta e escute com ateno.
     - Sim, meu marido. Ele ignorou o toque de impertinnca.
     - Foi tolice deixar a segurana do acampamento. Nunca mais se afaste do grupo sem antes me dizer aonde vai e por qu. Sei que esperava me ver furioso, e eu 
estaria, se no tivesse me mantido afastado at meu sangue esfriar. Felizmente, voc no sofreu ferimentos graves, e o aviso que me deu salvou meus homens. Um ataque-surpresa 
como esse teria acarretado um massacre. O nosso. Em vez disso, perdi apenas dois homens. Afinal, por que deixou o acampamento?
     - Queria colher flores para perfumar esse ambiente.
     - Na prxima vez que quiser flores, avise-me. Mandarei um homem armado para escolt-la. Talvez dois.
     - Eles no vo gostar muito.
     - Mas faro o que eu mandar mesmo assim. Entendeu?
     Ela assentiu.
     - O que aconteceu com o homem que me fez refm?
     - Perdeu trs dedos da mo que usava para segurar a espada. E foi mandado de volta ao seu mestre com um aviso.
     Gytha sabia que a punio era misericordiosa, comparada ao que muitos outros haviam, enfrentado.
     - E quem  esse mestre?
     - Meu primo Robert.
     - Robert? - Ela balanou a cabea surpresa. - Tem certeza?
     - Sim. Esse foi o nome sob o qual o ataque foi perpetrado. Porm, foi o tio dele quem planejou e comandou tudo. Deve saber disso.
     - Sim. E Robert aceitou as ordens, mesmo no concordando com elas. E sempre assim. Mas por qu? Por que fazer tal coisa?
     - Ele quer tudo. Minhas propriedades, minha fortuna. Tudo pertenceria legalmente a Robert, mas o tio dele comandaria os bens. Alm do mais, Robert queria voc. 
No - ele murmurou ao perceber que Gytha pretendia protestar. - Ele queria e ainda quer. E agora sei que esse no teria sido um casamento seguro para voc.
     - Como assim?
     - Voc poderia ter feito de Robert um homem. Ela assentiu, indicando que compreendia.
     - Se Robert se fortalecesse, se assumisse mais responsabilidades, ento ele poderia se tornar uma ameaa para o tio. E aquele homem no toleraria uma ameaa.
     - No, ele cuidaria de remover rapidamente uma ameaa como essa.
     - O que pretende fazer a respeito disso?
     - J mandei aquele homem de volta para Robert e seu tio. Agora eles sabero que o plano falhou, que tenho conscincia de seus esquemas. Mandei avis-los de 
que seria sensato desaparecer. Ser meu nico aviso.
     - Acha mesmo que eles faro como ordena?
     - Espero que sim. No gostaria de matar algum do meu prprio sangue.
     - E triste quando familiares brigam entre si. Acontecia muito na famlia de meu pai.
     -  difcil acreditar. Sua famlia  to unida, to amorosa. Qualquer um v.
     - Meu pai aprendeu com os erros que testemunhou enquanto crescia, Thayer. Ele viu um marido virar a prpria esposa contra ele. Viu como, em sua dor, ela jogou 
os prprios filhos contra o pai. Viu como bastardos, reconhecidos e criados com conforto, mas sem amor, tornaram-se amargos e gananciosos, passando a cobiar o que 
lhes fora negado. Enquanto crescia, ele viu pessoas, que deviam ter permanecido unidas por laos de amor e confiana, se afastarem umas das outras. Essas pessoas 
tramaram, brigaram e mataram at restarem apenas meu pai e o irmo dele. Ele e meu tio juraram que nunca deixariam esse veneno tocar-lhes o corao. - Ela balanou 
a cabea. - Mas minha tia ainda tenta.
     - Por causa de Margaret?
     - Sim. Minha tia tem cime de um erro que meu tio cometeu quando ainda era solteiro, embora eu deteste pensar em Margaret nesses termos. Por causa desse cime, 
minha tia tenta envenenar a famlia contra o marido. Ela tenta, mas no consegue.
     - Tem certeza disso?
     - Absoluta. Logo os meninos iro para outras casas, e as meninas tambm. Meu tio vai mandar os filhos para a casa de meus pais. Margaret est aqui comigo, como 
sempre foi planejado. As duas casas se uniro ainda mais. Se algum veneno for instilado, ser expelido e anulado.
     Thayer a ouvia com ateno, compreendendo que aquela era uma boa hora para falar sobre Bek. A conversa sobre Margaret a fizera relaxar. Mesmo assim, ele no 
sabia como comear.. No estava preocupado com a possibilidade de Gytha no aceitar Bek, porque isso seria resolvido. Era a histria que teria de repetir que o perturbava. 
Era srdida e o fazia parecer um grande idiota. Alm do qu, nenhuma esposa ficaria contente ouvindo o marido falar sobre seu amor por outra, mesmo que a mulher 
em questo estivesse fora de sua vida ou morta. Mesmo assim, ele engoliu todos os receios e comeou a contar.
     - Falando em erros de solteiros... - disse hesitante. Gytha lutou contra a tenso. No queria que nada o impedisse de falar o que ele estava prestes a relatar. 
Ela esperou em silncio, orando para no sair muito magoada desse momento de revelao.
     - Preciso falar agora - Thayer anunciou agitado. -  mais fcil falar sobre certas coisas no escuro.
     - A sensao de estar exposto  menor.
     - Sim,  isso. Gytha, Bek  meu filho.
     - Eu j suspeitava disso. - Ela afagou os cabelos do marido. - Essa colorao  rara.
     - O que vai ouvir agora  uma confidncia.
     - No contarei nada a ningum - ela prometeu -, exceto, talvez, Margaret. E Edna.
     - A me dele era lady Elizabeth Sevilliers. Seu nome de nascimento era Darnelle.
     - No conheo nenhuma dessas famlias.
     - Mas vai conhecer as duas, se formos chamados  corte. Onde a corte est, l est lady Elizabeth.
     - Ela  muito bonita?
     - Sim, muito. Cabelos de bano, pele de marfim, olhos verdes, curvas suaves. Eu era muito jovem quando a conheci. Tinha apenas vinte e um anos. Aos dezesseis, 
ela j dominava as tcnicas de flerte empregadas na corte, e sua virtude no passava de uma recordao. Mas eu no era apenas jovem. Era tolo, tambm. Acreditei 
na inocncia daquela mulher e decidi que ela era dominada e usada pelo estilo corrupto e pecaminoso da corte. Tornei-me seu amante.
     Um lampejo de dor a tomou de assalto. Gytha disse a si mesma que era apenas uma menina de oito anos nesse tempo. A dor desapareceu.
     - Ela correspondia a todos os meus juramentos de amor. - Thayer balanou a cabea. - E me fez crer que havia uma chance de nos casarmos, embora eu fosse s 
um cavaleiro sem terra. Vendi minha espada para um conde na esperana de obter recompensas que amenizariam minha pobreza. Ela se comportou com dignidade quando chegou 
o momento da minha partida. Deu-me a certeza de que realmente me amava.
     - E voc voltou para ela?
     - Sim. Seis meses depois, ainda sem terra, mas com uma bolsa cheia de dinheiro. Cheia o bastante para comprar uma pequena propriedade. Mas ela j no estava 
mais na corte. Levei quinze dias para encontr-la.
     - Onde ela estava?
     - Em um convento, preparando-se para ter meu filho. Bek tinha dias de vida quando encontrei Elizabeth. Ela ficou sentada ouvindo com muita calma enquanto eu 
contava sobre como havia obtido meus ganhos e falava sobre amor e casamento. Quando conclu meu relato, ela comeou a rir.
     Gytha ouviu a dor e a humilhao na voz dele e o abraou com mais fora. Gostaria de poder apagar de seu corao e de suas lembranas toda essa histria de 
dor.
     Era difcil, mas Thayer conseguiu continuar.
     - Ela disse que nunca havia imaginado que eu fosse to tolo. Que havia mesmo acreditado em todos os juramentos que ela tinha feito. Lembrei Elizabeth sobre 
o filho que ela acabava de me dar, a vida que era a prova de seu amor por mim. Ela riu novamente. Disse que tudo que um filho demonstrava era que seus truques para 
impedir minha semente de germinar no eram perfeitos. Como tambm no eram perfeitos os mtodos que ela havia empregado para arrancar a criana de seu corpo,
     - Ela tentou matar o filho que estava esperando? - Gytha murmurou chocada.
     - Sim, mas Bek foi forte. Mais tarde eu descobri que seu primeiro sopro de vida tambm poderia ter sido o ltimo. Ao ficar sozinha com o beb, ela tentou sufoc-lo. 
Uma das freiras a surpreendeu, e elas ficaram com o menino. Justificaram seus atos alegando que a prova viva de seus pecados a levara  loucura, mas eu sabia que 
a inteno dela era no deixar provas de sua falta de castidade. Um casamento j estava arranjado. Eu no podia acreditar, no queria acreditar. Mais uma vez, insisti 
para que ela se casasse comigo. Elizabeth me chamou de tolo por pensar que ela aceitaria desposar um cavaleiro destitudo de terras, algum que precisava vender 
sua espada para sobreviver, quando podia se casar com o rico e nobre Sevilliers. Um homem de muitas posses. Argumentei que ele deixaria de am-la rapidamente quando 
a descobrisse violada. Ela riu. Haveria sangramento na cama, e os Sevilliers acreditariam que ela tinha se casado virgem e casta.
     - E voc a deixou e ficou com Bek.
     - Sim, eu fiquei com Bek. Mas no consegui desistir de Elizabeth, e nisso est minha vergonha. Pouco depois de ela se casar com Sevilliers, tornei-me novamente 
seu amante. Ela sabia usar a cegueira de meu corao. Julguei ser seu nico amante. Havia rumores sobre seu comportamento leviano, mas eu insistia em ignor-los.
     - Mas os rumores eram verdadeiros, no eram?
     - Sim, totalmente verdadeiros. Certa noite, eu descobri a verdade em um jardim. Ela fornicava com um corteso como uma meretriz qualquer. Sabe, acho que era 
estpido o bastante para perdo-la mesmo depois disso. Foi o que ela disse que finalmente me libertou daquela obsesso. O homem falava como se tivesse me vencido, 
deitando-se com ela, e era algum que jamais teria me superado com uma espada. Ela riu, dizendo que eu era seu amante mais persistente e duradouro. E disse que meu 
estado de perplexidade a divertia. O homem manifestou surpresa por ela se deitar com algum to grande, to vermelho e to desprovido de atrativos fsicos. Ela concordou 
sobre eu ser bruto e feio, disse que eu merecia todas as piadas e provocaes, mas alegou que eu era generosamente dotado. Desde aquele dia, nunca mais me aproximei 
dela. - Ele suspirou. - Bem, essa  a horrvel histria. Agora, quero saber o que voc tem a dizer sobre Bek.
     Gytha sentiu uma ponta de amargura ao perceber que ele no havia dito que deixara de amar a tal mulher, mas nada comentou. Nesse momento, Thayer precisava de 
uma resposta com relao ao filho. Precisava ter certeza de que ela no o desprezaria nem repeliria o menino por causa do passado.
     - Bek  seu filho. Pelo pouco que vi, ele  um bom menino. Eu jamais o rejeitaria por conta das circunstncias de seu nascimento.
     - Sou grato por isso.
     - No precisa me agradecer. E... voc no  feio ou bruto.
     - No sou bonito, Gytha - ele respondeu, recusando-se a deixar convencer por elogios vazios. - No sou William. No sou Robert ou Roger.
     - Eu no disse que  bonito. - Ela o fitou sorrindo. - Porm, se continuar deixando que seu rosto seja espancado, logo poder se tornar horroroso. - Gytha ficou 
sria novamente. - Sim, voc  grande e vermelho. Mas tambm  forte e saudvel. Tem toda a graa que o destino pode conceder a algum. E um homem grande, mas proporcional. 
Nada  muito longo ou curto. Seu rosto no  belo, mas  imponente e inspira confiana. Sua voz e seu jeito de rir so mais do que agradveis. Quando voc sorri, 
no  para debochar de algum ou para esconder uma mentira. E adorvel. - Ela o tocou na face. - Seus olhos so encantadores. O castanho profundo e suave traz  
mente coisas gentis.
     - Olhos encantadores?
     - Sim. Tive essa impresso desde o incio.  Ele a estreitou entre os braos. O instinto sugeria que ela dizia a verdade, que expressava com exatido seus sentimentos. 
Gytha percebera e elogiara seus pontos mais favorveis. De repente, estava desesperado para possu-la, mas continha essa necessidade. Depois dos eventos do dia, 
ela precisava descansar.
     - Chega, mulher. Vai me fazer corar, e j sou suficientemente vermelho. - Ele sorriu ao ouvi-la rir. - V dormir, minha pequena. Essa  a cura mais certa para 
uma dor de cabea.
     Ela se aninhou contra o marido e sentiu a evidncia de seu desejo pressionada contra o ventre.
      - Que dor de cabea? Rindo, ele a abraou aceitando o convite implcito.
   CAPTULO III
     - Meu primo e aquele porco que o domina pouco se importaram com esse lugar.
     Tentando acompanhar os passos largos do marido, Gytha no respondeu. Sentia a mesma fria de Thayer e, ao lado dele, percorria o castelo. Toda a beleza que 
podia ter existido na propriedade estava agora, encoberta pela imundcie e pela negligncia. O belo e rico castelo de que tanto ouvira falar no era adequado ao 
porco que percorria livremente seus aposentos.
     Ela lutava contra a raiva. O sentimento era intil. O dano estava feito. A energia que desperdiava odiando o causador do estrago seria mais bem empregada se 
trabalhasse duro para repar-lo.
     - No consigo acreditar que William deixou a situao chegar a esse ponto - Thayer comentou.
     - No - Gytha estava to ofegante que mal conseguia falar. - Ele parecia apreciar a limpeza.
     Ouvindo sua respirao arfante, Thayer parou para peg-la nos braos. Gytha era to leve! Os seios fartos se moviam com o esforo para respirar. Era difcil 
desviar os olhos do rosto corado. Mesmo assim, a raiva ainda o dominava. Ele voltou a andar. Precisava se mover para lidar com a fria. Sair do castelo no serviu 
para aliviar a ira. Do lado de fora, a situao era to ruim quanto no interior.
     - H tanto trabalho por fazer - ele comentou.
     - Limpeza, basicamente - Gytha respondeu. - Sim, de cada canto. Cada pedra. - Temos braos suficientes para o trabalho?
     Ele beijou-a no rosto.
     - Se no houver, traremos mais gente do vilarejo. Depois de se certificar de que o cho sob uma rvore estava limpo, Thayer sentou-se. Gytha no tentou deixar 
a proteo do abrao. Em vez disso, ela apenas se acomodou com mais conforto. Thayer j havia notado que ela costumava demonstrar abertamente seu afeto. Essa atitude 
da esposa despertava nele um sentimento agradvel, um sentimento que podia ser perigoso. Essa sensao poderia acabar enfraquecendo a deciso de se manter distante, 
protegendo assim seu corao j to castigado. Mas era impossvel no retribuir o sorriso caloroso. No era forte o bastante para resistir a esse tipo de truque 
de seduo.
     - Est lidando muito bem com tudo isso, minha pequena.
     - Bem, devo confessar que no estou muito satisfeita com a idia de todo esse trabalho esperando por mim. Porm, todas as tarefas podem ser cumpridas com facilidade, 
desde que tenhamos braos suficientes. E haver recompensas por esse esforo. Sob a negligncia e a sujeira existe um lugar valioso e belo.
     Nos dias seguintes Gytha enfrentou grandes dificuldades para provar as palavras que dissera. O trabalho era rduo para homens e mulheres igualmente. Ela contratou 
mais alguns trabalhadores, mas foi cautelosa, lembrando que no devia distribuir seu dinheiro livremente. Desde a praga que devastara a populao, sabia que no 
podia mais contar com o trabalho livre e no remunerado dos servos. O pai havia aprendido rapidamente a dominar a arte da contratao e da negociao de pagamento, 
e ela agora se sentia feliz por ter se dado ao trabalho de aprender com ele. Thayer deixou tudo em suas mos, pois nunca antes tivera de se ocupar de tais questes.
     A primeira deciso de Gytha foi limpar tudo. Estava certa de que, concluda essa etapa, poderia ver mais claramente o que precisava ser substitudo ou consertado. 
Por uma semana inteira, ela se dedicou ao trabalho com o mesmo afinco de todos os outros. Quando decidiu que o lugar estava suficientemente limpo, sentia-se exausta.
     No final daquela semana, ao olhar em volta, ela percebeu que estava cansada demais para apreciar o resultado do esforo. Depois de dispensar os trabalhadores 
que havia contratado, ela jantou e caiu na cama sucumbindo  exausto. Quando Thayer se deitou, Gytha mudou de posio sem abrir os olhos, incapaz de acordar do 
sono pesado. Pela primeira vez desde que o conhecera, estava cansada demais at para desejar ao marido uma boa noite de sono.
     Sorrindo, Thayer aninhou-a nos braos e sufocou o desejo. Sabia que a esposa estava muito cansada. Ela murmurou seu nome, mas nem se moveu entre seus braos. 
Dessa vez ele teria de conter o mpeto. Nada poderia despertar o interesse de Gytha naquele momento. De repente ele torceu o nariz.
     - O que  esse cheiro?
     - Receio que seja eu - Gytha respondeu sonolenta.
     - Sim, isso eu j havia percebido. O que ?
     - Algum produto que utilizei na limpeza da casa.
     - E horrvel! Que produto  esse?
     - Melhor no saber. - Ela se removeu do abrao. - Sei que devia ter tomado banho, mas no consegui. Estou muito cansada. Vou dormir do outro lado da cama.
     - No vai ajudar muito. - Thayer se levantou.
     Ela tentou cham-lo de volta, mas, sem foras, adormeceu novamente. Sabia que na manh seguinte se sentiria mal por t-lo afastado da cama, mas nesse momento 
estava exausta demais para se importar. Quando j mergulhava novamente num sono profundo, Thayer arrancou as cobertas de cima dela.
     - O que est fazendo? - Ela tentou se cobrir, mas ele a tomou nos braos. - Quero dormir!
     - Vai tomar um banho.
     - Estou cansada... Vou acabar dormindo e me afogando.
     - No se preocupe. Eu mesmo vou cuidar de tudo. - Ele a ps em p ao lado da tina que enchera pouco antes.
     De repente, Gytha despertou o suficiente para compreender o que estava acontecendo.
     - O cheiro  to ruim assim?
     - Receio que sim, meu amor. - Ele riu, comeando a despi-la.
     Gytha estava cansada demais para ficar embaraada. Ainda no se sentia confortvel exibindo a prpria nudez, mas o cansao era mais do que a modstia. Fraca, 
ela se entregou aos cuidados do marido.
     Thayer descobriu que banh-la era, ao mesmo tempo, frustrante e delicioso. Podia toc-la e contempl-la com, liberdade, mas, por causa dessa mesma exausto 
que era a causa de toda a liberdade, no poderia saciar a fome que o contato fsico despertava. As vezes ficava muito perturbado com a facilidade com que ela despertava 
sua paixo. Mesmo gloriosa como era, essa nsia era uma perigosa fraqueza.
     Ele a tocava sem pressa. Suspirando, decidiu que Gytha despertaria essa mesma fraqueza em qualquer homem. Por mais difcil que fosse aceit-la, tinha de reconhecer 
que a reao era inevitvel e natural. Cada manh que acordava e a descobria em seus braos, a surpresa se renovava. Pensar nisso pouco colaborava para aliviar o 
ardor em seu corpo. J comeava a pensar que nunca seria capaz de cont-lo por completo.
     Enquanto a enxugava e vestia com uma camisola limpa, Thayer no conseguiu evitar um sorriso. Ela parecia embriagada. Com gentileza, ele a ps na cama. Depois 
de apagar as velas, deitou-se ao lado dela e a tomou nos braos.
     - Ah, muito melhor - murmurou.
     - Era to ruim assim?
     - Sim. Agora est cheirosa.
     - Obrigada, Thayer. E... - Apesar do cansao, podia sentir no corpo do marido as vibraes do desejo. - Eu sinto muito. Estou exausta.
     Ele sorriu.
     - Amanh estar descansada.
     - Sim, estarei. E da?
     - E da que posso esperar.
     Ela adormeceu enquanto Thayer ainda ria. Sentindo o perfume doce da esposa, ele decidiu que no a deixaria se esgotar novamente. E no tomava a deciso impelido 
apenas pelas necessidades do corpo. Pensava tambm nos riscos  sade de Gytha. Gostava de ordem e limpeza, mas esse era um preo alto demais a pagar. Pensando bem, 
a frustrao que experimentava nesse momento tambm era um preo alto demais. Fechando os olhos, ele tentou dormir e ignorar as necessidades no atendidas.
     Gytha espreguiou-se e, sem pressa, ficou observando o marido que se lavava. Ela decidiu que era muito agradvel acordar com beijos ardentes e carcias provocantes.
     A euforia provocada pelo ato de amor no podia ser ofuscada nem mesmo pela idia de todo o trabalho que a esperava.
     - Gytha, no quero mais que trabalhe desse jeito.
     - No?
     - No. Entendo a necessidade de limpar esse lugar. Mas agora j est tudo limpo. O trabalho que ainda est por fazer pode ser feito sem pressa. Sua sade  
mais importante que a organizao da casa. Na verdade, se adoecer, s perder mais tempo.
     - Sim, voc est certo. Pensei nisso quando ca na cama ontem  noite. Foi a imundcie. No consegui suportar.
     Ele se aproximou para beij-la.
     - Eu sei. Mas j est tudo limpo. S precisa supervisionar o trabalho de manuteno. Cuide de voc. E isso  uma ordem - ele concluiu antes de partir.
     Gytha no protestou. Essa era uma ordem a que poderia obedecer com facilidade. Havia muitas coisas sem as quais poderia sobreviver, mas limpeza no era uma 
delas. No suportara a sujeira que tinha encontrado na casa. Agora tudo estava limpo. Podia trabalhar menos. Tinha muito tempo para fazer da casa o lugar adorvel 
que ela poderia ser. Daria um passo de cada vez. Em pouco tempo ela comeou a se perguntar se mesmo um passo de cada vez no seria demais.
     Olhando para o jardim, Gytha resmungou:
     - E difcil distinguir as ervas do mato.
     - Sim - Margaret concordou. - E evidente que os tolos nunca se incomodaram com medicamentos.
     - Nem com aromas agradveis.
     - Isso eu j havia notado.
     Gytha arregaou as mangas e se ajoelhou na terra.
     - Bem, ns no vivemos sem essas coisas. Vamos ver o que  til no meio dessa confuso. As ervas podem estar enfraquecidas pela falta de cuidado. Porm, creio 
que ainda h tempo para recuper-las.
     - Sim. E faz-las desabrochar. - Margaret imitou a prima. - Creio que posso ver algumas plantas teis.
     Um silncio confortvel caiu sobre as duas. Gytha gostava de trabalhar no jardim. A tarefa a acalmava, O trabalho era duro, mas gratificante.
     - Gytha? Voc est feliz?
     - Sim, estou. Por qu? Teme que eu seja infeliz?
     - No. Mas voc pouco fala sobre o assunto.
     - No h muito a dizer. Creio que falamos mais nos momentos difceis.
     - Sim, s vezes. Quer dizer que ama Thayer, ento?
     - Ah, essa pergunta...
     - Sim. Exatamente essa pergunta. Voc o ama?
     - No sei ao certo, Margaret. No  to fcil saber. No como eu imaginava que fosse. S tenho certeza de que gosto muito dele. Mas gostar e desejar equivalem 
a amar? Creio que  possvel gostar muito de algum sem amar essa pessoa. Entende o que digo?
     Margaret balanou a cabea.
     - Ele a ama?
     - Quem sabe? Nunca falamos sobre isso. Talvez seja esse silncio que me mantm na incerteza.
     - Oh. Ele gosta de voc. Eu sei.
     - Gosta de mim... sim. Mas esse gostar leva ao amor, ou  simplesmente o sentimento de um homem por algum com quem ele divide a cama e tem filhos? Entende 
o que quero dizer? H muitas respostas para essas questes. Muitas questes. Pode ser amor. Pode ser um sentimento forte e duradouro. Se pudessemos conversar sobre 
isso, talvez a confuso se esclarecesse. Mas nunca tocamos no assunto.
     - Precisa dar tempo a ele.
     Talvez, mas no sei se Thayer  o tipo de homem com quem eu possa conversar sobre essas coisas. Alguns homens se negam a ter esse tipo de conversa.  - E verdade. 
Mas h outros que falam de amor com facilidade e mentem.
     - Prefiro o silncio s mentiras.  -  mesmo muito melhor.  possvel que algo contribua para manter a confuso, algo que, quando esclarecido, poder revelar 
as respostas para muitas dvidas.
     - Bem, h uma coisa. - Ela encolheu os ombros. - No sei se esse esclarecimento pode resolver tudo. Thayer no confia em mim.
     - No. Est imaginando coisas.
     - Receio que no. Sou tudo que ele aprendeu a evitar. H uma evidente desconfiana nele. Posso senti-la, embora no tenha certeza de sua profundidade. Pior, 
no sei quanto dessa insegurana poderei remover. Trata-se de um obstculo para tudo que podemos sentir um pelo outro.
     - Certamente . Gytha, acho que tudo que pode fazer  exatamente o que est fazendo. Se alguma mulher merece confiana, essa mulher  voc. Logo ele vai perceber 
que essa insegurana  tola e desnecessria. O tempo resolver tudo. Afinal, mesmo casados, vocs ainda so praticamente estranhos. Ambos tm muito a aprender sobre 
o outro. Esse aprendizado leva tempo, mas traz conhecimento e confiana.
     - Talvez. Proferir votos diante de um sacerdote no significa confiana e amor imediatos. Sou muito afortunada. Nunca minha confiana foi desmerecida. Ele no 
pode dizer o mesmo. Posso confiar com mais facilidade. - Ela sorriu para Margaret. - E voc, o que decidiu sobre meu marido?
     - No decidi nada. No completamente. E verdade que ele pode me causar grande incerteza s vezes.
     - Sim, quando extravasa sua fria - Gytha riu. - No h nada a temer nisso, prima.
     - Parece muito segura disso.
     - E estou. Confie em mim. No h nada para temer na ira de Thayer, exceto a possibilidade de ficar surda com seus gritos. Ele brande os punhos, prima. E pode 
destruir coisas, como fez com a porta do estbulo na semana passada. Mas raramente tocam um ser vivo. Ele conhece bem a prpria fora e seu temperamento. Sim, ele 
grita, ameaa... mas nunca vi meu marido ferir algum.
     - O criado do estbulo teria gostado de saber disso. Deve ter temido pela prpria vida.
     - Imagino que sim. Sua negligncia quase aleijou o melhor cavalo de Thayer. Muitos outros o teriam punido na hora. Mas o homem continua vivo. E talvez mantenha 
sua posio de mestre do estbulo, se no cometer outro erro grave.
     -  claro. Vou tentar me lembrar disso na prxima vez em que os gritos de Thayer fizerem tremer as paredes.
     - Isto  organo? - Gytha franziu a testa para a planta diante dela.
     Margaret estudou as folhas com cuidado.
     - Bem, acho que as trs do meio so.
     Gytha comeou a remover o mato que as cercava.
     - Creio que seria mais fcil arrancar o organo e deixar o mato.
     Margaret riu, mas logo ficou sria outra vez.
     - Esperava algumas respostas, algum conhecimento. Talvez algumas revelaes.
     - Revelaes? Sobre o qu?
     - Amor - Margaret murmurou corando.
     - Oh, no. Roger...
     - Sim, Roger. Eu acho.  difcil ter certeza, no s dos meus sentimentos, mas dos dele. Roger  um mestre na arte do flerte. Receio ver mais em seus sorrisos 
e em suas belas palavras do que realmente h. Esperava que pudesse  me ajudar a esclarecer essa confuso, entender melhor tudo isso.
     - E agora sabe que estou to confusa quanto voc - respondeu Gytha. - Lamento, prima. Tenho pouco a dizer. Nunca vi Roger tentar seduzir as criadas da casa. 
Ele tambm no costuma acompanhar os outros homens ao vilarejo.
     - Eu sei disso. Mas receio estar vendo apenas o que quero ver. Se diz que tambm notou o que eu vi, ento, talvez, seja verdade. E se  verdade, talvez ele 
seja sincero.
     - Quer saber o que eu faria?
     - Sim. Talvez me ajude.
     - Eu confiaria at ter motivo. E agiria de acordo com sua aparente sinceridade. O excesso de insegurana pode causar a perda de tudo que mais desejamos. Sim, 
 verdade que o sofrimento  uma possvel conseqncia do erro na escolha do objeto de nossa confiana, mas a recompensa que se pode obter justifica o risco. Thayer 
 meu marido, e por isso tenho de suportar a desconfiana dele. Roger no  obrigado a tolerar sua hesitao. Ele  livre para ir aonde quiser, para procurar algum 
que no desconfie de sua sinceridade.
     Margaret assentiu devagar.
     - Sim, voc tem razo. Espero poder seguir seu conselho e ser corajosa o bastante para assumir o risco.
     As duas voltaram a trabalhar no jardim em silncio. O calor do sol vespertino aquecia as costas de Gytha, por isso ela teve conscincia imediata de sua remoo. 
Algum a observava.
     - Temos nuvens? - Margaret perguntou intrigada, erguendo os olhos para o cu claro.
     Gytha olhou por cima do ombro e murmurou:
     - S uma. Uma grande nuvem vermelha. - Ela sorriu para o marido. - Algum problema, Thayer?
     - Pensei que ia trabalhar menos.
     Era difcil manter a expresso severa. Gytha estava imunda. No lembrava em nada a dama que era. E sua aparncia inocente o encantava.
     - Essa  a nica tarefa do dia.
     - Mas no  fcil, pelo que vejo.
     - No, mas, como pode ver, tenho ajuda.
     - E isso  tudo?
     - Sim, isso  a comida que ter de estar pronta no final do dia. Os homens tm de comer. No  muito, Thayer. Realmente. E eu gosto disso.
     - Evite apenas o cansao que a derrubou ontem  noite.
     - Eu prometo. Oh, e Thayer? Pode pedir para algum trazer um carregamento de esterco?
     - Esterco? Para qu?
     - Para adubar o jardim. As plantas foram muito negligenciadas. Precisam de nutrio.
     - Nutrio? Com esterco? Vou mandar algum cuidar disso por voc - ele decidiu antes de se retirar.
     Gytha o viu se afastar. Ele era mesmo muito atraente. A beleza que no enriquecia seu rosto podia ser facilmente encontrada em seu corpo atltico.
     Margaret riu e corou.
     - O que  agora, Margaret?
     - Oh, nada... E s o jeito como voc olha para ele, Gytha. Parece sentir... fome! Sim, fome.
     - E exatamente o que sinto. Meu corpo desperta quando olho para ele.
     - De fato?
     - De fato. Ah, prima, sei que meu marido no  belo, apesar de ter olhos encantadores. Porm, na forma fsica ele beira a perfeio. H em seu corpo um poder, 
uma graa que me fazem pensar num garanho. Vi essa fora desde o incio. E claro, agora que sei o que acontece no leito nupcial... Thayer  um bom amante, prima. 
No tenho com que comparar o que vivemos, mas... No, no posso acreditar que outro me daria mais prazer. A noite ou de amanh.
     Margaret olhou chocada para Gytha, segurando entre os dedos a erva daninha que acabara de arrancar.
     - De manh? Gytha riu.
     - Sim. Uma donzela recebe poucas informaes. Esperava apenas suportar meu dever, talvez no sentir muita dor, ou, caso a sorte me sorrisse, conhecer algum, 
prazer por agrad-lo. Mas obtive muito mais do que isso. Mais do que posso descrever com palavras.
     -  bom, ento? - Margaret perguntou tmida.
     - Sim, e talvez por isso tenhamos to poucas informaes. Com Thayer tudo  to bom, que comeo a pensar que devo sentir amor por ele. Como pode ser diferente? 
Por outro lado, lembro-me de que ele tambm aprecia nossa unio fsica. Isso significa que ele me ama? - Ela balanou a cabea. - Acho que no. A paixo de um homem 
nem sempre vem do corao. E talvez a da mulher tambm no. E isso nos remete de volta ao incio,  confuso.
     Margaret assentiu.
     - Para voc  mais fcil. A paixo no perturba seus sentimentos nem confunde seus pensamentos. - Gytha sorriu para a prima. - E isso. Como eu imaginava. Porm, 
embora a corteje, seduza e cubra de ateno, como fazem os amantes, Roger no  seu amante. Thayer era um estranho para mim. E de repente nos vimos casados. Sei 
que  assim que as coisas costumam acontecer, mas comeo a questionar se isso no  errado. No conheo esse homem que me abraa  noite. E h muitos deveres a que 
temos de nos dedicar durante o dia. Quando teremos tempo para nos conhecermos? Conversamos um pouco  noite, quando estamos abraados no escuro. Mas a paixo que 
arde entre ns torna essas conversas breves e pouco elucidativas. s vezes receio que a paixo se apague. Ento, serei forada a viver com um estranho. Conheceremos 
o corpo um do outro, talvez tenhamos um filho, mas no nos conheceremos de verdade.
     - Oh, no, Gytha. - Margaret tentou confort-la tocando-a no brao. - No. No consigo imaginar tal ocorrncia. Vai descobrir que sabe muito sobre Thayer. Talvez 
no conhea a profundidade dos sentimentos dele, os temores, esperanas e tudo que h em seu passado, mas sabe alguma coisa, e esse conhecimento s vai crescer com 
a convivncia, porque vocs conversam muito. Eu notei.
     Gytha assentiu.
     - Sim, voc est certa. Falamos muito, realmente. E essas conversas traro o conhecimento que quero ter sobre Thayer. Preciso procurar conhec-lo, pensar mais 
em tudo que conversamos e em tudo que vejo, e o tempo  meu aliado nessa busca. O resto vir com maior facilidade. Terei ao menos uma boa idia do que ainda preciso 
saber.
     A conversa foi interrompida pela chegada de um homem com o esterco que Gytha havia solicitado. Ela prometeu a si mesma que no esqueceria o que ela e Margaret 
haviam discutido. A conversa havia sido importante. Pensaria tambm no que j tinha aprendido sobre Thayer e no que ainda precisava saber.
     Contudo, ela j se preparava para ir dormir quando encontrou tempo para cumprir essa promessa. Deitou-se e ainda teria alguns minutos de solido at Thayer 
ir se juntar a ela. Pretendia fazer bom uso desse tempo. Deitada, ela cruzou os braos sob a nuca. Examinaria primeiro o bvio, aquilo que tinha certeza.
     Thayer era forte, um guerreiro habilidoso e vencedor. Esse era um ponto positivo. Significava que ela e os filhos estariam sempre protegidos.
     A honra tambm fazia parte de seu carter. Ele era honrado e justo. O dinheiro no havia sido o nico motivo por trs de suas lutas. E ele era gentil. Vira 
essa gentileza na maneira como ele lidava com outras pessoas, em como a tratava. Deus dera a Thayer um corpo forte e grande, mas ele nunca abusara desse evidente 
poder fsico.
     A chegada repentina do marido interrompeu sua reflexo. Mas ela no se ressentiu, porque sentia que estava progredindo, construindo uma compreenso dos prprios 
sentimentos. Retomaria a contemplao em outra oportunidade, porque agora queria apenas estar com Thayer.
     Ele se despiu e comeou a se lavar.
     - Parece que cumpriu sua promessa de ir mais devagar com o trabalho - ele comentou.
     - Sim, eu cumpri.
     - E bom ouvir isso.
     - Fui muito obediente.
     - E  muito ardilosa, tambm. - Ele sorriu.
     - E voc? Trabalhou muito?
     Mais um dom favorvel: senso de humor. Ele tambm gostava de provoc-la com brincadeiras e piadas debochadas. Gytha apreciava tais caractersticas.
     - Trabalhei muito - ele respondeu. - Na verdade, trabalhei o bastante para planejar nosso prximo movimento. Logo poderemos viajar para as terras que voc herdou 
com nosso casamento.
     - Ouvi dizer que essa rea na fronteira pode ser perigosa e problemtica.
     - Sim, ouvi a mesma coisa. - Ele apagou todas as velas, exceto a que ardia ao lado da cama.
     - Acha que isso  verdade?
     Thayer deitou-se e a tomou nos braos.
     - Nem sempre essas histrias so verdadeiras. No sei ao certo o que nos espera, e no saberei at chegarmos l. Preciso ir conhecer o lugar. Talvez voc deva 
ficar aqui enquanto eu fao o reconhecimento.
     - Prefiro ir com voc.
     - Vai discutir com seu marido, ento?
     - Bem... no exatamente.
     - No exatamente? Que nome daria a essa atitude, ento?
     - Conversar sobre o assunto?
     - Poupe sua retrica, pequena - ele disse, rindo. - Tambm gostaria de ter sua companhia. Prefiro assegurar sua segurana pessoalmente, garantir seu conforto 
e saber sempre que est bem.
     - Meu pai nunca mencionou todos esses problemas em Riverfall. Talvez eles no existam.
     -Hum... Talvez.
     Gytha sabia que a ateno do marido no estava mais na conversa. A maneira como ele acariciava suas costas era prova disso. Ela sorriu e o abraou. Os corpos 
nus se encontraram.
     - Cansou de conversar, Thayer? - ela murmurou enquanto o beijava na orelha.
     - Sim.  bom saber que voc percebeu.
     - Uma boa esposa deve saber a hora de se calar.
     - Falaremos mais tarde. Agora, meu interesse est voltado para outras questes.
     - Eu j notei. Pode me dizer que questes so essas? Thayer se deitou sobre ela.
     - Prefiro mostrar, minha pequena.
     A gargalhada debochada foi sufocada por um beijo. Como sempre, Gytha se deixou dominar pela paixo. S mais tarde, saciada e feliz nos braos do marido, ela 
se perguntou por que ainda tentava entender o que sentia. Qualquer que fosse o significado de seus sentimentos, sabia que eram positivos e que no precisava se preocupar 
com eles.
     Ela olhou para o homem deitado a seu lado. Gostaria de saber o que ia na mente e no corao dele. Thayer no dava pistas ou indicaes. Sabia que nunca teria 
total certeza de seu julgamento se o baseasse apenas nas aes.
     Ainda levava gravada na mente a imagem do rosto de Thayer no momento em que ele fora informado de que se casariam. Essa era, em grande parte, a razo da apreenso 
que a atormentava, das dvidas que em alguns momentos dominavam-lhe a mente. Teria sido melhor se no tivesse visto aquela expresso. Algo no casamento com ela aborrecera 
Thayer, apesar da paixo que ele demonstrava, apesar de como a tratava. De algum jeito, teria de resolver o problema. S esperava que a descoberta no fosse dolorosa 
demais e que o problema no fosse de muito difcil soluo.
     - Riverfall fica depois da prxima colina.
     Gytha suspirou aliviada ao ouvir o anncio de Thayer. Estava mais do que pronta para concluir a jornada. Se fechavam a carruagem o calor era insuportvel, e 
para mant-la aberta tinham de enfrentar a poeira. Eles optaram pela poeira, e agora ela tinha a sensao de estar carregando nas roupas toda a terra da estrada. 
Olhando na direo indicada, ela mal conseguia ver a colina mencionada por Thayer. Olhou para o marido, que cavalgava do lado de fora do veculo.
     - A colina est muito longe? - perguntou.
     - Um dia de cavalgada. Acamparemos logo ali na frente. H uma pequena clareira e gua para os cavalos.
     Ela o viu se afastar da carruagem e lamentou no ter nada para arremessar contra suas costas largas. O anncio havia sugerido que o fim da viagem no estava 
prximo. Mais um dia? Esperava ter gua suficiente para um banho, pelo menos.
     Quando eles pararam, a noite j caa sobre a paisagem. Gytha falou o mnimo possvel at a tenda estar montada e pronta.
     Ento, com a ajuda de Bek, ela conseguiu tomar um banho. Livre da poeira e do suor, sentia-se muito melhor. No foi surpresa para ela quando, assim que se retirou 
da tina, Margaret correu a tomar seu lugar. Vestida, com os cabelos presos por uma fita, ela saiu para ir procurar pelo marido. Ele estava sentado perto de uma fogueira 
em companhia de Roger, Merlion, Torr e Rev.
     Thayer a observou intrigado quando ela se sentou a seu lado. Notara como o humor da esposa havia desaparecido a cada quilmetro de terra percorrido. Qualquer 
pessoa teria se ressentido, sabia disso. Mas o silncio de Gytha podia ser conseqncia de outros aborrecimentos. Talvez ela j tivesse se cansado de sua presena. 
A novidade do casamento j se esgotara. Talvez no encontrasse mais nada que cativasse seu interesse, agora que havia saciado a curiosidade inicial. Tentando se 
livrar da apreenso que considerava uma perigosa fraqueza, ele disse a si mesmo que tinha mais com que se ocupar. No podia perder tempo com o humor instvel de 
uma mulher.
     - Nunca pensei que houvesse tanta poeira na Inglaterra - Gytha comentou. - E acho que cada gro dela acabou grudado em mim.
     - A regio  seca - respondeu Thayer. - At os homens menos inclinados aos hbitos de limpeza sentiram necessidade de tomar um banho.
     - E verdade - confirmou Roger. - Todos passaram pelo rio.
     - Sim, somos muito fortes! No precisamos aquecer a gua do nosso banho - Thayer acrescentou rindo.
     - Bem, alguns diriam que  loucura pular na gua fria quando h um jeito de aquec-la antes, mas eu nunca diria tal coisa de meu marido - ela respondeu, tomando 
um gole do vinho que era partilhado por todos. E riu.
     - No  claro que no. - Thayer tambm riu e tocou os cabelos midos da esposa. - No seria apropriado.
     - No. Nem mesmo depois de ter ouvido os gritos dos homens fortes e corajosos no riacho gelado.
     - Amanh, a essa mesma hora, estaremos em Riverfall - Thayer prometeu.
     - Os que nos antecedem conseguiram ver o lugar?
     - S um deles conseguiu. E disse que a construo  slida e parece ser boa. Construda para servir de defesa e abrigo.
     - E bom saber disso, mas no era esse tipo de conhecimento que eu buscava.
     - Eu sei que no, mas foi s o que ele disse. No deve ter se aproximado para ver mais do que isso.
     - Oh? Ele no informou ningum sobre nossa chegada?
     - No. Mandei outro homem para cuidar disso. Ele vai ficar l para cuidar dos preparativos.
     - Lamento no ter questionado meu pai sobre esse lugar.
     - No pode ser pior do que Saitun Manor.
     - Por favor, espero que no!
     A conversa seguia animada, mas Thayer se perdeu em pensamentos. Desde a primeira noite de viagem, fizera pouco mais do que dormir ao lado de Gytha. Cansada, 
ela j havia adormecido quando conseguia ir se juntar a ela na cama. O banho a refrescara. A notcia de que a viagem chegava ao fim tambm servia para reanim-la. 
Precisava lev-la para a tenda antes que a perdesse novamente para a exausto.
     Ele j se levantava e segurava o brao de Gytha, disposto a tir-la dali, quando um grito de alarme soou entre as rvores mais prximas da clareira. Thayer 
conduzia a esposa para um abrigo seguro, quando um dos vigias deixados por ele na floresta surgiu no acampamento. O homem cambaleava. Ensangentado e fraco, o homem 
mal conseguiu emitir novo alerta antes de o ataque comear.
     Gytha estava aturdida. Entendia o que acontecia, mas hesitava em buscar a proteo da tenda. Queria ajudar, atuar na luta contra os atacantes, mas no conseguia 
pensar em nada que pudesse fazer. Thayer olhou para ela. Enquanto gritava ordens para seus comandados, ele tambm conseguiu comand-la. Apontando o dedo para a tenda, 
deixou clara a ordem silenciosa. Gytha obedeceu e correu para o abrigo.
     Assim que ela passou pela abertura, a tenda foi cercada por pajens e homens armados. Dessa vez Thayer no correria riscos. No deixaria espao para um dos atacantes 
se aproximar sem ser visto. Homens armados guardavam a entrada.
     - O que est acontecendo? - Edna gritou agarrando-se a Gytha.
     Aproximando-se da prima, Margaret sussurrou:
     -  outro ataque?
     Gytha se sentia confortvel na presena das duas, apesar do medo.
     - Sim. Outro.
     - Houve um alerta, ou os homens foram surpreendidos? - Margaret perguntou.
     - No foi uma surpresa. No completamente. Vi homens surgindo do bosque e vi tambm os homens de Thayer correndo para enfrent-los.
     - Ladres? Viemos acampar em um covil de ladres?
     - Creio que no, Edna. So muitos e esto bem armados.
     - Robert e o tio novamente? - Margaret ainda estava ao lado da prima.
     - Talvez. No ouso afirmar. Afinal, estamos em uma rea de conflitos.
     Elas permaneceram em silncio, atentas aos sons da batalha do lado de fora da tenda. Gytha temia por Thayer. Era estranho que nada tivesse sentido na primeira 
luta, quando ele defendera sua vida. Seria algum tipo de premonio? Ela baniu da mente o pensamento assustador. Se no se preocupara na primeira vez, era porque 
no tinha pleno conhecimento do custo de uma batalha, porque ainda no tinha sentimentos profundos pelo marido. Queria se convencer disso e orava por ele e pelo 
fim da batalha.
     Thayer lutava e praguejava com o mesmo ardor. Sabia que se fracassasse, Gytha sofreria as conseqncias nas mos dos atacantes.
     Foi quando os invasores comearam a se retirar e a batalha perdeu fora, que Thayer se viu em maior perigo. Ao retirar a espada do corpo de um homem cado, 
ele girou sobre os calcanhares e se viu diante de dois grandes oponentes. Eles no pareciam afetados pela luta. De sua parte, sentia-se cansado e desgastado, bem 
prximo da exausto.
     - Olhem em volta, ces. Sua matilha j comea a enfiar o rabo entre as pernas. Melhor se juntarem aos outros. - Ele empunhou tambm a adaga, aumentando seu 
poder letal.
     - Nesse caso, vamos ter de mandar voc para o inferno mais cedo do que planejvamos - gritou um dos atacantes, investindo contra Thayer.
     Ele se esquivou facilmente do golpe, mas evitar o segundo oponente no foi to fcil, especialmente porque ele atacava ao mesmo tempo. Pouco habilidosos, eles 
uniam foras para tentar super-lo. Roger, que normalmente protegia sua retaguarda, estava afastado da cena. Teria de contar com a sorte para escapar ileso. No 
podia se descuidar das prprias costas. Precisava manter os dois em seu campo de viso. Concentrao era a palavra-chave. O sorriso que via nos lbios dos inimigos 
confirmava suas suspeitas; eles tinham conscincia de suas inmeras desvantagens. Por um tempo, ele os manteve afastados sem muitos problemas. Enquanto testavam 
sua fora lendria e sua reputao de lutador invencvel, eles tambm estudavam sua maneira de lutar. Logo decidiriam qual era a melhor forma de ataque. Precisava 
atingi-los antes que a dupla chegasse a esse perigoso consenso. Era sua nica chance de super-los. Ele investiu contra um dos inimigos e se virou depressa, encontrando 
o outro despreparado e aberto para o golpe. Sua espada perfurou o corpo do adversrio. A vtima caiu; ele removeu a lmina do corpo inerte e se preparou para prosseguir 
na aguerrida luta. O adversrio agiu depressa. Thayer tambm foi veloz, o suficiente para impedir que o ataque fosse fatal, mas no o bastante para evitar o profundo 
corte em seu brao. Cambaleando, ele tentou se preparar para um novo ataque, mas a fora se esvaa do brao ferido, justamente aquele que empunhava a espada. Lutou 
contra o sentimento de nevitabilidade. Sabia que aceitar a derrota era a maneira mais certa de promov-la.
     Um sorriso frio bailava no rosto do inimigo. Thayer sabia que sua fraqueza havia sido notada. Rangendo os dentes contra a dor, ele ergueu o brao para se defender 
de um novo golpe. O impacto foi pura agonia. Era difcil lutar contra a escurido da inconscincia. Numa tentativa que sabia ser intil e quase pattica, ele levantou 
a espada para tentar conter mais um golpe.
     A espada inimiga no chegou a entrar em contato com ele, porque foi interceptada por uma terceira lmina. Ao reconhecer Roger e ver a fria assassina em seus 
olhos, Thayer cedeu  fraqueza. Praguejando em voz fraca, caiu de joelhos e viu o amigo pr fim  vida daquele que ousara amea-lo. A batalha chegava ao fim. Os 
atacantes se retiravam, correndo como coelhos assustados na tentativa de salvar a prpria vida.
     Roger se abaixou ao lado de Thayer e forou um sorriso, mas os olhos revelavam preocupao.
     - Est to ruim assim?
     - No. O sangramento  intenso o bastante para me deixar sem foras. Vencemos?
     - E o que parece. Mas ainda no sei dizer quanto essa vitria nos custou.
     - Espero que no tenha sido um preo alto demais.
     - No. Pode parecer terrvel  primeira vista, mas no foi nada srio.
     Roger ajudou-o a se levantar. Juntos, viram Gytha, Margaret e Edna sarem cautelosas da tenda.
     Atrada pelo silncio que seguia o estrondo da batalha, Gytha olhava em volta. Mais uma vez, um aviso soara a tempo de salv-los do pior, mas era fcil perceber 
que esse ataque custara mais ao grupo do que os anteriores. Ela no perdeu tempo pensando nisso. Sua maior preocupao era encontrar o marido. Quando finalmente 
o viu, sufocou um grito. Thayer estava coberto de sangue e se mantinha em p com a ajuda de Roger. Ela correu para o marido seguida por Margaret e Edna. Desesperada, 
agarrou-se  tnica ensangentada.
     - Est ferido! - Sabia que afirmava o bvio, mas estava apavorada.
     - E s um arranho.
     - Um arranho? Est coberto de sangue!
     - No  s meu. E ns vencemos a batalha. Acabou. Acalme-se.
     - Acalmar-me? Est a sangrando como um porco e quer que eu tenha calma? Roger, Merlion, levem-no para a tenda. gua. Preciso de gua. E bandagens - ela concluiu, 
correndo na frente para preparar a tenda.
     Margaret segurou o brao de Edna, impedindo-a de seguir Gytha, e olhou para os trs homens.
     - Se seu ferimento no  mesmo grave, milorde, talvez Edna e eu possamos ajudar os outros feridos.
     - Sim, podem ir - Thayer respondeu. - Merlion, Roger pode me levar at a tenda. Leve as mulheres at onde esto os feridos.
     Enquanto os outros se afastavam, Thayer murmurou para Roger:
     - O que acontece com Gytha? Ela manteve a calma na ltima batalha, quando quase foi raptada.
     - Daquela vez o marido dela no foi ferido.
     - Talvez tenham sido muitas batalhas em pouco tempo. Ela pode temer viver cercada delas.
     Roger suspirou irritado.
     - E claro. Ela no pode ter ficado nervosa s porque o encontrou ensopado em sangue.
     - O ferimento no  to grave.
     Gytha se sentia mais calma, mas a tranqilidade s perdurou at Roger e Thayer entrarem na tenda. Ver novamente o marido plido e ensangentado reacendeu seu 
pavor. Trmula, ela estendeu um lenol sobre a cama antes de Thayer se deitar nela. Roger a ajudou a despi-lo, deixando-o apenas com a cala. Ela limpava o ferimento 
quando Merlion entrou. Era difcil conter o impulso de mandar todos sarem dali. Respirando fundo, se concentrou no ferimento e tentou no desmaiar diante da viso 
assustadora do corte profundo. Enquanto trabalhava, ouvia a conversa entre os trs homens.
     - As mulheres foram cuidar dos feridos? - Thayer perguntou a Merlion, tentando ignorar a dor.
     - Sim. Talvez at salvem aquele que julguei condenado  morte. O homem que deu o alarme e salvou todos ns. Espero que ele no pague com a vida pelo ato de 
coragem. Algum prisioneiro?
     - No. E no se aborrea com isso. O morto revelou tudo que precisvamos saber.
     - Mas como?
     - Lutei contra um deles no ltimo ataque.
     - Tem certeza disso?
     - Ningum esquece um rosto feio como aquele.
     - Ento - Roger murmurou -, Robert e o tio no deram ouvidos ao nosso aviso.
     - Parece que no. Aquele primeiro ataque no foi s uma reao  raiva - Thayer respondeu.
     - No. - Roger suspirou, sabendo que a batalha contra os parentes incomodaria Thayer. - Isso  guerra. Robert e o tio pretendem ir at o fim nisso.
     A notcia s aumentava a inquietao de Gytha. Sabia que estava perdendo a batalha contra o medo e todas as outras emoes que a afligiam. Ela cobriu o ferimento 
com uma bandagem e continuou ouvindo a conversa, tomando conhecimento dos planos dos homens para deter Robert e o tio. O que ouvia s aumentava sua aflio. Foi 
um alvio ver Roger e Merlion partirem.
     Ao terminar, foi lavar as mos e ficou olhando para elas posicionadas sobre a bacia com gua. Ver o sangue do marido acabou com o pouco controle que ainda lhe 
restava. Ela mergulhou as mos na bacia e as esfregou com desespero enquanto chorava. Sabia que no poderia se conter, mas se esforou para manter o pranto silencioso. 
No queria que Thayer a julgasse fraca e intil, incapaz at de cuidar de seus ferimentos.
     - Gytha - Thayer chamou preocupado, estranhando o vigor com que ela esfregava as mos.
     A resposta foi o silncio. Intrigado, ele a viu secar as mos e guardar tudo que havia usado para fazer o curativo. Seus movimentos no tinham a graa habitual. 
Era evidente que ela estava chorando, ou no faria tantos rudos abafados. O comportamento da esposa o confundia. Ela parecia muito abalada por conta de seu ferimento.
     - Gytha.
     Ela se virou e ficou apavorada. Thayer estava quase em p. Esquecendo a inteno de esconder o pranto, ela correu a ampar-lo.
     - O que est fazendo?
     Thayer tocou-a no rosto e ignorou a dor na ferida.
     - Esteve chorando. No... Est chorando.
     - No estou. Deite-se. Esqueceu que est ferido? Ele se deixou acomodar novamente na cama, mas manteve o olhar fixo no rosto marcado pelas lgrimas. - Parece 
estar mais preocupada que eu com esse arranho.
     - Arranho? Chama isso de arranho? Um arranho no precisa ser costurado. Tambm no ensopam uma tnica de sangue. E no acabam com a fora de um homem a ponto 
de ele precisar de ajuda para chegar a sua cama.
     - S fiquei fraco um pouco. - Ele conteve um sorriso.
     - E nesse momento podia ter a cabea arrancada do pescoo. - A idia a fez tremer de pavor.
     - Gytha, apague as velas. Todas, exceto a mais prxima da cama.
     - O qu?
     - Apague as velas. Isso mesmo - ele a incentivou ao ver que sua ordem era acatada. - Agora, dispa-se e venha se deitar a meu lado.
     Ela obedeceu ao comando sem esconder sua irritao, movendo-se com enorme cuidado ao se aproximar dele.  Quando o brao saudvel a envolveu, ela quase se atirou 
contra Thayer. Agarrando-o com desespero, buscou conforto em seu calor, na fora de seu corpo, nos batimentos fortes de seu corao. E prometeu a si mesma que aprenderia 
a se controlar no futuro.
     - J viu minhas cicatrizes e sabe que posso levar um ou outro golpe de vez em quando - ele murmurou.
     - Sim. Eu sei. - Mas nunca havia pensado no sangue, dor ou no perigo que produzira cada uma daquelas cicatrizes.
     - Sei que perdi muito sangue e fiquei um pouco fraco, mas o ferimento no  grave.
     - Tambm sei disso. - E sabia que os pontos eram necessrios apenas para reduzir a extenso da marca.
     Ele a beijou na testa.
     - Ento, pode aplacar seus temores.
     - No. Minhas lgrimas e essa atitude tola de mulher fraca... sim. Mas no os meus medos. Robert e aquele verme que ele chama de tio querem pr fim a sua vida. 
Como disse Roger, isso  guerra. Eles vo tentar outra vez.
     - Estou preparado. Sofremos um ataque, mas agora entendo que foi mais que isso. Foi uma tentativa de assassinato.
     - Seu assassinato.
     - Sim. Eles afastaram Roger de seu posto s minhas costas, deixando-me diante de dois inimigos e sem nenhuma ajuda. Isso no pode voltar a acontecer. Na prxima 
vez, estaremos preparados para esse tipo de plano. Sobrevivi a batalhas com homens mais fortes e mais habilidosos.
     - Eu sei. Perdoe minha fraqueza. No voltarei a desapont-lo. - Sentia-se embaraada.
     - Voc no me desapontou. Mesmo abalada, cuidou do meu ferimento e se manteve firme no momento de necessidade. Preciso me empenhar para proteg-la desse tipo 
de violncia no futuro.
     - No foi a violncia. No foi a batalha.
     - Bem, lembro-me de que se manteve mais firme naquele primeiro ataque.
     Thayer sentiu uma ponta de esperana aquecendo seu peito. Se no havia sido a batalha, devia ter sido o ferimento. E se ela se abalara tanto com isso, devia 
sentir alguma coisa mais sria e profunda por ele.
     - Sim,  verdade.  muito estranho. No senti medo nem me preocupei com a possibilidade de voc ser ferido naquela ocasio. Dessa vez no tive tanta confiana. 
No momento em que o ataque ocorreu, temi por sua vida. Busquei razes para essa mudana. No quero essa capacidade de... bem, de prever o que vai acontecer. Agarrei-me 
a razes tolas, sem fundamento. E acho que ver concretizado um temor que eu preferia poder ignorar s alimentou minha tolice.
     - Esses sentimentos no so to raros quanto pode imaginar. Homens que se vem na iminncia de uma batalha freqentemente sentem o prprio destino ou o daqueles 
mais prximos.
     - Espero no ser amaldioada com esse dom. J  terrvel voc ter de lutar.
     - Um homem...
     - Eu sei. Sei que o mundo  assim. Sei que  necessrio. Na verdade, aprendi a lidar com isso h muito tempo, porque meu pai e meus irmos sempre partiam para 
o campo de batalha. Mas sentir qual ser seu destino todas as vezes? No, espero no ter de sofrer essa sina.
     - Talvez tenha sentido que o ataque era perpetrado por Robert, de seu desejo de me matar - ele murmurou.
     - No acredito que Robert deseja mesmo matar voc. O tio dele...
     - Os dois so um s.
     - Sim. Talvez tenha razo. Quando o ataque ocorreu, tive de reconhecer esse pressentimento que havia tentado ignorar. Oh, Thayer, no quero ficar viva!
     - Nem eu pretendo fazer de voc uma viva.
     Ela riu. Era o momento perfeito para expressar o que transbordava de seu corao, mas hesitou. Era um conhecimento ainda muito novo, assustador. A certeza viera 
ao ver o marido fraco e ensangentado. Queria saborear por um momento como era estar profundamente apaixonada por Thayer. E tambm queria manter esse sentimento 
puro, imaculado, livre de uma possvel ausncia de resposta ou de uma reao insatisfatria do marido.
     Ela suspirou ao sentir a mo deslizando por suas costas.
     - Seu ferimento...
     - No estou aleijado. - Pelo contrrio. Sentia-se vivo e saudvel, um homem pleno de vida e vigor.
     Gytha correspondia ao sentimento, a julgar por seus gemidos abafados.
     - Devia descansar.
     - A batalha aqueceu meu sangue, doce Gytha, e voc o efervesceu.
     - Tem certeza de que ainda sobrou sangue suficiente para ser fervilhado?
     Ele a apertou contra o corpo, pressionando-a contra a evidncia de seu desejo.
     - Mais do que suficiente. E voc? Est cansada demais para pr  prova minha afirmao?
     Ela sorriu.
     - Acho que pode me convencer, se procurar se empenhar.
     Thayer beijou-a. Ele prolongou o beijo e tornou-o mais profundo e sensual, despertando seus sentidos. Era delicioso perceber Gytha responder com ferocidade 
crescente. Senti-la friccionando o corpo contra o dele destruiu o pouco controle que ainda tinha sobre os prprios impulsos. Sabia que ela estava preparada para 
receb-lo.
     - Entregue-se a seu marido, minha doce Gytha. Corando, ela o montou e se entregou ao desejo.
     - No sei se entendo o que espera de mim.
     - Quero que me conduza nessa dana. Mova-se sobre mim, querida.
     Ela atendeu ao pedido. A paixo ganhava fora e tornava-se selvagem. Gytha era cuidadosa, pois temia machuc-lo ainda mais. O gemido rouco de Thayer indicou 
que a sensao predominante era de prazer, no de dor. A unio entre os corpos era ainda mais perfeita que antes.
     Ela se movia. As sensaes roubavam-lhe o flego e davam mais velocidade aos movimentos. As mos do marido em seu quadril a impeliam a prosseguir.
     Thayer mantinha os olhos abertos, pois queria acompanhar a dana de expresses no rosto de Gytha. V-la alimentava seu prazer. Sentia uma alegria que nenhuma 
palavra poderia descrever. Ele ergueu as mos para segurar os seios tentadores, e o contato a fez acelerar ainda mais o ritmo. Sabia que logo chegariam ao clmax.
     Ele a puxou para um beijo feroz. O jeito como ela reproduzia com a lngua os movimentos do corpo o levava  loucura. O grito de prazer explodiu em sua boca 
e ela o seguiu na exploso sensual e incontrolvel.
     Vrios minutos transcorreram antes de Thayer reunir a fora necessria para se mover ou fazer qualquer coisa alm de respirar e segur-la contra o peito. Gytha 
adormeceu a seu lado, aninhada em seu peito. A satisfao podia ser ouvida na respirao profunda, podia ser sentida no corpo quente e relaxado. Como sempre, observ-la 
0 surpreendia e fascinava. No podia deixar de pensar em como uma beleza to delicada encontrava prazer com Um homem como ele. Envergonhava-se com a admisso, mas 
sabia que havia uma razo para a necessidade de observ-la enquanto faziam amor. Precisava ter certeza de que tudo no passava de uma encenao, de que o prazer 
que ela parecia sentir em seus braos era genuno.
     - Como vai o ferimento?- Gytha perguntou sonolenta e sem abrir os olhos.
     - No sinto dor - ele mentiu. O desconforto era um preo pequeno a pagar pelo que acabara de viver.
     Ela riu e balanou a cabea. Sabia que o marido no dizia a verdade, mas escolheu no desmenti-lo. Se havia existido alguma dor, no devia ter sido muito intensa, 
pois no havia fraqueza no abrao forte nem agonia na voz. Ceder ao desejo certamente no causara grande dano ao marido.
   CAPTULO IV
     ? Ah, vejo que ainda est forte e saudvel, Janet - Gytha provocou ao cumprimentar a mulher ao lado do galpo da lavanderia.
     - E cedo, milady. Ainda posso pegar uma friagem. Gytha revirou os olhos num gesto de exasperao, mas tambm riu. Riverfall havia sido uma agradvel surpresa. 
Era preciso pouco trabalho para tornar o lugar habitvel, embora tudo ali fosse simples. A simplicidade no a incomodava. Seria agradvel dar os prprios toques 
a casa.
     Porm, os trabalhadores e o povo que vivia em torno de Riverfall precisava de boas noes de higiene pessoal. Ela ignorara os uivos, pusera de lado os temores 
de contrair uma friagem fatal por causa de um banho, e insistira para que todos seguissem as mesmas regras de higiene que ela adotava. Muitas das queixas e das apreenses 
haviam desaparecido com o passar do tempo, e ningum  morrera por ter perdido a grossa camada de sujeira sobre a pele. Alguns, como Janet, se sentiam  vontade para 
brincar e fazer piadas. Gytha esperava no encontrar grande resistncia quando, dentro de alguns dias, anunciasse a regra do banho dirio e da limpeza completa da 
casa uma vez por semana.
     - Bem, em dois dias tentaremos novamente - ela provocou Janet enquanto inspecionava o resultado da limpeza. - Vejo que o jovem Bek tem pulado na cama com os 
ps sujos de barro. Os lenis revelam as travessuras.
     Rindo enquanto esfregava o lenol imundo, Janet concordou:
     - Sim, ele  um garoto cheio de vida e energia.
     - Falarei com ele pessoalmente sobre os lenis. Bek precisa aprender a poupar o trabalho alheio sempre que for possvel. Se a conversa for insuficiente, farei 
com que ele lave os prprios lenis. Garanto que essa ser uma lio inesquecvel. - Gytha sorriu ao ouvir a gargalhada rouca de Janet, depois seguiu em sua ronda.
     No pouco tempo que estava em Riverfall, encontrara poucas coisas que precisavam ser corrigidas. As pessoas eram negligentes com a higiene pessoal, mas no havia 
mais faltas que pudesse criticar. Todos trabalhavam com empenho e competncia. Talvez isso contribusse para o profundo sentimento de adequao que experimentava 
naquela terra. Se pudesse escolher sua residncia, certamente optaria por Riverfall, mas no sabia se isso seria conveniente a Thayer. Afinal, Saitun Manor era a 
propriedade da famlia dele.
     Percebendo a presena de Bek, ela se encaminhou para onde estava o menino. Parado ao lado do pai, ele assistia ao treino dos homens com suas espadas. A presena 
de Thayer ao lado do menino a fez hesitar. Bek era filho dele... no dela. Balanando a cabea, ela seguiu em frente. Formavam uma famlia. Para que tudo desse certo, 
precisava tratar Bek como trataria os prprios filhos. S esperava que o marido compreendesse e concordasse, porque, caso contrrio, a situao poderia se tornar 
dolorosamente complicada.
     Thayer sorriu ao v-la se aproximar.
     - Encontramos lutadores habilidosos aqui. Seu pai administrou bem a propriedade.
     - Ele mandou para c os homens que pareciam mais... bem, entediados com a relativa paz de onde morvamos.
     - E fez uma boa escolha. Aqui eles tm com que se ocupar, mas no tanto quanto faziam imaginar os rumores que ouvimos.
     - Esse  um grande consolo - ela respondeu sorrindo para o marido.
     - Precisa de alguma coisa? - Thayer perguntou ao notar sua expresso sria.
     - Na verdade, vim falar com Bek. - Ela olhou para o menino, que sorriu intrigado.
     - Quer minha ajuda para alguma coisa? - ele perguntou.
     - De certa forma, sim. Notei que esquece de limpar os ps antes de subir na sua cama. Francamente, seus lenis do a impresso de que voc pulou na cama com 
os ps sujos de barro.
     Bek franziu a testa e encolheu os ombros.
     - O lenol  lavado. As mulheres cuidam disso.
     - Sim, a est o problema. Voc os deixa to sujos, que as mulheres levam muito mais tempo lavando seus lenis do que cuidando do restante da roupa.
     - O trabalho delas  esse. Limpar as coisas que sujamos.
     - Eu sei, mas isso no quer dizer que devemos ser relaxados para tornar o trabalho mais difcil. Quero que limpe os ps antes de ir para a cama, e quero tambm 
que pense um pouco mais nas pessoas que tm que limpar o que voc suja. - Ela notou o silncio prolongado do menino. - Estamos entendidos, Bek?
     - Sim. - Ele se afastou. Gytha olhou para Thayer.
     - No queria que ele se zangasse.
     Rindo, Thayer passou um brao sobre seus ombros e beijou-lhe a testa.
     - Receio que ele tenha o temperamento do pai. Como  ainda muito jovem, no aprendeu a domin-lo.
     Gytha sorriu, depois o observou por um momento enquanto pensava.
     - Entende que tive de censur-lo?
     - Sim. Ele precisa aprender a pensar nos outros. E mesmo que no concordasse com voc, jamais diria tal coisa na frente do menino. Falaremos sobre isso mais 
tarde, est bem? O que penso  que Bek deve aprender a respeit-la como me respeita.
     Gytha o abraou com fora.
     - Obrigada, Thayer.
     - Por nada, embora eu nem saiba o que fiz.
     Ainda rindo, ela voltou para o interior do castelo. Thayer aceitava sua autoridade sobre o filho. Duvidava de que ele pudesse entender o que isso realmente 
significava para ela. Agora, s precisava pensar em como faria Bek aceitar essa mesma autoridade. 
     Com o passar do dia e a continuidade da expresso carrancuda no rosto do garoto, ela deduziu que teria de enfrentar uma batalha. Essa suspeita se confirmou 
na manh seguinte, para sua enorme decepo. Ao deixar o salo onde tomara o desjejum, ela viu Janet descendo a escada carregando vrios lenis. Mesmo enrolados 
como estavam, era possvel ver marcas escuras neles.
     - Bek voltou a pisar nos lenis com os ps sujos?
     - Sim, milady.
     - Por Deus - Gytha gemeu depois de examin-los. - No vai lavar esses lenis, Janet. Prepare a tina, mas espere por mim no galpo. Vou buscar Bek. Como soube 
que teriam de ser lavados novamente?
     - O menino me chamou e ordenou a troca e a lavagem dos lenis de sua cama.
     - Que arrogncia!
     Gytha dispensou a criada e suspirou. Pelo menos o menino a enfrentava abertamente, em vez de tramar por suas costas. Quando se virou para ir procurar o garoto, 
ela se viu frente a frente com Thayer. Ele a observava na porta do salo.
     - Problemas? - perguntou.
     - Um pouco. Sabe onde est Bek?
     Levando a mo s costas, Thayer puxou o filho para a frente.
     - Ele estava escondido no corredor. Agora entendo por que se esforava tanto para no ser visto.
     Com as mos na cintura, ela olhou para o garoto com o ar mais severo que conseguiu compor.
     - O que voc fez? Pisou no maior lamaal que encontrou e depois foi sapatear em cima da sua cama? No me surpreenderia descobrir que levou o barro em baldes 
para sujar os ps vrias vezes entre uma dana e outra. No sei como conseguiu dormir naquela imundcie.
     O olhar culpado indicou que ele no havia dormido na cama. Ela quase riu. Esse seria um erro grave, sabia, por isso tratou de conter o riso e manter a expresso 
severa.
     - Como se no bastasse, ordenou que a pobre Janet fosse remover os lenis para lav-los.
     - Esse  o trabalho dela - Bek disparou.
     - Sim, mas no porque um menino decidiu se comportar mal. Acho que voc precisa ter noo de quanto  penoso esse trabalho que impe a outros com tanta tranqilidade.
     - O qu? - Bek gritou quando ela o segurou pela orelha.
     - Vai lavar o lenol que sujou, mocinho.
     - No! Esse trabalho  das mulheres!  obrigao de Janet, no minha. E dever dela. Papai!
     - Acho que a soluo  justa - Thayer respondeu calmo.
     - Justa? Serei um cavaleiro, um guerreiro.
     - Sim, um cavaleiro - Gytha confirmou. - E os cavaleiros seguem regras. Eles tm considerao por aqueles que garantem seu conforto, pelos que contam com sua 
proteo. E agora voc vai aprender o que  considerao.
     Gytha segurava a orelha de Bek, obrigando-o a marchar para o galpo da lavanderia. No incio, Janet e as outras mulheres hesitaram. Afinal, o menino era filho 
do senhor da propriedade. Mas logo elas acataram a determinao da senhora. Bek era teimoso.
     Quase uma hora mais tarde, Gytha sentiu que podia finalmente deix-lo entregue as cuidados das outras mulheres. Mesmo carrancudo como estava, ele parecia resignado 
com o prprio destino. Ela terminou de supervisionar todas as tarefas domsticas, depois foi para a cama. Deitada de costas, fechou os olhos e sentiu uma forte compaixo 
pelos pais. Disciplinar uma criana teimosa no era fcil. Uma mulher adulta encontrava dificuldades para impor sua vontade a um menino! Pensativa, sentiu que no 
estava mais sozinha. Quando abriu os olhos, viu Thayer se sentando na cama a seu lado.
     - Ele  teimoso... - murmurou o pai constrangido.
     - Sim.
     - E temperamental.
     - Oh, sim, certamente.
     Thayer riu do tom enftico da resposta.
     - Bek criou dificuldades?
     - Algumas, mas se dedicou a cumprir a tarefa. Espero que ele compreenda que o trabalho  difcil e sinta um pouco de piedade por aquelas criadas que se responsabilizam 
pela lavagem das roupas.
     - Sim. Essa  uma lio que ele precisa aprender. Ele no teve quem o ensinasse. No com a vida que levou at agora.
     - Eu sei. Por isso me limitei a censur-lo de maneira to branda na primeira vez. Mas ele precisa aprender. E tem de aprender do incio.
     - Sim, e voc precisa de um tempo longe de tudo isso. - Ele se levantou e a puxou pela mo, indicando que devia acompanh-lo.
     - Eu preciso, no ?
     - Sim, precisa. Tem trabalhado duro desde que chegamos aqui. Primeiro cuidou de mim at a ferida fechar, depois se dedicou  superviso das tarefas domsticas. 
E agora ainda tem de medir foras com um menino teimoso. Sim, precisa se afastar por um tempo. - Ele a levou para fora do quarto.
     - E para onde fugirei?
     - Para um recanto muito sossegado que encontrei cavalgando pela propriedade.
     Ela no fez mais perguntas, porque j se aproximavam do estbulo. Thayer havia mandado ensilar apenas um cavalo. Ele a acomodou na frente do corpo e juntos 
deixaram a rea protegida da propriedade. Thayer recusou a oferta de escolta. Gytha mantinha os olhos voltados para a terra diante dela. Cansada da jornada, ela 
pouco notou quando chegaram, e ainda no havia tido oportunidade para explorar a rea alm das muralhas.
     O local onde pararam a deixou momentaneamente sem fala pela beleza. Irrigado pelo mesmo riacho que cortava Riverfall, a rea era verde e exuberante. Havia flores 
em abundncia. A gua corria pelo leito rochoso entoando uma cano envolvente. Gytha se aproximou do riacho e molhou os dedos na gua fresca.
     -  to gelada quanto parece - ela murmurou, secando a mo na saia.
     Sentado com as costas apoiadas contra um tronco de rvore, Thayer assentiu:
     - Ela recebe pouca luz do sol.
     - Uma pena. Parece convidativa. - Ela foi se sentar ao lado do marido e riu quando ele a tomou nos braos. - E to tranqilo aqui... Quando encontrou esse paraso?
     - Quando percorria as fronteiras da propriedade.
     - A terra  boa?
     - Parte dela, sim. No vai nos fazer ricos a ponto de nunca termos de contar nossas moedas, mas tambm no vai nos empobrecer.
     -  boa o bastante, ento.
     - Sim. - Thayer a beijou demoradamente. Quando encerrou o beijo, ele disse: - Posso falar com Bek, se quiser.
     - No. Acho que ser melhor se eu cuidar disso sozinha.
     - Sim, eu tambm penso assim, mas quis fazer a oferta. Creio que as coisas mudaram depressa demais para o menino. Ele perde o controle sobre seu temperamento 
com mais freqncia que antes.
     Gytha segurou as mos dele.
     - Ele vai se aquietar. Deve estar com medo de voc deix-lo de lado. Logo perceber que seu lugar est assegurado. Suspeito de que ele tambm no esteja habituado 
a cumprir ordens de uma mulher.
     -  verdade. Ele tem vivido em um mundo de homens... - Thayer franziu a testa ao perceber que o cavalo se agitava repentinamente.
     Sentindo a sbita tenso no marido, Gytha perguntou:
     - Algum problema?
     - No sei. - Colocando-a no cho a seu lado, ele tocou a espada. - Alguma coisa perturbou o cavalo.
     Gytha comeava a se levantar cautelosa quando uma flecha cortou o ar. Ela gritou aterrorizada ao ver que a ponta afiada encontrava o tronco da rvore e prendia 
o brao de seu marido. Quando fez meno de ajud-lo, Thayer usou a mo livre para faz-la parar. Praguejando vigorosamente, ele usou a adaga para cortar o tecido 
da manga da casaca e libertar-se. A flecha no causara nenhum ferimento. Mas era um alvo perigosamente fcil.
     Ele ainda terminava de se libertar, quando outra flecha zuniu no ar e se cravou no tronco da rvore, agitando seus cabelos.
     Livre, Thayer segurou a mo de Gytha e correu para a montaria. Ele parou furioso ao ver que o animal era atingido por uma flecha. Virando-se rapidamente, correu 
para o bosque, buscando a proteo das rvores e da penumbra.
     Identificando um bom esconderijo, fez Gytha se abaixar e se ajoelhou ao lado dela. O inimigo teria de ca-lo, expondo-se nessa busca. Essa era uma pequena 
vantagem da qual pretendia tirar grande proveito. Certificando-se de que Gytha estava bem e controlada, embora um pouco ofegante, ele estudou a rea que os cercava.
     Gytha tentava se manter quieta enquanto respirava profundamente, buscando recuperar um mnimo de tranqilidade. Thayer no estava ferido. Seu marido era um 
homem de muita sorte. Mais do que qualquer outro que j havia conhecido. Esperava que essa tendncia se mantivesse. Sabia que precisariam de uma carroa transbordando 
sorte para poderem escapar ilesos.
     Ela ouviu algum se aproximar e sentiu que Thayer ficou tenso, os olhos buscando a origem do som. O breve toque do dedo indicador em seus lbios nem era necessrio, 
porque sabia que devia ficar quieta. Conhecia o valor do silncio em situaes como essa. Movendo-se o mnimo necessrio, olhou na mesma direo em que Thayer olhava 
e viu trs homens caminhando cautelosos na direo em que eles estavam. Sabia que haviam sido enviados por Robert para matar Thayer.
     - Acho que isso no  muito inteligente - resmungou um deles. - Ele pode estar escondido em uma infinidade de buracos no meio de tantas rvores.
     - Quieto, cachorro covarde. Ele  s um homem, e ainda tem de proteger a mulher. Vamos nos separar aqui - decidiu o mais alto dos trs. Ele olhou para o mais 
hesitante. - Voc vai em frente. Eu vou pela direita. Vamos pegar esse pssaro.
     - Eu acho...
     - Nada. Voc no  pago para pensar. Encontre-o e ache tambm aquela maldita mulher. - O lder seguiu pela direita.
     Um sorriso frio surgiu no rosto de Thayer, e Gytha estremeceu ao v-lo. Ali estava o homem que conquistara o apelido de Diabo Vermelho. Cercada por proteo 
e segurana nos outros confrontos, nunca o vira realmente nessas circunstncias. Sabia que logo veria a morte, e precisava endurecer o corao. Esses homens planejavam 
matar Thayer. Misericrdia seria um erro fatal.
     Mesmo reconhecendo que aquela era uma atitude necessria, Gytha ficou chocada com o que viu. Ele era veloz e gil. Considerando seu tamanho, o movimento foi 
ainda mais surpreendente. Thayer esperou at que o homem estivesse diante deles. Ento atacou. Com um salto impressionante, cobriu a boca do atacante com uma das 
mos e puxou-o para trs. O desconhecido ainda levantava os braos para tentar se safar quando teve o corao perfurado pela lmina da adaga. Gytha ecoou o espasmo 
sufocado que brotou do corpo que caa.
     Thayer no esperou que ela reagisse realmente ao que acabara de ver. Ele soltou o corpo e a amparou com um brao. Tentando respirar com alguma normalidade enquanto 
a levava para outro esconderijo, ele a impedia de protestar ou fazer perguntas. Gytha sufocava o grito de terror, lembrando-se de que lutavam pela sobrevivncia.
     Thayer a jogou entre arbustos altos e abaixou-se a seu lado. Algum se aproximava. Ele se levantou de um salto para interceptar outro atacante.
     Gytha desviou os olhos. Preferia no ver quando o marido pusesse fim a mais essa ameaa. Resignada e entorpecida, ela se sentiu arrastar novamente, como se 
fosse uma bagagem qualquer, at ser depositada em um novo esconderijo. Para seu desespero, o ltimo inimigo no morreu to rapidamente nem to silenciosamente. Thayer 
precisava de respostas, por isso o enfrentou com a espada preparada e apontada para seu peito. Ele obteve todas as informaes de que precisava antes de pr fim 
 vida do homem.
     O homem revelou que eram apenas trs atacantes, por isso sabiam que agora estavam seguros. Portanto, foi sem nenhuma surpresa que ela se sentiu arrastada pela 
mo, dessa vez para fora do bosque. Thayer depositou-a sobre a relva macia cercada por arbustos que proporcionavam proteo e alguma sombra. Gytha o viu usar a barra 
da tnica para limpar a espada e depois cort-la, jogando-a para o lado.                                        
     Recuperada de tudo que acabara de ver e sentir, ela se preparava para fazer algumas reclamaes, quando o marido a encarou. As palavras morreram em sua garganta 
ao ver a expresso dele. O desejo escurecia seus olhos e endurecia seus traos. Ela sentiu uma resposta imediata. Decidindo deixar as queixas para mais tarde, abriu 
os braos e riu ao v-lo praticamente mergulhar neles.
     O ato sexual foi rpido, selvagem, atribulado. Gytha se sentia tomada pela ferocidade do encontro. S quando estavam j saciados nos braos um do outro, ela 
percebeu que se deixara possuir deitada na relva como uma camponesa qualquer. Nem haviam se despido. Tinha as saias erguidas at a cintura, e Thayer ainda estava 
com a cala presa aos tornozelos. Quando o marido revelou o prprio constrangimento levantando-se para erguer a cala, ela riu. Aliviado, ele a viu se arrumar sem 
pressa.
     - Machuquei voc?
     - No, embora deva encontrar alguns hematomas em pontos estratgicos.
     Ele a abraou e beijou.
     - T-la por perto quando ainda tinha o sangue quente da batalha foi uma tentao irresistvel.
     Lembrando o que havia aquecido seu sangue, ela ficou repentinamente sria.
     - Acha que pecamos por nos termos entregado  paixo depois de... depois de tudo?
     - No. Eles queriam nos matar, Gytha.
     - Eu sei. Sei que tinha de agir como agiu. Ser misericordioso teria sido seu fim. Mesmo assim, sentir esse desejo to intenso quando h trs homens mortos... 
No sinto que tenha feito algo de errado, mas parece to insensvel!
     Aliviado por ela no estar arrependida e por ter sentido prazer em sua companhia, Thayer tentou explicar sentimentos que eram muito familiares para ele.
     - Talvez. Sempre pensei algo muito parecido. A luxria no me domina no meio da batalha. No sou to cruel a ponto de me inflamar por derramar o sangue de um 
homem.
     - Enquanto se v cercado pela morte e por mortos, ainda vive.
     - Sim. - Ele a olhou demonstrando apreciao por Sua percepo. -  nesse momento que surge a necessidade. Olho em volta, e sei que sobrevivi para ver outro 
dia... - Ele encolheu os ombros, incapaz de descrever claramente o que sentia.
     - Ento, procura provas mais concretas de seu bem-estar - ela deduziu. -  uma celebrao?
     - Talvez. Voc no lutou essa batalha, mas se viu envolvida nela. Talvez tenha acontecido a mesma coisa com voc.
     - Pode ser. Acho que tudo isso teve muito a ver com como voc me segurou.
     -  mesmo? - No devia deixar a admisso de Gytha subir-lhe  cabea.
     - Sim. Realmente. Todo aquele ardor... Senti como se o fogo brotasse de seu corpo e queimasse o meu.
     - Vou tentar me lembrar disso.
     - Oh, ento devo ser mais cuidadosa?
     - No, para poder descobrir exatamente o que a inflamou tanto, depois praticar bastante.
     - Pode ser difcil... - ela murmurou, sorrindo. Thayer riu, mas interrompeu a gargalhada de repente e olhou em volta, ouvindo com ateno.
     - Cavaleiros.
     - Deus no permita! Mais assassinos contratados? - Ela se encolheu entre os arbustos.
     Recolhendo rapidamente a tnica e a espada, Thayer se abaixou na frente dela, olhando na direo de onde viera o som. 
     - Se Robert tivesse mais homens por aqui, eles j teriam atacado. A chance de me matar seria muito maior. De qualquer maneira,  melhor agirmos com cuidado. 
H outros com quem devemos nos preocupar.
     Gytha teve a impresso de que horas se passaram at os cavaleiros surgirem. Ela quase desfaleceu de alvio ao reconhecer Roger na frente do pequeno grupo. O 
medo que havia sentido era to intenso, que demorou um pouco para levantar-se e cumprimentar os homens, como Thayer fazia.
     - No disse que desejava ficar sozinho? - ele disparou, embora sorrisse.
     - Sim, eu me lembro de alguma coisa nesse sentido - Roger respondeu. - Porm, algo chamou minha ateno e nos fez pensar que poderia apreciar alguma companhia, 
afinal.
     - O que foi isso? - Thayer perguntou passando um brao em torno da esposa.
     - Merlion retornou da cidade contando uma histria interessante. Estranhos foram vistos por l nos ltimos dias.
     - Quantos?
     - Seis, de acordo com o que nos contaram.
     - Bem, agora so trs, ento.
     Roger o encarou com os olhos cheios de curiosidade.
     - Est dizendo que no temos mais de nos preocupar com os outros trs?
     - Se no quer deix-los entregues  natureza, os corpos esto no bosque - disse Thayer.
      - Isso pouco me incomoda. Onde est seu cavalo?
      - Morto. Precisamos de uma montaria. Voc nos salvou de uma longa caminhada.
      Logo Gytha e o marido paravam diante do castelo em Riverfall, onde um mensageiro do rei esperava por eles.
     Gytha estava curiosa quanto  mensagem, mas temia que fosse uma simples convocao.
     Como cabia ao seu papel de esposa, ela se retirou e deixou Thayer lidar com o homem em total privacidade. Era claro que esse era um assunto de homens. Contendo 
o mpeto de voltar ao salo e exigir informaes que, em ltima anlise, diziam respeito a sua vida, ela subiu a escada para ir se lavar e se recompor no quarto. 
Mais tarde acabaria sabendo de tudo, no tinha dvidas disso.
     Depois do banho, usando um vestido limpo e exibindo os cabelos brilhantes e ainda midos, Gytha estranhou as batidas na porta de seus aposentos. Esperava no 
ter de resolver dificuldades domsticas agora, porque precisava de paz e sossego para refletir sobre os eventos daquela tarde. Foi com grande surpresa que viu Bek 
abrir a porta ao receber autorizao para entrar.
     - Terminei de lavar os lenis - ele disse.
     - Trabalho duro, no? - Gytha perguntou enquanto escovava os cabelos. Quando chegasse  idade adulta, Bek partiria muitos coraes com aqueles olhos verdes 
e profundos.
     - Muito.
     Ela deixou a escova sobre o toucador e encarou o menino.
     - E mesmo assim, fez Janet repeti-lo por dois dias consecutivos.
     - Sim. - Ele baixou os olhos. - Isso no foi correto.
     - Perceber seu erro  o primeiro passo para tornar-se o melhor cavaleiro da Inglaterra. - Ela sorriu para o menino, depois ficou sria novamente. - As coisas 
no so mais como antes, nos tempos de meu pai. Naquela poca era apropriado tratar bem os servos e o povo de modo geral, mas agora, depois da peste, esse cuidado 
tornou-se ainda mais importante. Temos sorte por contarmos com os braos necessrios aqui em Riverfall para realizar todo o trabalho - ela comentou sria. - Est 
entendendo o que digo? No quero que pense que deve demonstrar considerao s para manter os servos trabalhando.
     - Eu sei. Devo agir assim porque essa  a atitude correta. Fui cruel com Janet, e crueldade  sempre condenvel. Mas eu estava zangado.
     - Eu percebi. Todos ns ficamos zangados de vez em quando, Bek. J viu seu pai ficar furioso.
     - Mas ele nunca comete uma crueldade.
     - No que eu tenha visto, e isso  algo que conferiu a ele muito respeito. E voc, Bek, acaba de me mostrar que tem a mesma qualidade. - Ela conteve o sorriso 
ao ver que o menino inchava o peito com orgulho.
     - Serei um cavaleiro to valoroso quanto meu pai.
     - No tenho dvidas disso. E provavelmente ser to grande quanto ele. - Podia antever tambm esse detalhe, porque Bek j era alto demais para a idade.
     - Acha mesmo?
     - Bem, vai ser mais alto do que eu,  certo.
     Thayer bebeu mais um gole de cerveja, olhando para o mensageiro do rei com evidente contrariedade. O rei estava no Oeste se preparando para enfrentar rebeldes 
e ladres. E requisitava sua presena na corte. Ainda devia ao rei quarenta dias de servio. Era claro que a dvida era cobrada.
     - Vamos, no precisa ficar to taciturno - Roger manifestou-se.
     - Tenho meus problemas para resolver. Esse  um pssimo momento para ser chamado a solucionar dificuldades de nosso soberano.
     - Talvez no.
     - Em que est pensando?
     - Bem, duvido que Robert e o tio se atrevam a atacar enquanto voc estiver na corte.
     - Mas ele pode aproveitar minha ausncia para atacar Gytha.
     Roger franziu a testa.
     - No pretende lev-la? No seria mais seguro mant-la a seu lado?
     - Voc acha que seria? Sabe como  a corte...
     - Sim... E Elizabeth vai estar l.
     - Tenho de pensar nisso, embora no me referisse a ela. Estava pensando em todos aqueles homens bem-vestidos pulando de cama em cama como paves exibicionistas.
     Roger balanou a cabea.
     - E  claro que eles vo se exibir na sua cama. E Gytha vai permitir. Sendo voc como , porque seria diferente?
     - Roger - Thayer tentou silenci-lo, irritado com o tom sarcstico.
     - Continua denegrindo o nome dela sem causa. Pois marque minhas palavras, meu amigo. Gytha no  tola. Logo ela vai deduzir seus pensamentos, se  que j no 
o fez. Quando perceber o quanto voc pensa mal dela, como desconfia de sua conduta, talvez faa exatamente aquilo que voc teme e espera. J que a condena sem causa, 
ela pode lhe dar esse motivo.
     - Ah, entendo. A culpa ser minha? Eu mesmo porei os chifres em minha testa?
     - Sim, Thayer, se continuar esperando por eles, eles viro. - Roger bebeu o que restava de sua cerveja e se levantou da mesa no salo.
     Thayer tambm esvaziou sua caneca. O que mais o aborrecia era poder detectar a verdade nas palavras de Roger. Quando se esperava pelo pior, o pior acontecia. 
Sabia disso. Infelizmente, tambm sabia que muitas mulheres como Gytha acabavam fazendo exatamente o que se esperava delas. Vira acontecer. Estava condenado. Cortejava 
o desastre, fosse por antecipar continuamente uma vergonhosa traio, fosse por ter uma esposa bela e atraente como Gytha.
     Desanimado, ele se recolheu aos seus aposentos. Podia levar a esposa  corte como ele. Talvez estivesse abrindo espao para mais problemas, mas precisava pensar 
na segurana dela.
     Quando entrou no quarto, ele encontrou Gytha e Bek rindo. Vendo a esposa feliz, formando um elo com seu filho, podia quase acreditar que o idlio dos ltimos 
meses poderia perdurar. Queria acreditar nisso, mas parte dele se agarrava ao medo da traio, do deboche e da humilhao que havia conhecido no passado.
     - O mensageiro trouxe ms notcias?
     - Inconvenientes, mas no exatamente ruins - ele  respondeu. - Fomos chamados  corte.
     - Ns fomos? Voc e eu?
      - Sim, voc e eu. Partiremos em trs dias.
      - Margaret, como foi capaz de fazer isso comigo? Sofrendo os efeitos de um ataque de espirros, Margaret se sentou na cama e viu Gytha andando pelo aposento.
     - Acha que sofro assim por opo? - Ela pegou a caneca de caldo sobre a mesa de cabeceira e bebeu um gole para amenizar a dor na garganta.
     Gytha suspirou e foi se sentar na beirada da cama da prima. A pobre Margaret parecia estar muito mal, especialmente por causa do nariz vermelho e dos olhos 
inchados e lacrimejantes. As trs mulheres que dividiam o quarto com ela haviam fugido, temerosas de contrair a enfermidade. Era egosmo sentir-se contrariada porque 
a prima no poderia acompanh-la  corte.
     - Estou me comportando como uma tola insensvel.
     - No, Gytha, eu entendo. E gostaria muito de ir, embora no entenda sua aflio com a viagem.
     - Aquela mulher vai estar l!
     - Lady Elizabeth? A me de Bek?
     - Sim, ela.
     - Tem certeza?
     - Pelo pouco que Thayer me contou sobre ela... sim. O fato de lady Elizabeth freqentar a corte foi a nica razo pela qual ele me contou o pouco que revelou 
sobre ela.
     - Mas Thayer tambm disse que no tem nada a ver com essa mulher agora.
     - Sim, mas no disse que deixou de am-la. Ele a evita, e essa  a resposta para sua questo. Para mim, isso indica que a tal mulher ainda pode ter poder sobre 
meu marido, ou ele no sentiria necessidade de se manter longe dela.
     - Bem... se ele ainda se interessa pela megera, merece ser deixado nas garras do sofrimento. Mas espero que seus temores sejam infundados.
     - Eu tambm. - Gytha se levantou e surpreendeu ao encontrar Roger na porta do quarto. - Sabe onde est meu marido?
     - Com o responsvel pelas armaduras. Por isso vim visitar Margaret antes de ir falar com ele sobre o que Merlion e eu descobrimos. Ela est melhor?
     - Est pssima, mas vai sobreviver. - Balanando a cabea, ela saiu e deixou Roger na companhia da pobre Margaret. Precisava encontrar o marido.
     Ele saa do galpo das armaduras e sorriu satisfeito ao v-la. Porm, mesmo diante do sorriso radiante, Gytha ainda sentia medo. A visita  corte deveria ser 
motivo de excitao e alegria, mas temia que ela custasse sua felicidade e seu casamento.
     Talvez devesse confessar o amor que sentia por Thayer. , Assim, ele teria mais um motivo para continuar evitando lady Elizabeth e permanecer a seu lado. Porm, 
se ele no correspondesse ao sentimento, a relao seria composta apenas de culpa e obrigao, e isso era algo que no desejava. Era uma mulher orgulhosa. Se ele 
no soubesse o quanto era importante em sua vida, tambm no poderia saber Como a magoaria se a deixasse para seguir Elizabeth.
     - Est tudo pronto para a viagem - ele anunciou, passando um brao sobre seus ombros. - Partiremos amanh com a luz do dia.
      Caminhavam juntos de volta ao castelo fortificado.
      - Quanto tempo de viagem at a corte do rei?
      - Alguns poucos dias. No mais do que isso. No ser uma viagem to rdua quanto as outras que fizemos.
     - Quanto tempo passaremos l?
     Gytha parou no hall para instruir uma criada. Queriam vinho, po e queijo no salo.
     - Receio que tenhamos pelo menos quarenta dias de obrigaes -Thayer revelou enquanto se sentava  mesa.
     - Tanto assim? Estamos em guerra, ento!
     - Bem, no houve uma declarao oficial. Na verdade, o rei busca rebeldes e ladres, pois est farto dos constantes ataques e das ameaas veladas. Para caar 
esses bandidos  preciso ter tempo e inteligncia, porque eles vivem escondidos em seus covis sombrios.
     Ela assentiu, depois se virou para servir o vinho trazido pela criada. J se preparava para retomar a conversa sobre a corte, quando Roger e Merlion entraram 
no salo. Ela os serviu e esperou impaciente pelo relato sobre a busca pelos mercenrios de Robert.
     - Encontramos os outros trs - Roger anunciou.
     - E? - Thayer incentivou-o.
     - Eles nos enfrentaram, mas conseguimos obter mais informaes sobre os planos de Pickney antes de mandarmos os miserveis para o inferno.
     - Ele o quer morto - Merlion revelou sem rodeios.
     - Eu j imaginava - Thayer respondeu.
     - Acreditamos que Pickney est envolvido na morte de William. E, pelo que ouvimos dos mercenrios, ele planeja sua morte h mais tempo do que podamos imaginar.
     - Tambm j havia considerado essa possibilidade. Lembro-me agora de alguns incidentes que tinham a marca de um atentado. No foram simples acidentes ou conseqncias 
de uma luta justa.
     - Sim, tambm me lembro de alguns - Roger concordou.
     - Ento... - Gytha mal conseguia falar. - Charles Pickney planeja que Robert seja o senhor de Saitun Manor?
     Ele certamente planejou essa ao desesperada, depois de Robert ter estado to prximo de obter a herana e perd-la.
     - No podemos ter certeza - respondeu Thayer. - E nem tem importncia, mas agora sabemos que ele planeja me matar. Ponderar sobre crimes do passado  perda 
de tempo.
     - Suponho que sim. No entanto, se ele matou William...
     - Pagar por isso - Thayer anunciou com firmeza. - Descobriram alguma coisa sobre as intenes que esse miservel tem com Gytha? - Havia pensado em tir-la 
do salo, mas decidira que seria melhor ela ter conhecimento do que a esperava, por pior que fosse a ameaa.
     - Oh, sim, isso ficou muito claro - Roger respondeu. - Pickney quer que Gytha se case com Robert, aquele idiota fraco e dominado. Assim, ele asseguraria o poder 
sobre Saitun Manor e ainda teria tambm a propriedade onde agora estamos.
     - E ele espera que a famlia de Gytha aceite tudo sem se manifestar, sem reagir?
     - Pickney ter Gytha como refm. Ela ser sua proteo.
     - Sim, seria. Os Raouille se sentiriam de mos atadas, pois temeriam prejudic-la com uma ao precipitada. Estou certo? - Ele olhou para a esposa.
     - Inteiramente - ela confirmou. - Levaria algum tempo at que o desespero os impelisse a agir.
     - Exatamente. Chegaria um momento em que eles pensariam no ter nada a perder. - Thayer balanou a cabea. - No sei como esse sujeito espera escapar com vida. 
No incio, quando agia de forma sutil, talvez... Mas agora ele me ataca abertamente. E teria de levar Gytha pela fora bruta. Haveria um alerta.
     - Creio que ele se tornou refm dos prprios planos - opinou Roger. - Agora vai ter de ir at o fim, porque no h mais como parar. Pickney j se revelou como 
seu inimigo. E voc vai estar sempre alerta, vigilante.
     - Sim, eu sei, mas... Tem certeza de que ele no pretende matar Gytha tambm?
     - Pelo menos, no por ora, mas isso no significa que ela no sofrer prejuzo. Pickney precisa dela viva no incio, mas no vai se importar se tiver de mat-la.
     - Sim, entendo. Bem... preciso servir ao rei agora. Voc tem razo, Roger, ao sugerir que Pickney vai recuar enquanto estivermos na corte. Usaremos esse tempo 
para surpreend-lo com algum plano.
     - Como? - Gytha quis saber.
     - Ainda no sei, mas vou pensar em alguma coisa. Estaremos seguros na corte, minha querida, e isso  o que importa.
     Gytha deixou os homens e se retirou do salo, pensando nas palavras do marido. No conseguia pensar na corte como um paraso de segurana. Era verdade que nunca 
havia estado l, mas ouvira rumores e conversas em quantidade suficiente para suspeitar de que a corte poderia oferecer muitos perigos. Intriga e traio eram comuns 
nos corredores do palcio. E certamente, esse seria o lugar perfeito para Charles Pickney pr em prtica seus planos e esquemas.
     Thayer sabia muito mais que ela sobre o mundo de maneira geral. Se acreditava que Pickney os deixaria em paz enquanto estivessem na corte, teria de confiar 
em seu julgamento.
     Margaret tambm confiava em Thayer e em seus comandados, a julgar por sua reao depois de ouvir o relato da prima.
     - Pickney sofre da doena da ganncia. No  uma enfermidade rara, pelo que ouo dizer. Porm,  difcil compreender como o homem espera realizar todos esses 
males e escapar ileso. Ele deve ser um pouco desequilibrado, tambm - Margaret concluiu tossindo.
     - Eu ficaria muito mais tranqila se ele estivesse morto... Que Deus me perdoe por isso.
     - Ele a perdoar. O homem quer matar seu marido e quer atentar tambm contra sua vida. E um alvio saber que Thayer  um lutador habilidoso.
     - Sim, ele  muito forte, corajoso e capaz, mas se o inimigo continuar atacando em grande nmero, acabar por super-lo. Temo pela vida de Thayer.
     - Voc o ama.
     - Sim. Amo muito.
     - Ento, acabou a confuso. E acho at que sei quando ela acabou. Quando seu marido foi ferido.
     - Sim, foi quando percebi. Agi como se ele houvesse perdido uma perna. - Ela riu. - Bem, pelo menos no desmaiei quando cuidava do ferimento, nem afoguei meu 
marido em lgrimas.
     - E o que ele disse quando confessou seus sentimentos? - Eu no contei. - No? Por qu?
     - Preferi manter segredo por um tempo. Sei que ele no corresponde ao sentimento, e sei tambm que essa falta de retribuio vai me ferir profundamente. Prefiro 
evitar esse sofrimento. E voc no pode me criticar por isso.
     - No, mas acho que deve tomar cuidado. No deixe esse medo criar razes profundas, ou vai acabar guardando silncio quando chegar a hora de falar.
     - Eu sei. Alm do mais, tenho de considerar Elizabeth.
     - O que lady Elizabeth tem a ver com sua deciso de revelar seus sentimentos a Thayer?
     - Muito. Pensei em falar com ele antes de irmos para a corte, antes de ele reencontrar essa mulher.
     - Seria uma boa deciso. Daria a ele fora, caso seja necessria, para evitar essa mulher.
     - Sim, isso o faria ficar do meu lado, mesmo que ela tente atra-lo. Mas ser que ele tambm sente o mesmo por mim, ou algo parecido, pelo menos? E se, mesmo 
sabendo de meus sentimentos, ele for atrs dela? E se revelar meu amor a ela? Eu no suportaria essa humilhao.
     - Ah, orgulho.
     - Sim, orgulho. No  a mais nobre das emoes, mas todos ns a temos em alguma medida. O meu diz que devo esperar. Falar com Thayer no me trar nada de positivo. 
No falar me poupar da dor. A dor de saber o quanto ele poder me magoar se decidir voltar para seu antigo amor. No revelar o que sinto me permitir ao menos preservar 
um mnimo de dignidade diante da derrota. Posso fingir que no me importo, e ele jamais saber da minha agonia.
     - Gytha, no acredito que Thayer voltar para lady Elizabeth, uma mulher que o tratou to mal. No quando tem voc. Ele no  idiota.
     - Os homens sempre podem ser tolos quando se relacionam com uma mulher, e ns duas sabemos disso. Ela no  s um antigo amor, mas me do filho dele, tambm. 
Esse  um elo inegvel e forte. Sei que deseja aplacar meus medos, mas considero sensato me apegar a alguns deles. Assim estarei alerta para problemas que podero 
surgir.
     - Sim, talvez voc esteja certa. Bek falou alguma coisa sobre a me? Ele deve saber que lady Elizabeth estar na corte.
     - Oh, ele sabe, mas fala pouco sobre o assunto, e eu no quero pression-lo. Bek no parece estar incomodado com isso. E ele tambm no parece estar feliz, 
agitado ou ansioso. Talvez tenha aprendido a esconder as emoes. Se lady Elizabeth o importunar ou magoar de alguma forma, eu terei de interferir. Se no, prefiro 
ficar fora disso.
     - Sensata, como sempre - Margaret aprovou.
     - Mais seis homens mortos. - Robert olhou com evidente nervosismo para o tio que, carrancudo, dividia a mesa com ele. - Essa sua campanha est nos custando 
caro demais.
     - Ningum pediu sua opinio - Charles respondeu, olhando em volta pelo chal que usavam como esconderijo. - Quer passar o resto da vida assim?
     - Podemos consertar as coisas com meu primo. Ento, retornaramos a Saitun Manor.
     - Voc no raciocina? H meses tentamos matar o homem! Acha mesmo que ele vai simplesmente esquecer tudo isso e nos receber como parentes e amigos? Ele vai 
nos arrancar a cabea do pescoo, isso sim.
     - Bem, no podemos alcan-lo na corte, e agora se tornou difcil encontrar mais homens para a misso. Temos cada vez mais mortos e menos dinheiro. No devamos 
ter comeado com isso. No devamos... - Robert se calou ao ser atingido por uma bofetada do tio.
     - Pare de choramingar! Ainda no perdemos. Robert abriu a boca para argumentar, mas desistiu. A cada fracasso, o tio tornava-se mais violento, e era aterrorizante 
pensar que havia atado seu destino ao de um louco. Amaldioava a fraqueza que o mantinha ligado ao irmo da me, obrigando-o a participar de planos que no aprovava. 
Sempre havia sentido cime de William e Thayer, mas nunca desejara nenhum mal a eles. Tambm no queria o mal de Gytha, mas comeava a desconfiar de que o tio tinha 
planos nefastos tambm para ela. Odiava pensar que nem essa certeza dava a ele a fora necessria para combat-lo.
     - Thayer e sua meretriz... - Piekney dizia.
     - Gytha no  uma meretriz.
     O protesto rendeu a ele outra bofetada, mas Robert manteve a declarao.
     - Eles estaro ocupados na corte. Isso pode nos beneficiar. Teremos tempo para tomar Saitun Manor.
     - E como manteremos a propriedade? Precisamos de mais homens do que temos agora.
     - Teremos mais homens e teremos Gytha. Ela ser nosso escudo em caso de ataque.
     - Se pudermos captur-la. Ela  mantida em total segurana.
     - J pus esse plano em ao. No ser fcil, mas, se recuarmos um pouco, talvez relaxem a guarda. Temos tempo. Se tomarmos Saitun Manor, podemos at evitar 
que o Diabo Vermelho saiba da perda por algum tempo. Podemos usar a mulher dele para tomar o lugar.
     - Ele vir atrs dela.
     -  claro que sim. E eu o quero tambm. Vamos atra-lo usando a mulher como isca e depois o mataremos.
     - E eu me casarei com Gytha?
     Robert observava atento as reaes do tio.
     - O qu? Ah, sim,  claro. O casamento  necessrio para assegurar o domnio sobre as terras. Ter sua bela esposa.
     Por um tempo, Robert ouviu as palavras que no foram ditas. No conseguia entender o que o tio lucraria com a morte de Gytha, mas sentia que era essa sua inteno.
     O plano de Pickney era como uma rede cheia de furos. Charles realmente pensava que os homens de Thayer se retirariam quando ele fosse morto? Acreditava que 
a famlia de Gytha no reagiria? Estariam cercados de inimigos poderosos! E seu tio no parecia pensar nisso.
     Robert encheu o copo de vinho e bebeu com desespero. Embriagar-se no resolveria seus problemas, mas libertaria a mente das dvidas, dos medos e da confuso. 
Por algum tempo, encontraria paz e no teria de admitir que  era um fraco.
         Sentada na cama, Gytha abraou os joelhos e ficou  observando Thayer se preparar para dormir. Na manh seguinte partiriam para a corte. Ela tentava se convencer 
de que a jornada no representaria o fim de seu casamento, mas o medo persistia. Tentando deixar os temores de lado, concentrou os pensamentos nos problemas que 
Robert e o tio representavam.
     - Fez algum plano com relao a Robert e Pickney? - perguntou.
     - Nada concreto. Conversamos muito, mas as possibilidades so inmeras. Temos de escolher com cuidado.
     - Entendo. Vai falar com o rei sobre esse assunto?
     - Tambm discutimos essa possibilidade, mas no decidimos nada.
     - Por que no revelaria esse problema ao rei? Pickney  um criminoso. O rei no tem o direito de saber? Ao menos ter a sano real para qualquer atitude que 
se veja obrigado a tomar.
     - Sim, isso me pouparia de ter de dar explicaes posteriores. Mas estamos tratando de uma questo familiar, uma batalha entre parentes. Reluto em revelar toda 
essa situao. Creio que seria melhor se pudesse manter essas dificuldades no mbito privado, familiar. Entende o que digo?
     - Oh, sim. Mas os parentes no so meus, por isso posso ver benefcios e dificuldades que voc no enxerga.
     - O mesmo ocorre com Roger e Merlion - ele respondeu, apagando todas as velas, exceto a que estava ao lado da cama. - Eles acham que devo contar tudo ao rei. 
- Thayer se deitou e tomou-a nos braos.
     - No pode estar preocupado com o que vai acontecer com Pickney. E em Robert que est pensando?
     -- Sim. Custo a crer que ele esteja por trs disso tudo. Robert  fraco, fcil de dominar, mas nunca foi cruel. Ele no  um assassino. Nunca teve estmago 
para lutar.
     - Mas ele e Pickney podem mandar que outros matem por eles.
     -  verdade. Posso estar confundindo a criana que ele foi com o homem que se tornou. Um homem moldado e comandado por Charles Pickney.
     - Pobre Robert.
     - Pobre Robert? - Ele riu. - Eu sou o alvo da espada!
     - Eu sei, mas no consigo deixar de sentir pena dele. No o conheci realmente, mas tenho a sensao de que ele  refm de algo que no quer ou no pode parar. 
 errado, eu sei, mas nunca senti nenhuma maldade nele. Por mais que me esforce, no consigo imagin-lo por trs disso.
     -  o que sinto. Mas parte de mim insiste em dizer que sou apenas um fraco, um tolo emotivo que fica cego para a razo. O resultado  a dvida, e esse no  
um sentimento favorvel para um homem que se v na iminncia de uma batalha.
     - Em resumo, no quer ter nas mos o sangue de Robert.
     - No.
     - E no existe um meio de evitar isso? No pode derrotar Pickney e poupar Robert?
     - Talvez. No sei. E se ainda assim eu estiver deixando uma faca apontada para as minhas costas? Sei que Robert nunca me enfrentaria frente a frente, mas no 
posso ter
     Certeza de que ele no se tornou capaz de me atacar pelas costas. Essa  uma dvida com a qual no poderei conviver. - E no revelaria que a espada poderia 
estar apontada para ela tambm.
     - No seria maravilhoso se Robert tivesse foras para se libertar do tio, se passasse para o seu lado?
     - Sim, seria esplndido. Nesse caso eu poderia confiar nele.
     Ainda podia lembrar o primo na infncia, o rosto plido e amedrontado. Apesar de todo o esforo empregado com esse propsito, ele e William nunca conseguiram 
remover o medo dos olhos de Robert. Agora percebia que Charles Pickney j comeara a domin-lo. Poucas correntes eram to fortes quanto aquelas forjadas pelo medo. 
Thayer duvidava de que Robert houvesse conhecido outro sentimento.
     Ainda sentia pena daquela criana, mas tinha de endurecer e resistir ao apelo das lembranas. A piedade poderia enfraquec-lo em um momento de grande perigo. 
Seria justo. No negaria ao primo nenhuma chance de reparar seus erros. O que no podia era permitir que a emoo interferisse no que tinha de ser feito.
     Gytha se moveu, interrompendo seus pensamentos.
     - Acabei de pensar que... No contei nada disso a sua famlia - ele disse.
     - E acha que  necessrio? - Gytha indagou.
     - No momento no preciso da fora extra que eles podem representar.
     - Nesse caso,  melhor no dizer nada. S causaria apreenso. Vamos guardar segredo por mais um tempo. Enquanto for possvel. E tente tirar da cabea todas 
essas preocupaes, ao menos por algumas horas.
     - Seria timo no pensar em problemas por algum tempo. - Ele sorriu, abraando-a com mais fora.
     - Como sua esposa,  meu dever assegurar que voc esteja sempre satisfeito. - Gytha o beijou no pescoo e sorriu sedutora.
     -Tem razo, essa  sua obrigao - Thayer concordou antes de beij-la.
     - Farei voc esquecer Robert.
     - Que Robert? - ele murmurou rindo.
     Robert olhou para o tio e caiu na cama rstica. Bebera cerveja at no poder mais, mas no conseguiu encontrar a paz que tanto queria ter. Imagens e pensamentos 
ainda o atormentavam, e giravam em sua mente num carrossel embriagado, confuso. Sentia-se tonto, enjoado. Deitado de costas e mantendo os olhos fechados, esperou 
que o tio e seus homens logo subissem ao forro do castelo, pois assim ficaria sozinho e em silncio.
     - Por que mantm por perto o idiota bbado?
     - Porque, Thomas, ele  o legtimo herdeiro de tudo que quero - Charles respondeu. - Essa sempre foi sua nica utilidade para mim. Acha que eu arrastaria esse 
peso morto se tivesse escolha?
     - No pode conseguir o que quer sem ele? - Bertrand indagou cocando a barriga.
     - No. Se existe um meio, ainda no o encontrei. Depois que os pais dele morreram, obtive acesso aos bens por intermdio de meu sobrinho. Quando ele se casar 
com a bela Gytha e tiver um herdeiro, continuarei controlando tudo por meio dessa criana. Ento ele no ter mais nenhuma serventia.
     Thomas balanou a cabea.
     - E difcil acreditar que esse sujeito fraco tem seu Sangue.
     - Minha irm era fraca. S tive de cuidar para que o menino nunca desenvolvesse o esprito para me desafiar.  preciso comear quando eles ainda so jovens, 
submet-los a sua vontade desde que ainda so bebs. Por isso ele ainda se curva ao meu comando quando, na verdade, ele tem direito a tudo que eu domino. Criarei 
o herdeiro dele da mesma forma.
     - E ter o controle sobre tudo enquanto estiver vivo.
     - Exatamente. Bem, agora devemos descansar. Amanh teremos muitas decises a tomar.
     Quando todos os sons cessaram, Robert abriu os olhos e ficou fitando a escurido, ouvindo o eco de tudo que acabara de escutar. Por um momento, ele experimentou 
uma fora inesperada e envolvente, um sentimento que resultava da fria. Desejava matar Charles Pickney. Era uma pena estar embriagado demais para pr em prtica 
essa vontade e seguir o impulso.
     Com o retorno da fraqueza veio tambm a dvida. Estava bbado. Talvez houvesse escutado mal. De repente ele pensou no rosto doce de Gytha. A bela e adorvel 
Gytha. Ela era a nica coisa que jamais havia desejado realmente. Por ela seguira os planos do tio. Mesmo errados e at criminosos, eles o levariam at Gytha. E 
ela o tornaria imune aos pesadelos. Daria a ele fora, faria dele um homem. S quando a tivesse a seu lado, ele pensaria novamente nas palavras que havia pouco escutara 
da boca de seu tio. Sim. Gytha o ajudaria a se libertar de Charles Pickney.
   CAPTULO V
     Gytha suspirou e deu um ltimo retoque no arranjo de cabea. Estavam na corte havia uma semana. Uma semana que, para ela, tinha sido longa demais. A Corte era 
pouco mais que um ninho de vboras imorais. O  nico passatempo dos cortesos parecia ser roubar maridos e esposas, amantes e prometidos. S uma coisa os distraa 
desse esporte, e era a chance de enfraquecer a aposio de outra pessoa na corte, fortalecendo assim a  prpria posio. Era impossvel desembaraar a teia de  mentiras 
e intrigas.
     E como se no bastasse, havia Elizabeth. Pensar nela despertava em Gytha um instinto assassino.
     A primeira reao de Thayer  mulher fora de frieza, mas a alegria que ela sentira com isso havia durado pouco. Temia agora que ele se reaproximasse da antiga 
amante. cortesia o impedia de repelir abertamente uma dama  to elevada posio, mas... Seria s isso? Gytha temia  beleza e as tramas daquela mulher. Tinha medo 
de que Thayer voltasse a am-la.
     - Est linda, esposa - ele disse, colocando-se atrs dela e sorrindo para o espelho. - No precisa ficar to preocupada.
     - Tem certeza de que estou apresentvel?
     - Muito mais do que isso. Pronta?
     - Sim. - Ela sorriu e se virou em seus braos. Thayer beijou-a nos lbios e a segurou pela mo.
     - No precisa se inquietar tanto.
     - No estou habituada a desfrutar de to elevada companhia -: ela explicou enquanto se dirigiam ao salo. - Nunca tive de exibir maneiras requintadas por tanto 
tempo antes.
     - No vai ter de suportar a presso por muito mais tempo. Logo tomarei conhecimento dos planos feitos para mim. Levarei voc de volta a Riverfall, se assim 
preferir, cumprirei as tarefas que o rei designar, e depois irei encontr-la em nossa casa. Tambm me irrito com a vida na corte. Tudo aqui  subterfgio, traio 
e cio.
     - Hum... Pensei que quisesse me deixar aqui enquanto cumpre as ordens reais. Voc disse que seria mais seguro.
     - E . Mas no suporto v-la infeliz e tensa. Sei que no encontra aqui nada de seu interesse.
     -E verdade. s vezes... Muitas vezes, para ser sincera, surpreendo-me olhando em volta e pensando em tudo que poderia estar fazendo em Riverfall.
     -Meus pensamentos tambm divagam. Prefiro cuidar da terra e da propriedade. H mais trabalho nessa posio do que imaginava, e ainda temos de considerar o trabalho 
que os galeses nos do em Riverfall. L tenho toda a possibilidade de batalha que posso desejar.
     -  bom saber disso. - Ela riu satisfeita.
     Neste momento, entraram no grande salo, e s isso o impediu de beij-la na boca, como gostaria de fazer. Sentia esse impulso sempre que a via sorrir. Os medos 
logo o invadiram. Os homens olhavam para Gytha com cobia e desejo, expressando abertamente admirao por sua beleza. Todos eram muito mais atraentes do que ele. 
Sua maior vontade era tir-la dali, afast-la da tentao.
     Gytha olhou em volta e suspirou, registrando aqueles olhares novamente. Nada do que fazia podia evit-los. Sentia-se desconfortvel e zangada. No se abalava 
com os elogios e as tentativas de aproximao dos jovens cortesos, e ainda assim eles a atormentavam sem trgua.
     No sabia como lidar com o assdio, ainda pensava nisso, quando notou Elizabeth caminhando na direo deles. Sentiu a tenso imediata em Thayer.
     No podia se deixar perturbar. Tinha de pensar que era em sua cama que ele passava todas as noites. Era seu marido. Ele a amparava, aquecia e saciava, e um 
homem Cujo corao estava em outras partes no poderia demonstrar tanta ternura. Mas a insegurana persistia.
     Lady Elizabeth anunciou que estava ali para escoltar Thayer at a presena do rei.
     Como se ele no pudesse encontrar o soberano sozinho, Gytha pensou irritada.
     Quieta, ela procurou um recanto afastado para esperar pela volta do marido. Para seu desnimo, Elizabeth retornou a fim de fazer-lhe companhia. Sabia que o 
to temido momento do confronto havia chegado e, resignada, rezou para que Thayer voltasse o quanto antes para pr fim  desagradvel situao.
     - Sente-se muito segura, no , lady Gytha?
     - E no devia ser assim, milady?
     - Ele me amou no passado.
     - No passado.
     - E vai me amar novamente. No v como ele muda em minha presena? Poderia t-lo arrancado de suas garras agora mesmo, e sem nenhuma dificuldade.
     - Com que finalidade? - Gytha indagou, tentando no demonstrar que esse era seu maior temor. - Sei que procura um marido, mas Thayer j  casado.
     - Sim, realmente busco um marido, mas, enquanto isso, preciso viver. Thayer no  mais um cavaleiro destitudo. Como amante, tenho certeza de que ele seria 
muito generoso.
     - No acredito que ter a oportunidade de confirmar sua suspeita.
     - No? Ele  um homem grande e saudvel. E cheio de vigor. Ah, lembro-me bem de como ele pode se deixar consumir pela luxria. Uma s mulher no pode saciar 
um homem com o apetite de seu marido.
     - Ele no tem se queixado.
     - No? Talvez por no ter escolha. Veremos...
     - Thayer  um homem que honra seus votos. - Gytha gostaria de sentir a mesma convico que demonstrava.
     - Votos de casamento? - Elizabeth riu com desdm. - Menina tola! Nenhum homem os honra. Est apenas revelando sua ingenuidade. Vou lhe mostrar, criana inocente, 
como um homem pode esquecer facilmente as palavras pronunciadas diante de um sacerdote.
     Gytha viu Elizabeth se afastar. Havia em seus passos um convite aberto ao pecado, uma segurana que alimentava sua fria. Ousada, a mulher se dirigiu ao local 
onde Thayer conferenciava com o rei e comeou a flertar com um jovem corteso que Gytha reconheceu, um rapaz de rara beleza chamado Dennis. Mas os olhos verdes de 
Elizabeth buscavam... os de seu marido! Gytha tambm o observava, apesar de saber que devia sair dali, ignorar o jogo proposto por aquela vbora.
     Odiava a dvida e a insegurana, mas nada podia fazer para aplac-la. No conseguia apagar da lembrana a expresso de Thayer quando ele revelara ter amado 
Elizabeth, nem conseguia ignorar o fato de ele nunca ter declarado o fim desse amor. Temia que ele sucumbisse novamente aos encantos da mulher vil e vulgar. Sabia 
que, quando o corao estava envolvido, at o mais sbio dos homens podia ser um tolo.
     Quando Thayer acompanhou Elizabeth para fora do salo, Gytha sentiu o ar congelar em seus pulmes. Ele no s saa sem sequer olhar em sua direo, como mantinha 
os olhos fixos no belo rosto da cortes. Elizabeth apoiava a mo no brao dele. Eram como dois amantes escapando para um momento de privacidade. Gytha se negava 
a crer que seu marido a submeteria a tamanha humilhao. Era como se todos os olhos estivessem voltados para ela.
      - Ah, milady, venha comigo. Permita-me lev-la ao jardim - convidou uma suave voz masculina. Aturdida, Gytha olhou para Dennis que segurava seu brao.
     - Jardim? Disse que quer me levar ao jardim?
     - Sim. - Ele j a conduzia  sada. - Parece to perturbada! No  sensato revelar fraqueza em um ninho de vboras. Lamento, milady, mas essas coisas acontecem. 
 preciso aprender a manter a dignidade.
     Dignidade era a ltima coisa em que ela pensava. A mente estava tomada por uma coleo de imagens de Thayer e Elizabeth em abraos trridos, e o pouco espao 
restante j era dominado por imagens violentas dela atacando os dois, rasgando-os em tiras.
     - Que coisas? - perguntou por entre os dentes, tentando no extravasar a ira na pessoa errada.
     - Amantes, querida. - Ele parou em um recanto discreto do jardim.
     Apoiada em um tronco de rvore, Gytha sentiu-se repentinamente cansada e enojada.
     - D ao pecado seu verdadeiro nome, senhor.  adultrio.
     - E  comum. O casamento serve ao propsito de legitimar herdeiros. Mais nada. - Dennis apoiou uma das mos no tronco da rvore, ao lado da cabea de Gytha, 
e se aproximou.
     - O casamento  a unio entre um homem e uma mulher, uma unio sancionada por Deus - ela murmurou.
     - Sim, de forma que os filhos sejam legtimos e herdem sem dificuldade. Todos sabem disso. - Ele ps a outra mo no tronco.
     - Ningum entende coisa nenhuma!
     - Minha querida, deixe-me amenizar sua dor. - Segurando-a pelo queixo, ele a beijou.
     Gytha levou um momento para superar o choque, mas, no instante seguinte, reagiu. Depositando no golpe toda a fora de sua fria, ela esbofeteou o rosto do ousado 
cavalheiro. O som da bofetada ecoou pelo jardim silencioso.
     Dennis cambaleou. Sua expresso sugeria que considerava a recusa um insulto. Gytha gritou quando ele a segurou pelos ombros e a empurrou contra a rvore com 
violncia.
     - Maldita seja, mulher! Seu marido est alegremente se fartando em outro corpo, e voc ainda se comporta como uma freira!
     - No cometerei o pecado para punir outro pecado. Deixe-me em paz! Outras o aceitaro com alegria, milorde. Eu no.
     - Farei com que suplique por minhas carcias, minha encantadora freira.
     Quando ele a jogou no cho, Gytha ficou perplexa. Todo o ar escapava de seu corpo pela fora do golpe, e ela tentava encher novamente os pulmes. Porm, quando 
conseguiu gritar, j era tarde demais. Ele a beijava com ardor, e quando removia seus lbios dos dela, tratava de substitu-los com uma das mos, silenciando-a com 
eficincia. Gytha tentava mord-lo, mas ele a atingiu com um tapa no rosto que a deixou zonza, sem ao.
     Dennis tentava despi-la. Aproveitando o momento de distrao do cavalheiro, ela introduziu uma das pernas entre as dele. Seus irmos a haviam instrudo sobre 
a vulnerabilidade de um homem, explicando que tal conhecimento podia sempre ser til em um momento de perigo.  E o momento chegara. Ela ainda se debatia, tentando 
soltar-se das mos fortes de Dennis e atingi-lo, quando percebeu a presena de mais algum no recanto recluso. Thayer, Elizabeth e Roger se aproximavam.
     Thayer ria, divertindo-se com a troca de olhares furiosos entre Roger e Elizabeth. Ele tambm se divertia com a pattica tentativa de seduo da mulher. No 
momento em que ela se dissera indisposta,  beira de um desmaio, ele soube tratar-se de uma mentira, mas a acompanhara ao jardim mesmo assim, curioso para desmascar-la 
em seu jogo.
     Nada sentia por essa mulher. Finalmente havia se libertado de seu pernicioso domnio. Gytha agora o dominava completamente, ocupando os espaos que antes Elizabeth 
poderia ter reclamado. A esposa restaurara sua confiana, e no havia mais nele a fraqueza de que Elizabeth se valia para mant-lo sob controle. Ela era divertida, 
embora um pouco irritante em sua ousadia. S isso.
     A deliciosa euforia proporcionada por essa descoberta durou pouco, destruda com dolorosa violncia pela cena que se descortinava diante de seus olhos. Gytha 
estava deitada na relva sob o corpo de um belo cavalheiro. Suas roupas estavam descompostas.
     Era como viajar no tempo. Estava em outro jardim, sofrendo um novo e definitivo ataque a suas iluses. A nica diferena era que, agora, a dor era muito pior. 
Ele parou esperando pelo som das gargalhadas. Pelos comentrios que o exporiam ao ridculo. Sentindo que Roger pretendia interferir, ele conteve o amigo. Queria 
ver at onde poderia ir sua ingenuidade, sua tolice. Ali a verdade seria revelada. E pretendia encar-la de frente, sem reservas. Dessa vez no seguiria sendo tolo, 
um joguete nas mos de uma mulher.
     Aos poucos, a verdade que ele viu contrariou a primeira impresso. Gytha no estava naquela situao por vontade prpria. Seus movimentos eram desesperados, 
como se lutasse. O que estava vendo no era o que imaginava em princpio.
     Ela o viu. E o fitou com uma splica no olhar. Havia em seu rosto choque, medo e muita dor, porque o marido nada fazia para ajud-la. Thayer sabia que ela considerava 
sua imobilidade a mais amarga traio, mas no conseguia se mover.
     Gytha estava perplexa. Por que Thayer no tomava uma atitude? Ele simplesmente a observava, chegando ao extremo de conter Roger, impedindo-o de socorr-la. 
Seu marido, obrigado pelos votos sagrados a defend-la e proteg-la, deixava-a entregue  prpria sorte.
     A brisa fria em suas coxas a arrancou do estado de estupor. Teria de se defender sozinha, e o tempo no era seu aliado. Mais tarde lidaria com a atitude de 
Thayer e o sofrimento causado por sua indiferena.
     Erguendo a perna num movimento firme e veloz, levou o joelho  regio entre as pernas de Dennis, empregando toda a fora que tinha. Ele gritou, agarrou a parte 
ofendida e caiu de lado, libertando-a. Gytha levantou-se depressa, usando a rvore como apoio para no cair.
     Sem sequer tentar esconder a dor causada por sua traio, ela olhou para Thayer como se pretendesse agredi-lo tambm. Estava arfante. Gostaria de dizer alguma 
coisa, qualquer coisa, mas temia vomitar. Ele deu um passo em sua direo. Ela ergueu a mo para cont-lo. Enquanto corria na direo de alguns arbustos prximos, 
viu Elizabeth ajudar Dennis a se levantar.
     Plido, ele nada dizia, percebendo o olhar atento e ameaador de Roger. O casal trocou algumas palavras furiosas e, aproveitando a distrao de Thayer e Roger, 
desapareceu rapidamente. Gytha deduziu que tudo que havia acontecido nos ltimos minutos fora planejado. Porm, a reao fsica ao choque ocupava seus pensamentos, 
e ela vomitava sem parar.
     Cada de joelhos, fraca e trmula, viu Thayer estender a mo para ajud-la.
     - No toque em mim! - disse, sucumbindo a mais um ataque de nusea violenta.
     Thayer recuou como se recebesse uma bofetada. Roger aproximou-se dela e usou o leno que umedecera na fonte para lavar sua testa, ajudando-a a superar o mal-estar.
     Thayer no sabia o que dizer. No havia uma explicao para sua atitude condenvel.
     Minutos mais tarde, quando conseguiu se levantar, Gytha notou que Bek se juntara aos dois homens. Elizabeth e Dennis haviam desaparecido. Sabia que tudo isso 
significava alguma coisa, mas estava abalada demais, furiosa demais para raciocinar com clareza. Sua ateno estava toda voltada para a principal causa de sua agonia.
     - Gytha, eu...
     - No fale nada! No se atreva a tentar explicar o que no tem explicao! Vai me dizer que no  capaz de distinguir um ato de amor de um estupro? Ou esse 
 um dos costumes dessa corte decadente? Voc  meu marido!
     - Gytha...
     - Meu marido! Devia ter matado aquele miservel! Mas preferiu esperar para se certificar de suas suspeitas, no ?
     - No!
     - Sim! Sempre esperou que eu desse um passo em falso, que cometesse um erro. No percebeu a violncia porque no esperava v-la. Nunca confiou em mim, Thayer. 
Nunca!
     ? Gytha, vamos conversar nos nossos aposentos. Voc precisa se recompor, descansar...
     - No irei a lugar algum com voc!
     - No pode vagar pela corte sozinha.
     - No posso? E por que no? Estou mais protegida sozinha do que em sua companhia. Um assassino poderia me atacar, cortar minha garganta e sair tranqilamente 
antes de voc decidir se tudo  um truque ou um ataque real.
     - Gytha, por favor...
     - Vou me retirar para os nossos aposentos... sozinha! Foi um dia longo e difcil. Primeiro sua ex-amante destila o amargo veneno em meus ouvidos, depois sou 
forada a v-los deixando o salo de braos dados diante dos olhares debochados de toda a corte, e enquanto luto contra o cime sou arrastada para o jardim por um 
corteso que perde a razo quando me ofendo com sua ousadia. E como se tudo isso no bastasse, descubro que meu marido sempre me julgou uma meretriz. E entretenimento 
demais para mim. - Ela sentiu algum segurar sua mo e olhou para o lado. - Bek?
     - Eu vou com voc - o menino declarou. A compaixo nos olhos do menino era um blsamo para suas emoes torturadas. Ele no podia entender tudo que era dito 
ali. Porm, sabia que estava sofrendo, e se aproximava para oferecer conforto e carinho. Temendo v-la partir antes que pudesse dizer alguma coisa, Thayer estendeu 
a mo para conter a esposa. Gytha cuspiu um palavro que o fez arregalar os olhos. Roger e Bek tambm pareciam chocados. Em seguida ela o acertou com um soco no 
estmago. Ainda dobrado ao meio, Thayer a viu se afastar ao lado de Bek, que olhava nervoso por cima de um ombro. Quando finalmente ele se moveu para segui-la, Roger 
o impediu.
     - No, Thayer. Deixe-a em paz. E melhor.
     - Preciso falar com ela.
     - Sobre o qu? O que vai dizer?
     - No sei. Quero pedir desculpas, acho.
     - Ainda penso que  melhor deix-la em paz por um tempo.
     - Para que o dio se cristalize?
     - Ela no sente dio. Mgoa, raiva, decepo... Sim. Por que se comportou daquela maneira? Como conseguiu ficar parado enquanto um verme apalpava sua mulher?
     - Fiz exatamente aquilo que ela me acusou - Thayer reconheceu com tom culpado.
     O que as pessoas pensavam dele no era importante. Precisava pensar num jeito de reparar o mal que causara a Gytha. Porm, no estava muito confiante dessa 
possibilidade. E a expresso de Roger tambm no transmitia muita esperana.
     - Pea desculpas - ele sugeriu. - Pode ser um bom comeo.
     - E o que pretendo fazer. Assim que ela se dispuser a me ouvir.
     - E o que vai dizer?
     - Bem, no posso negar as acusaes. Seria mentira. E mentir s tornaria a situao ainda pior, se  que isso  possvel. Estava mesmo esperando pela traio. 
Voc sabe disso, e at chamou minha ateno algumas vezes. Devia ter ouvido seus conselhos. E estava comeando a confiar nela.
     - Pena ter me ouvido tarde demais. Joguei prolas aos porcos.
     - Insultar-me no vai resolver o problema.
     - No. E tambm no pretendo ajudar com mais nada. Nem poderia, porque no sei o que sugerir.
     - Sou capaz de enfrentar um exrcito com coragem e segurana!
     - Pena Gytha no ser um exrcito. Thayer ignorou o comentrio sarcstico.
     - Mas, quando preciso lidar com uma mulher, eu me transformo num menino tolo e sem experincia. Trato a meretriz como dama e a dama como meretriz. Um marido 
tem o dever de proteger sua esposa. Na opinio de Gytha, deixei de cumprir esse sagrado dever.
     - Ela precisa de tempo para superar a raiva.
     - E acha que vai superar?
     - Gytha no  rancorosa.
     - No, mas nunca a atingi to duramente antes. Como posso saber?
     - Escute, passe a noite nos meus aposentos. Deixe para conversar com ela amanh. Assim ela ter tempo para acalmar-se, e voc poder refletir sobre tudo que 
aconteceu.
      - E, talvez tenha razo. Se me deitar ao lado dela esta  noite, Gytha  bem capaz de cortar meu pescoo.
     Gytha de fato tinha pensamentos violentos enquanto se dirigia ao quarto. Edna a olhava assustada e curiosa enquanto ela lavava o rosto e enxaguava a boca, mas 
no dava nenhuma explicao. Nem poderia, pois, sentada ha cama, ela rompeu em lgrimas amarguradas.
     Edna e Bek no sabiam o que fazer. O menino finalmente pegou a escova, acomodou-se atrs dela e comeou a escovar seus cabelos. O gesto a emocionou. Ela bebeu 
o ch de ervas preparado por Edna, depois deixou a criada vesti-la com a camisola de dormir. Enquanto isso, Bek relatava a Edna os ltimos eventos. Gytha queria 
ajud-lo, mas os soluos e o pranto a impediam de falar. Finalmente se deitou, recebendo sobre a testa a compressa de gua fria que Edna providenciou em silncio, 
e ficou olhando para o teto, tentando sufocar os soluos que sacudiam seu corpo.
     - Pobre Bek - murmurou, olhando para o menino que ainda segurava sua mo. - No sabe o que fazer comigo, no ?
     - Vou ficar aqui. A seu lado - ele declarou.
     - Sua companhia ser um blsamo para mim.
     - Ela planejou tudo.
     - O que disse?
     - Minha me. Ela planejou tudo. Ouvi quando ela conversava com aquele homem. Ela queria que meu pai a visse com aquele homem, porque ento se reaproximaria 
dela.
     - Eles se merecem!
     - Oh, no, milady - Edna protestou. - No pode estar falando srio! Lorde Thayer jamais se envolveria com aquela mulher.
     - No mesmo - confirmou Bek.
     - O problema no  lady Elizabeth - Gytha argumentou. -  ele. Thayer ficou ali parado sem fazer nada. Nunca confiou em mim. Esperava que eu agisse como a meretriz 
que acredita que seja.
     - No! - Bek e Edna gritaram ao mesmo tempo.
     - Sim. Quero ir para casa. Desejo voltar a Riverfall.
     - Papai logo estar aqui, eu sei! E ele vai poder deixar a corte em breve.
     - Quero ir para casa agora, Bek. Edna, comece a arrumar minhas coisas.
     - Vou avisar meu pai - Bek decidiu.
     - No  necessrio. Deixarei uma mensagem para ele. Quer ir comigo, Bek?
     - Sim, mas meu pai...
     - Seu pai no vai ficar zangado com voc. Edna, ainda no comeou a arrumar as coisas?
     Edna e Bek tentaram dissuadi-la da idia de partir, mas Gytha estava irredutvel. Sabia que ambos esperavam que Thayer aparecesse e pusesse um fim  discrdia, 
mas ele no apareceu, para seu alvio. Rumores davam conta de que ele se encontrava nos aposentos de Roger, bebendo muito e sentindo pena de si mesmo. Esperava que 
ele continuasse bbado at poder chegar em Riverfall, onde estaria fora de seu alcance.
     Gytha estava cansada. Dentro dela havia uma dor to grande que nenhum remdio era capaz de ameniz-la. Amava Thayer, mas preferia no am-lo. Havia sido justamente 
esse amor que a deixara inteiramente devastada por sua desconfiana, destruda pela descoberta de sua . verdadeira opinio. O que antes parecia belo e promissor, 
e agora era a maior das maldies.
     O cu comeava a clarear quando ela finalmente chegou em Riverfall. Quatro homens de seu pai a acompanhavam, garantindo sua segurana. Bek e Edna dividiam a 
Carruagem com ela. Talvez estivesse seguindo a trilha da covardia, mas no tinha importncia. Precisava dessa retirada estratgica para garantir sua sanidade mental. 
Necessitava de um refgio onde pudesse lamber suas feridas com alguma privacidade. Tinha de pensar em que atitude tomar com relao ao casamento, se  que ainda 
havia um casamento com que se preocupar.
     O novo dia encontrou Thayer em pssimas condies. Sua cabea doa, a boca estava seca e amarga, e saber que cometera um erro para o qual poderia no haver 
perdo o atormentava. Para aumentar sua infelicidade, tinha de responder a um chamado urgente do rei. Ele atendeu  convocao com grande relutncia, esperando que 
o homem fosse breve. Precisava ver Gytha. Para aumentar sua frustrao, o rei o manteve cativo por horas.
     - Viu Gytha? - ele perguntou a Roger no final da tarde, quando voltou aos aposentos do amigo.
     - No. E tambm no vejo Bek desde ontem  noite.
     - Ele deve estar com Gytha - Thayer resmungou enquanto se lavava. Batidas na porta o irritaram ainda mais. - Quem pode ser?
     Roger foi atender ao chamado e, ao reconhecer a mulher parada no corredor, no escondeu a indignao.
     - O que quer aqui?
     Elizabeth entrou, mesmo sem ser convidada, e caminhou para Thayer.
     - Voc parece estar muito bem - ela disse.
     - Em que posso ajud-la? - ele disparou com frieza, tratando de se vestir rapidamente.
     - Bem, j que sua esposa partiu, achei que gostaria de me acompanhar s festividades desta noite.
     - Gytha partiu?
     - Sim. Soube que ela deixou a corte antes do nascer do dia e... Aonde vai? - ela perguntou assustada.
     Thayer no se deu ao trabalho de responder, porque j corria para fora do quarto seguido de perto por Roger.
     Um momento mais tarde, os dois homens entravam nos aposentos que Thayer havia dividido com Gytha. Ali estavam todas as provas necessrias, todos os sinais que 
confirmavam a partida repentina.
     - Espere at amanh, voc disse! Deixe-a superar a ira!
     - Jamais pensei que ela seria capaz de deix-lo - Roger se defendeu.
     - Bem,  claro que ela partiu. O que  isto? - Ele se sentou sobre a cama para ler o bilhete que encontrara sobre ela.
     Thayer,
     Retornei a Riverfall. Bek est comigo. Fiz-me acompanhar por alguns homens de meu pai. No precisa se apressar para vir me encontrar. Gytha
     Ele entregou a breve mensagem a Roger, que fechou os olhos por um instante depois de ler as palavras secas. Havia uma frieza evidente no bilhete. Thayer sabia 
que Gytha tinha conscincia da inteno de Elizabeth; afinal, a mulher no era sutil. Mesmo assim, ela o deixara  merc dos planos e ardis da megera. A atitude 
era mais eloqente que todas as palavras. Ela o abandonava. Era isso.
     - Preciso ir atrs dela.
     - No pode partir, Thayer. No sem a permisso do rei.
     - Mas isso pode atrasar a viagem em semanas!
     - Gytha sabe que voc no pode simplesmente abandonar a corte. Se essa sua tarefa se arrastar por muito tempo, converse com Edward. Explique a ele que tem assuntos 
pessoais para resolver. Pelo menos ela foi para Riverfall, no para a casa do pai.
     - Sim, mas a mensagem deixa claro que minha presena em Riverfall no  bem-vinda.
     - Ela ainda estava magoada quando escreveu o bilhete, Thayer. Talvez seja melhor assim. O tempo vai amenizar a dor.
     Ele no sabia se concordava com isso, mas Roger estava certo em dizer que nada poderia fazer, pelo menos naquele momento.
     - Sim... vou aproveitar esse tempo para encontrar o patife que causou toda essa horrvel confuso.
     - Ele j deve estar a caminho de Londres.
     - Nesse caso, s est adiando o amargo fim da prpria vida.
     Thayer tinha tempo. Muito tempo. O rei o enviava com alguns de seus homens em ataques contra pequenos covs de rebeldes e ladres, bandidos que eram como praga 
naquela regio. Ele jurou cumprir seus quarenta dias do servio, mas no iria uma hora alm disso.
     Margaret recebeu Gytha em Riverfall sem esconder a surpresa. Gytha contou  prima tudo que havia acontecido e, para sua irritao, teve de enfrentar a resposta 
compreensiva e racional de Margaret. Logo ficou claro que ela esperava convenc-la de seu ponto de vista antes da volta do senhor do lugar.
     Apesar do esforo persistente de Margaret, dias se passaram antes de Gytha comear a pensar realmente no que precisava fazer com relao ao casamento. Estava 
encurralada e, relutante, reconhecia que no queria mudar aquela situao. No queria desistir de Thayer. Na verdade, j esperava ansiosa pela volta ou por alguma 
notcia do marido. Por mais profunda que fosse a mgoa, ainda pertencia a ele de corpo e alma. Seria necessrio um bom tempo at que voltasse a am-lo abertamente, 
com a liberdade de antes. Ele a ensinara a ser cautelosa, a desconfiar.
     Na vspera de seu quadragsimo primeiro dia na corte, Thayer disse ao rei que partiria para Riverfall na manh seguinte. O rei permitiu relutante, e s depois 
de ser lembrado que a dvida do sdito leal j havia sido paga. Ele tambm ouviu Thayer falar sobre os problemas que teria de resolver em casa, questes cuja soluo 
adiava havia um bom tempo. Como a repentina partida de Gytha fora motivo de comentrios na corte, o rei Edward no o pressionou. Thayer partiu antes que o soberano 
pudesse re-considerar sua deciso. Quando se deitou para a ltima noite na corte, ele agradeceu a Deus por isso. As noites que passava sozinho na cama que antes 
dividira com Gytha eram as mais difceis de enfrentar. Para conciliar o sono, acabava bebendo demais. Foram vrias as noites em que Roger tivera de despi-lo e coloc-lo 
na cama.
     Eiizabeth ainda o assediava, tentando reacender a paixo ou reviver o feitio que lanara sobre ele no passado. Estava ansioso para livrar-se dela. Ela era 
tediosa em alguns momentos, mas era sempre tentadora. Viril, solitrio como estava, sentia o corpo clamar por uma mulher que se pusera longe de seu alcance. Mas 
quando se viu bem perto de Eiizabeth, que oferecia seus favores abertamente e com liberdade ultrajante, ele recuou sem se preocupar com a cortesia e as boas maneiras. 
No importava que agora, depois de anos, pudesse finalmente devolver a humilhao sofrida por suas mos. O que importava era que, rejeitando Eiizabeth, havia contrado 
uma inimizade perigosa e de grande peso.
     Enquanto esperava pelo amanhecer, ele tentou fortalecer sua coragem. No era muito habilidoso com as palavras ou com as mulheres. Esperando por ele em Riverfall, 
estava uma mulher que ele havia magoado profundamente. Reparar essa situao exigia as palavras corretas, a abordagem, perfeita e oportuna. E no sabia ao certo 
se seria capaz.
     Os gritos de boas-vindas ecoavam por Riverfall. Houve uma repentina e frentica exploso de atividade. Gytha deduziu que Thayer tinha voltado. Diante da janela 
da torre na qual tantas horas passara em vo, ela o viu chegar. Devagar, desceu ao salo para ir receb-lo. A cada passo ela lutava contra o impulso de recepcion-lo 
com uma atitude fria e digna.
     Sentira falta dele. Mais do que gostaria de admitir. Cada noite havia parecido interminvel. Preenchia os dias com trabalho para que no se arrastassem. E no 
queria que Thayer soubesse disso. Ainda no. O conhecimento daria a ele uma vantagem que, sabia, o bravo cavaleiro reconheceria e utilizaria.
     Ele a magoara. Pretendia faz-lo reparar esse erro. No o deixaria pensar que poderia trat-la assim, depois agir como se nada houvesse mudado. Caso contrrio, 
teria um futuro de dor e sofrimento, de ofensas seguidas por impunidade. E Thayer no ia querer a seu lado uma esposa to fraca, to desprovida de orgulho.
     Na verdade, o tempo havia reduzido a profundidade da dor. Obtivera at uma certa compreenso. Elizabeth o tinha marcado profundamente, e outras mulheres haviam 
colaborado para aprofundar essa cicatriz ao longo dos anos. Estava muito ofendida por ele, mas dispunha-se a entender. Porm, mesmo que o perdoasse por isso, tinha 
de encontrar um meio de modificar seu pensamento.
     Depois de rever o incidente muitas vezes, agora podia enxergar tudo com mais clareza. Podia imaginar a cena vista do ngulo de Thayer. Ela deitada no cho, 
sob o corpo de um homem jovem e belo. O marido ficara chocado. Certamente confundira passado e presente, Elizabeth e humilhao, Gytha e estupro. Porm, aquele no 
havia sido o melhor momento para se deixar dominar pela confuso.
     E tambm precisava considerar o tempo que passaram distantes. Como ele ocupara esse tempo? Teria sucumbido miais uma vez a Elizabeth? Ao partir, teria jogado 
o marido nas garras daquela vbora? Queria acreditar que ele era astuto o bastante para no se deixar vitimar mais uma vez, mas no conseguia esquecer que ele nunca 
havia declarado no mais amar Elizabeth.
     - Thayer est de volta, Gytha.
     Sorrindo para Margaret e Edna, que a esperavam apreensivas ao p da escada, ela respondeu com cinismo:
     - Eu j desconfiava de alguma coisa nesse sentido.
     - O que pretende fazer?
     - Vou receber meu marido como  dever de uma boa esposa.
     - Gytha...
     - Margaret, se vai pregar a sabedoria do perdo, como tem feito todos os dias, quero que saiba que estou disposta a perdoar. Porm, no me colocarei submissa 
aos ps dele. No estamos aqui tratando de uma questo simples, de uma mera discusso. Ele ficou parado enquanto eu quase fui estuprada. Entendo todos os motivos 
que meu marido teve para agir dessa maneira, mas isso s serve para amenizar um pouco o sentimento de traio e a amargura do insulto. Pense bem. Se agir como se 
nada tivesse acontecido, tornarei seu crime menor do que realmente foi. E tambm, se ele no fizer nenhuma tentativa para reparar o erro, isso vai me devorar por 
dentro. No, Margaret. Espero que Thayer pea desculpas, no mnimo, ou nossa unio estar condenada. - Ela terminou de descer a escada. - Tambm espero ouvir uma 
explicao, embora me disponha a compreender se ele no me der nenhuma. Talvez nem ele mesmo entenda o que fez.
     Gytha parou antes de alcanar a porta e respirou fundo.
     - No deixarei de cumprir meus deveres de esposa. Jamais causaria essa vergonha a minha famlia e a mim mesma. Mas se Thayer espera mais que dever desse casamento, 
vai ter de reparar as conseqncias daquele horrvel incidente. E eu estava pensando...
     - Em qu? - Margaret indagou preocupada.
     - Bem, talvez a melhor cura para essa ferida do meu casamento seja uma boa sangria.
     - Como assim?
     No havia mais tempo para responder, pois Thayer e Roger j abriam a porta. Gytha sentiu o corao saltar dentro do peito, mas, contida, adiantou-se para cumprimentar 
o marido. A situao era mais difcil do que havia antecipado. J sentia o sangue ferver nas veias, e ele ainda nem a tocara. Se continuasse assim, no poderia agir 
conforme tinha planejado. Teria de controlar o desejo por Thayer, ou ele o sentiria, como sempre, e usaria essa poderosa vantagem.
     Aproximando-se, ela ofereceu o rosto para um beijo formal.
     - Saudaes, marido. Saudaes, sir Roger. Sua chegada  uma surpresa para ns, mas estou certa de que logo tudo estar a contento em seus aposentos. Assim 
que se refrescarem e mudarem de roupa, haver uma refeio quente  mesa.
     - Obrigado, milady - Roger respondeu enquanto Thayer continuou parado e sem ao.
     - Ah, Bek - ela chamou ao ver o garoto entrar no salo -, pode ter a gentileza de ajudar seu pai e sir Roger? Os criados j prepararam os banhos para eles. 
Vou ver como est o preparo da refeio. - Ela se retirou, antes de ceder  tentao e se atirar nos braos do marido.
     - Ol, Bek - Thayer finalmente falou, j seguindo o filho escada acima.
     - Ol, papai. Est zangado por eu ter partido?
     - No. H sempre muitos pajens no entourage real. Usei alguns deles.
     -  bom saber disso, porque ela precisava de mim. Thayer no sabia o que dizer. Por isso no disse nada.
     Depois de se ver livre da armadura, dispensou as criadas e o filho e se aproximou de uma das banheiras fumegantes preparadas nos aposentos de Roger.
     - H uma intensa frieza no ar - ele resmungou enquanto entrava na banheira.
     - Sim, eu senti - Roger respondeu enquanto se acomodava na gua quente.
     - E eu fiquei l parado como um idiota. No fui capaz de pronunciar uma nica palavra.
     - Ela ainda est aqui, Thayer. Poderia ter ido para a casa da famlia.
     - Sim, eu sei, mas  difcil saber o que isso significa. To rgida, to polida... Ela nunca foi assim.
     - Pelo menos ainda cuida de sua casa.
     - E isso significa alguma coisa? Roger deu de ombros.
     - Muitas esposas expressam a insatisfao com banhos frios e refeies sofrveis.
     - Ainda no comemos - Thayer disse, brincando.
     - No, mas no a considero capaz de usar esse tipo de truque. Francamente, meu amigo, creio que seus problemas o esperam no quarto. Mais precisamente, no leito 
nupcial.
     - Era o que eu temia. Ela foi cordata e polida quando nos recebeu, est cumprindo os deveres de esposa com perfeio, ao menos no salo, mas duvido que tenha 
a inteno de continuar cumprindo esses deveres no quarto. E isso  algo que no vou suportar.
     - Ento fale com ela, homem! Seja sincero!
     - Mesmo correndo o risco de me expor ao ridculo?
     - Mesmo assim. No vejo outra sada.
     - Nem eu.
     Thayer ainda se agarrava  esperana de encontrar outra soluo. Sabia que magoara Gytha, mas ainda esperava que ela houvesse refletido, compreendido sua reao 
e encerrado o assunto. Sabia que teria de fazer algum tipo de reparo, pedir desculpas, talvez, mas preferia no ter de rever todo o vergonhoso evento.
     Pensar que Gytha seria apenas obediente no leito nupcial era a mais terrvel agonia. No queria acreditar que podia ter matado sua paixo com aquele horrvel 
insulto.
     Precisava dela. A energia da esposa era to vital quanto o ar que respirava.
     - Vamos, meu amigo, saia logo desse banho e enfrente seu destino - Roger incentivou-o.
     - Sinto-me como se estivesse a um passo do cadafalso -Thayer confessou enquanto se enxugava.
     - Entendo.
     - H muitas possibilidades de erro.
     -  verdade. - Vestido, Roger dirigiu-se  porta do quarto. - Estarei a seu lado quando a refeio for servida, mas agora quero desfrutar de um momento de privacidade 
com Margaret.
     - No se atreva a brincar com essa mulher, Roger.
     - No estou brincando.
     - Nesse caso... desejo-lhe boa sorte.
     Thayer suspirou ao ver o amigo sair. Estava feliz por Roger, esperanoso de que ele encontrasse as recompensas que seu corao merecia. Porm, parecia injusto 
que o destino colocasse no caminho do amigo, um amor que desabrochava, enquanto seu casamento desmoronava. Podia ver o fracasso pairando no horizonte. Era um castigo 
que no poderia suportar. No se sentia forte o bastante para isso. Mas, mesmo deprimido como estava, tinha de enfrentar Gytha.
     Pronta para a refeio da noite, Gytha sentou-se para que Edna pudesse arranjar seu cabelo.
     - Viu Margaret? - Estranhando a demora da resposta, ela pressionou: - Edna? Sabe onde est Margaret?
     - Ela est com sir Roger, milady.
     - Ah... e temia falar por causa dos meus problemas?
     - Senhora, eu...
     - No tema, Edna. Estou feliz por minha prima. Diga-me, acha que as intenes de sir Roger so srias?
     - Sim, eu acho. Est nos olhos dele, milady.
     - Que bom. Ele  um bom homem. Nossa Margaret. merece o melhor. Suponho que ela nada tenha dito por considerar minhas dificuldades. Deve ter tido receio de 
ser indelicada. Confesso que sinto uma certa inveja, mas preciso dizer a ela que no tem de se esconder, Margaret  como uma irm para mim. Compartilho de sua felicidade.
     - E ela de seu sofrimento, milady. Essa sua situao...
     - Sim, Edna?
     - Receio parecer impertinente, senhora.
     - Como se pudesse ser alguma outra coisa.
     - Sim, sei que sou muito impertinente. - Ela sorriu. - E quero falar sobre minha senhora e seu marido.
     - Fale, ento. No sou tola a ponto de pensar que sei mais do que voc. Em uma questo grave como essa que agora vivo, s uma idiota poderia ignorar qualquer 
conselho.
     - Os homens so criaturas estranhas.
     - No est fazendo nenhuma grande revelao, Edna.
     - E ainda no acabei. Eles sabem que erraram, mas no conseguem se desculpar. Quanto mais orgulhoso  o homem, maior a chance de sufocar com as palavras. Ele 
sabe o que deve dizer, mas no consegue falar.
     - Preciso de um pedido de desculpas, Edna.
     - Entendo. Sim, milady, e concordo. A razo para essa sua necessidade  mais do que correta. Se deixar um homem pensar que pode maltrat-la impunemente, nunca 
mais ver o fim de seu sofrimento. Porm, esse pedido de desculpas pode no ser direto, claro ou romntico como gostaria que fosse. Alguns homens sabem escolher 
palavras belas. Outros no. Se no as ouvir com grande ateno, talvez nem as perceba. E quanto a uma explicao sobre por que fizeram o que fizeram... Bem, isso 
 ainda mais difcil. E comum que nem eles mesmos entendam. - J me perguntei exatamente isso, Edna. Se Thayer tem alguma compreenso sobre o que fez comigo.
     - Os homens no costumam analisar o motivo de suas aes. Especialmente se uma ao o faz parecer idiota. E isso torna o pedido de desculpas ainda mais difcil. 
Um homem prefere banir da mente e da memria esse tipo de coisa. Se pedem desculpas,  sempre de forma rpida e superficial. Nenhum homem gosta de implorar e pr 
em risco seu orgulho.
     - E Thayer  um homem orgulhoso.
     - Sim, milady. Muito orgulhoso. E no  muito bom com as palavras.
     - Tem razo.
     - Mas o corao dele  verdadeiro. Ele sabe que errou. Tenho certeza de que vai tentar compensar esse erro, milady. E a senhora vai precisar estar atenta para 
perceber essa compensao, para ouvir esse pedido velado de desculpas.                                                                                  
     - Atenta... Sim, a menos que meu marido seja incentivado a adotar uma certa eloqncia.
     - Como assim?
     - H uma coisa que aprendi sobre os homens, Edna. Alguns precisam do calor da ira para libertar a palavra. O que no podem dizer em um momento de calma e quietude, 
pode ser anunciado aos berros num acesso de raiva.
      preciso apenas acender o pavio.
     - Tenha cuidado, milady. No vai querer provocar um incndio...
     - Thayer jamais me faria mal. Ele conhece bem a prpria fora. Pode quebrar tudo que houver  nossa volta, mas jamais me atacaria. Sendo assim, se ouvir algum 
estrondo por aqui, no se assuste.  tudo planejado. Ouvirei as palavras que necessito ouvir, nem que elas me ensurdeam.
     Gytha desejava sentir-se to confiante quanto soava. Acreditava honestamente que promover a ira de Thayer era a melhor maneira de faz-lo falar, e no tinha 
dvidas sobre o que afirmara a respeito da prpria segurana. Thayer jamais a atacaria. O que a preocupava era o que ele poderia dizer. Afinal, seu marido estivera 
 merc de Elizabeth por quase um ms.
     - Milady? - Edna chamou intrigada quando viu sua senhora dirigir-se  porta do quarto.
     - Sim? Mais algum conselho?   .
     - No permita que ele a sacuda ou empurre nesse acesso de raiva. Em seu estado, no seria conveniente.
     - Meu estado?
     - O beb que carrega no ventre. Certamente j sabe...
     - Suspeito. Como pode ter tanta certeza? - ela sussurrou.
     - Suas regras falharam nos ltimos trs perodos. Agora so quase quatro. Tem estado enjoada, mesmo que s ocasionalmente, sempre no incio da manh. E sua 
silhueta comea a mudar. No tenho dvidas de que esteja esperando o herdeiro de meu senhor.
     - Sabe muito sobre esse assunto?
     - Bem... um pouco.
     - H alguma coisa que eu no deva fazer? - Foi impossvel impedir o rubor que tingiu seu rosto. Ambas sabiam muito bem a que "coisas" ela se referia.
     Edna respondeu sem rodeios:
     - No. Apenas no se deixe agredir. E cuide para no cair nem se machucar. Milady acredita que esse no  um bom momento para ter um filho?
     - No  o melhor, Edna. - Gytha suspirou e se dirigiu ao salo.
     Saber que esperava um filho de Thayer provocava emoes confusas. Amava-o, e esse amor era to forte que s vezes a amedrontava, e era esse sentimento que causava 
alegria por saber que estava grvida. Porm, ainda precisava esconder a emoo. Antes de revelar o que sentia, teria de esclarecer tudo que havia entre eles. Temia 
as conseqncias de um fracasso nessa misso de esclarecimento. A dor se cristalizaria. A frieza que agora fingia passaria a ser verdadeira, no mais um produto 
do orgulho ou uma ferramenta de proteo. E isso seria terrvel para a criana.
     - Gytha?
     Bruscamente interrompida em sua sombria reflexo, ela se assustou com a voz de Margaret.
     -Oh, voc me surpreendeu. O que faz a? - Estranhou ver a prima sair do nicho sob a escada.
     -Queria falar com voc antes de ir se juntar aos homens.
     - E espantoso como os problemas conjugais soltam a lngua de todas as pessoas.
     Margaret ignorou o sarcasmo da prima.
     - Sei o que planeja fazer. Precisa mesmo enfurec-lo?
     - Sim, preciso.
     - Gytha, no estou gostando disso.
     - A raiva o far falar. Isso  tudo muito importante.
     - Tem certeza de que deseja ouvir tudo que ele tem para dizer?
     - No, mas ouvirei mesmo assim. Sei o que a preocupa, e confesso que partilho de sua apreenso. Deixei meu marido sozinho na corte, ao alcance de uma vbora 
que no esconde o desejo por ele. E bem possvel que Thayer tenha cado novamente sob o encanto da megera. E acho que serei capaz de perdoar esse deslize.
     - Tem certeza?
     - Sim. Quando o deixei l eu j sabia o que poderia acontecer.
     - Ento, por que o deixou?
     - Acha mesmo que poderamos ter resolvido nossas diferenas na corte? No meio de toda aquela gente fofoqueira, maldosa e traioeira?
     - No. E claro que no.
     - Alm do mais, a magia ainda era muito recente. Eu precisava de tempo para recuperar-me. Sofrendo como estava, certamente o teria afastado de mim, e isso o 
teria empurrado para outros braos sem nenhuma dvida. Nossos problemas s cresceriam e ganhariam complexidade.
     - No creio que ele tenha quebrado os votos. Thayer  um homem honrado.
     - Muito honrado. Certa vez ele me disse que nunca tomaria amantes, desde que eu no recebesse nenhum outro homem em minha cama. E claro que ele pode ter interpretado 
minha partida como um anncio de separao, como uma declarao da minha inteno de me deitar com outro homem, mas...
     - Isso no quer dizer que ele fez alguma coisa.
     - No. Mas Thayer  um homem de grande... apetite - ela declarou, sorrindo, divertindo-se com o rubor de Margaret. ? Depois de uma batalha ele  sempre muito 
ardente, e duvido que o rei o tenha deixado descansar da espada. Thayer teve muitas noites de solido depois de dias de luta sangrenta.
     - Voc tambm esteve sozinha - Margaret lembrou.
     - Sim, e quero acreditar que ele no se envolver com outras mulheres cada vez que estivermos longe um do outro. A nica coisa pela qual oro  que no tenha 
se deitado com Elizabeth.
     - Ainda pensa no que ocorreu entre eles?
     - Penso no que ainda pode existir entre eles. Thayer nunca disse que deixou de amar aquela mulher. Disse apenas que a evita.
     - No. Ele no poderia amar uma mulher como ela. No quando tem voc.
     - Margaret, agora sabe que o corao no pode ser comandado. Ele vai aonde deseja ir.
     - Ento seu marido  um tolo.
     - Talvez. De qualquer maneira, eu gostaria muito de saber se ele ainda a ama, mesmo que a descoberta possa me fazer sofrer.
     - Entendo. Assim saberia em que terreno est pisando, que batalhas ter de lutar.
     - Exatamente. Ainda no sei se ela est realmente entre ns, ou se apenas me deixo envolver por receios sem fundamento.
     - Bem, ainda no tenho certeza de que concordo com seus mtodos, mas compreendo que deva fazer alguma coisa. O casamento  um lao que no pode ser quebrado, 
e o seu  muito promissor. Vale a pena lutar por algo to bonito.
     - E isso. E h outra razo para eu querer superar todo esse problema o quanto antes. Eu... estou esperando um filho.
     Margaret arregalou os olhos e abriu a boca.
     - Tem certeza? - ela murmurou.
     - Eu j suspeitava, e Edna acaba de confirmar minhas suspeitas.
     Margaret abraou a prima. Quando recuou, a alegria havia dado lugar  apreenso em seu rosto.
     - Oh, Gytha, agora acho que deve abandonar essa idia de despertar a ira de seu marido.
     - No se preocupe. Os gritos sero ensurdecedores e a cena ser assustadora, mas ele no vai me ferir. Diferente da maioria dos homens, Thayer tem conscincia 
da prpria fora, por isso controla seu uso.
     - No sei onde encontra tanta coragem - Margaret suspirou enquanto se dirigiam ao salo. - J pensou que ele pode estar arrependido a ponto de se sentir deprimido? 
Isso impediria o ataque de fria que deseja provocar.
     - Bobagem! - Gytha riu. - Culpado, arrependido, deprimido... Nenhum estado emocional pode impedir a fria de meu marido, desde que ela seja adequadamente provocada.
     Ao ver a esposa entrar no salo com Margaret, Thayer preparou-se para o que poderia ser uma experincia bastante desafiadora para sua pacincia. Havia prometido 
a si mesmo que controlaria o prprio temperamento. Porm, quando ela o cumprimentou com a mesma polidez que dirigia a Roger na mesa de refeies, compreendeu que 
manter a calma seria quase impossvel.
     De repente percebia que ela o tratava como havia tratado os cortesos afetados, com indiferena fria e boas maneiras. Isso o irritava. No havia no comportamento 
de Gytha nenhuma indicao de intimidade conjugal. No notara antes, mas agora que esse elo se rompera, sentia falta dele. E havia pouca esperana de recuper-lo.
     Aps alguns momentos de silncio pesado, ele decidiu se arriscar.
     - Vejo que realizou muitos progressos por aqui.
     - Sim, mas ainda h muito a ser feito - ela respondeu sem encar-lo.
     - J cumpri meus quarenta dias de servio. Agora posso ficar aqui e ajudar a cuidar da propriedade.
     - Como preferir.
     Thayer respirou fundo, tentando sufocar os primeiros sinais de uma exploso temperamental.
     - E bom saber que se recuperou de sua enfermidade, Margaret. - E gostaria de entender por que ela parecia to nervosa.
     - Muito obrigada, milorde. Janet foi uma enfermeira de grande valor.
     Thayer no sabia quem era Janet, e aproveitando essa ignorncia ele conseguiu manter Margaret falando por alguns minutos. Estava um pouco mais calmo, embora 
ainda se mantivesse atento a cada reao da esposa. Era hora de tentar falar novamente com Gytha.
     - No teve nenhuma dificuldade? - ele perguntou, lamentando no conseguir pensar em nada mais profundo para dizer.
     - Nada. Quer mais vinho, senhor meu marido?
     Ele assentiu e a viu chamar um pajem para servi-lo. Sabia que Gytha estava agindo assim de propsito. O silncio, a frieza... Tudo era estudado, e irritante.
     Gytha observava o marido. Sabia que a raiva crescia a cada minuto, e logo ele perderia o controle. Mas havia outras emoes desfilando por seu rosto, e eram 
essas que realmente interessavam. Podia ver o medo em seus olhos. Seria esse um sinal de que Thayer tambm temia um afastamento definitivo? Havia culpa, tambm. 
Esperava que fosse apenas pela cena no jardim real, no por coisas que ele fizera depois de sua partida.
     Um olhar rpido foi suficiente para ela deduzir que Roger adivinhava seu plano. O sorriso divertido no a deteve. Pelo contrrio, sentia que ele poderia ajud-la. 
Thayer odiaria ver um de seus homens aliando-se a ela, e isso o enfureceria ainda mais.
     Era hora de dar o prximo passo. Queria resolver de uma vez por todas os problemas que a afligiam e mantinham separada do marido, porque seu corpo clamava pelo 
dele.
     Fingindo um desinteresse que estava longe de sentir, Thayer comentou:
     - Fomos mandados em buscas consecutivas. O rei queria encontrar e subjugar rebeldes e ladres.
      - H muitos por a. - Ela preferiu no pensar no perigo que o marido havia enfrentado.
     Rangendo os dentes, Thayer prosseguiu:
     - Fui ferido em um desses confrontos.
      Seu corao parecia querer saltar do peito, mas ela o conteve com grande esforo. No era fcil continuar falando com aquele tom frio e distante, mas precisava 
se empenhar. Era sua nica chance de salvar o casamento e reacender a esperana de uma vida feliz ao lado do homem amado.
     - Parece ter se recuperado bem.
     Lembrando como ela reagira na ltima vez em que ele sofrer um ferimento, Thayer se sentiu desapontado com a resposta indiferente.
     - Sim.
     - Quer que Janet examine o ferimento? Ela  muito habilidosa para cuidar de enfermidades de maneira geral.
     - No.
     - Como preferir, meu marido.
     - O nome  Thayer - ele disparou, bebendo alguns goles na esperana de recuperar a compostura.
     - Sim, eu sei.
     - Ento, por que no o utiliza?
     - Como preferir, Thayer. Quer frutas? - Ela apontou para um prato delas.
     Ele pegou uma ma com um movimento furioso, e Gytha conteve o riso.
     Era um jogo delicado, um confronto de foras. Ela se empenhava para lev-lo ao descontrole, e ele se esforava para no perder a calma. Quem seria o vencedor?
     Cada palavra polida de Gytha alimentava a ira que crescia no peito de Thayer. Lembrava como tudo havia sido entre eles antes da lamentvel e odiosa cena no 
jardim real, e a dor da perda se juntava  revolta. Sabia que teria problemas digestivos mais tarde.
     Enquanto terminava de comer a ma, ele observava srio a conversa entre Gytha, Roger e Margaret. Era como esfregar sal sobre uma ferida aberta. Sentia-se um 
hspede em sua prpria casa, e um hspede no muito bem-vindo.
     Determinado a fazer um ltimo esforo, ele perguntou:
     - Que outros planos fez para Riverfall?
     - Prefiro viver um dia de cada vez.
     - De fato? E o que planeja para amanh, ento?
     - Vou cuidar das ervas.
     - Que ervas?
     - As de sempre.
     - E claro. Quer ter um jardim como o de seu pai?
     - Se quiser um jardim como o dele, milorde...
     - Pensei que voc queria um jardim assim.
     - Seria timo.
     - Ento, plante-o.
     - Como quiser, meu marido. Deseja mais vinho?
     - Est tentando me embriagar?
     - Se quiser, milorde...
     Gytha pensou que Thayer no devia ranger os dentes daquela maneira. Podia ser perigoso. Ela sorriu para Margaret, que estava plida de medo, e para Roger, que 
mal podia conter o riso. E desviou o olhar quando o patife piscou para ela, assinalando sua cumplicidade. A fria que crescia no peito de Thayer era quase tangvel. 
Gytha tentava no sorrir satisfeita com a vitria iminente. Precisava manter as respostas breves e polidas, embora Thayer formulasse perguntas cada vez mais elaboradas, 
tentando obter explicaes mais longas e complexas. E cada resposta breve era mais um sopro nas brasas que logo se transformariam em incndio. O jogo prosseguia. 
Na medida em que outros iam percebendo sua ateno, o salo ia ficando mais e mais silencioso. Todos olhavam para ela, confirmando sua impresso anterior.
     Ningum teria coragem para provocar o Diabo Vermelho como ela fazia.
     - Bek a ajudou enquanto eu estive fora? - Thayer perguntou ofegante, tal a ira que tentava sufocar.
     - Sim. Quer mais ma?
     - No.
     - Como quiser, meu marido.
     Nesse momento ela viu a luz nos olhos de Thayer e soube que finalmente alcanara seu objetivo. A tempestade se abateria sobre Riverfall.
   CAPTULO VI
     ? Chega! 
     Gytha tentou no se encolher.  O urro de Thayer podia t-la ensurdecido. Esperava recuperar a audio plena para ouvir o que o marido teria para lhe dizer quando 
ficassem sozinhos.
     - Algum problema, marido?
     - J disse que o nome  Thayer!
     - Sim, Thayer. Eu... - Ela se calou ao ser repentinamente arrancada da cadeira por mos fortes.
     - Se disser "como preferir" mais uma vez, juro que vou estrangular voc! Venha comigo.
     - J acabou de comer?
     - Sim, acabei! - ele berrou, arrastando-a para a escada.
     No quarto, ele a sentou sobre a cama com violncia contida, voltou para fechar a porta e respirou fundo, tentando se controlar. No era fcil.
      -Gytha...
     - Sim, meu marido?
     - Sou um hspede nesta casa? E isso?
     -  claro que no. Voc  meu marido, e eu sou sua esposa obediente.
     - Muito obediente. E fria.  assim que pretende punir-me?
     - Puni-lo?
     - Sei que no a protegi como era meu dever...
     -  verdade. - Ela ficou em p para encar-lo. - E tambm me insultou. Comparou-me quela meretriz! - Sabia que a raiva de Thayer perdia fora, mas no tinha 
importncia, porque agora ela estava furiosa pelos dois. - Cheguei casta ao nosso leito conjugal, mas voc preferiu acreditar que eu tinha a ndole de uma prostituta. 
Durante todo o tempo comportou-se como um abutre ao lado de um cadver, esperando paciente que eu agisse como a bela e elegante Elizabeth.
     - E por que no? Os homens a seguem e devoram com os olhos. No hesitam em assedi-la com elogios e palavras de amor.
     -  verdade, e voc me deixou  merc daqueles palhaos lascivos da corte!
     - Voc no parecia muito ansiosa por minha companhia.
     - Tem certeza de que estava prestando ateno, marido?
     - Thayer! - ele gritou. - Pare com essa idiotice de me chamar de milorde, marido ou meu senhor!
     - Como quiser - ela provocou.
     - Muito bem - ele respondeu em voz baixa, respirando com grande dificuldade. - Pensei em todas as acusaes que me fez. Sei que tive terrveis e amargas experincias 
com belas damas de fino trato, mulheres que dizem palavras doces e oferecem seus corpos com liberdade, mas resguardam o corao e se entregam a muitos homens ao 
mesmo tempo, enganando-os com suas mentiras. Por isso fiquei horrorizado quando fui informado de que seria seu marido. Antevi um futuro de amargura, anos que viveria 
tropeando em belos cortesos buscando sua cama... nossa cama! Antevi o riso, o escrnio, a humilhao... Naquela noite no jardim, eu me vi encurralado entre o passado 
e o presente. O choque foi mais forte que tudo, porque havia acabado de descobrir que estava livre de Elizabeth. Voc me havia dado a liberdade. E ento eu a vi 
deitada no cho... - Ele parou e fechou os olhos por um momento. - Agora sei que s estive ali por um momento, no por horas seguidas, at minha mente recuperar 
a clareza. Compreendi que o que eu tinha visto no estava realmente ali, mas era tarde demais. Voc j se havia defendido e libertado. Nunca senti vergonha maior. 
Por que saiu com ele do salo da corte?
     - Ainda est procurando por um pecado que nunca existiu? Sa com aquele patife miservel porque no estava raciocinando. Ele tirou proveito de um momento de 
confuso.
     - O patife miservel est morto.
     A notcia a deixou chocada e paralisada por um momento. Porm, logo retomou o assunto que era discutido ali.
     - Havia visto meu marido deixar o salo de braos dados com outra mulher.
     Sem pressa, ela comeou a se preparar para deitar. Thayer j havia dito quase tudo que ela desejava ouvir. Agora era hora de promover a reconciliao. Porm, 
ainda havia alguns detalhes que gostaria de entender, e provoc-lo sensualmente seria uma maneira certa de soltar sua lngua.
     - A megera disse que precisava de ar, porque se sentia  beira de um desmaio!
     - Um truque mais velho que o mundo. - Gytha riu com amargura.
     - Sim, eu sei, mas precisava testar minha recente descoberta.
     - Podia ter escolhido uma ocasio mais oportuna para realizar esse teste. - Ela comeou a soltar os cabelos. - Teria frustrado o jogo mesquinho de Elizabeth. 
Ela sabia que, se me visse nos braos de outro homem, voc condenaria primeiro para raciocinar depois.
     - Quer dizer... que foi tudo um plano? Tem certeza?
     - Bek me contou. Ele ouviu a me conversando com aquele homem antes de se aproximar de voc.
     - Mas por qu? Elizabeth quer um marido, e eu j sou casado.
     - Um amante rico e generoso a teria tirado da misria enquanto ela no encontra um marido. E tambm teria preenchido o espao vazio em sua cama. Na verdade, 
ela foi muito precisa quanto a sua capacidade nesse aspecto. E ela estava certa de que o teria de volta, caso eu sasse do caminho.
     - E mesmo assim, conhecendo os planos de Elizabeth, voc me deixou.
     - No estava preocupada com Elizabeth e sua cama. Naquele momento eu era s um animal ferido. Busquei minha toca para lamber as feridas.
     - No me deitei com ela, por mais que Elizabeth tenha me tentado.
     - No duvido disso.
     - No me deitei com nenhuma mulher. Passei minhas noites encharcado de vinho e numa cama vazia, tentando sufocar o medo de que essa fosse uma condio definitiva. 
- Ele se aproximou e tocou os cabelos de Gytha. - No  houve outra. Nem mesmo quando eu retornava da batalha  com o sangue ainda fervendo. Foi numa dessas situaes 
que Elizabeth mais me tentou, mas minha rejeio foi direta, rude.
     Gytha o encarou com um novo brilho no olhar.
     - Deve estar faminto, ento - ela sussurrou sedutora.
     - Oh, Gytha... - Thayer a apertou entre os braos, aliviado ao no encontrar nela nenhuma relutncia. - Minha doce Gytha... - Ele a beijou com paixo.
     Mais tarde, Gytha se virou nos braos do marido para fit-lo na escurido do quarto.
     - Onde foi ferido? - ela perguntou preocupada, lembrando como o havia tocado durante o ato de amor.
     - No fui.
     - No foi? Ento...?
     - Queria provocar alguma reao, superar aquela muralha de frieza.
     - Thayer! - Ela riu. Ele estreitou o abrao, deixando as mos deslizarem por sua cintura.
     - Estou enganado, ou voc engordou um pouco desde que nos separamos?
     - Ganhei peso, sim.
     - Falta de atividade fsica, imagino. Especialmente...
     - No, meu caro marido. Creio que a razo para esses quilos a mais  justamente o oposto do que diz. Excesso de atividade fsica. Especialmente  noite.
     - O que quer dizer? - Ele apertou-a na cintura.
     - Cuidado. Pode perturbar o beb.
     - O...?-Thayer se sentou na cama.-Est esperando um beb?
     - Foi o que acabei de dizer.
     - E eu sou o pai?
     - Thayer! E claro que sim!
     - Eu no estava presente quando Bek nasceu. - Ele pulou da cama.
     - Aonde vai?
     - Preciso contar a algum! - Thayer gritou eufrico enquanto vestia o robe, j a caminho da porta. - Por Deus! Espero que Roger esteja acordado!
     Thayer invadiu os aposentos do amigo sem sequer bater na porta. Descontrolado, ele segurou-o pelos ombros e o sacudiu.
     - Acorde! Isso no  hora de dormir! Roger sentiu-se assustado.
     - Fomos atacados? Inimigos?
     - No! Eu vou ser pai!
     - Voc j  pai.
     - De novo. E a me agora  Gytha. Ela est esperando um filho meu.
     - Ah... parabns. - Roger riu, compreendendo o estranho comportamento do amigo. - Quando?
     - Quando?
     - Sim, quando. A criana vai nascer quando?
     - Ah... No sei. Esqueci de perguntar. - Ele saiu correndo sem se importar com as gargalhadas de Roger.
     Gytha, que aproveitara o momento de privacidade para se lavar e atender ao chamado da natureza, estava servindo vinho em uma caneca quando quase derrubou o 
lquido por causa do estrondo da porta. Era Thayer que retornava ainda mais agitado que antes.
     - Quando?
     - Quando o qu? - ela devolveu confusa.
     - Quando o beb vai nascer?
     - Ah... em cinco meses, mais ou menos. Ele saiu correndo novamente.
     Depois de invadir o quarto de Roger pela segunda vez, anunciou:
     - Dentro de cinco meses! Cinco meses! Vou envelhecer enquanto espero!
     - Muitos homens esperam nove meses.
     - Quer dizer que ela est errada? No so cinco meses?
     - No, Thayer. Quero dizer que ela est grvida h quatro meses. Quase a metade da gestao j passou. Devia estar grato por isso.
     - Sim,  claro. Mas ela devia estar descansando.
     - As mulheres so mais fortes do que parecem, meu amigo. Especialmente quando esperam um beb.
     - Talvez, mas vou me dedicar mais  minha esposa, agora que teremos um filho.
     - Resolveram tudo, ento?
     - Sim, os problemas foram solucionados. - Thayer j se encaminhava para a porta. - Tenha uma boa noite, Roger. Nomes - ele resmungou. - Preciso pensar em alguns 
nomes.
     Mais uma vez, Gytha foi surpreendida pela entrada repentina do marido. Como se no bastasse, ele a pegou nos braos e a levou do toucador, onde ela escovava 
os cabelos, para a cama.
     - Precisa descansar.
     - Thayer, sou uma mulher forte e saudvel. Quase nem tive enjos, e os poucos que tive j desapareceram.
     - Enjo? - Ele a encarou horrorizado. - Esteve enjoada?
     - No comeo da gravidez, todas as mulheres tm nuseas. Depois passa. A minha foi to leve que quase nem a percebi.
     - Ah, sim... E claro. No estou raciocinando com clareza. Mas agora voc est bem?
     - Muito bem. No precisa se preocupar.
     - E difcil... J pode sentir o beb? - ele perguntou, tocando seu ventre com reverncia.
     - Sim, s vezes. Duvido que voc j possa sentir os movimentos. E s uma agitao rpida... - Ela comeou a se levantar.
     - Aonde vai?
     - Levar a caneca vazia. Terminei de beber o vinho.
     - Eu cuido disso. Deite-se e descanse.
     Gytha mal teve tempo de se acomodar sob as cobertas antes de o marido voltar. Ele a cobriu e se deitou a seu lado, tomando-a nos braos com uma delicadeza comovente, 
como se tocasse um cristal muito fino. Ela comeou a ter um incmodo pressentimento sobre os prximos cinco meses. A sensao ganhou fora nos momentos seguintes, 
alimentada pela imobilidade dele. Precisava encontrar um meio de livr-lo dessa noo absurda.
     Thayer olhou para ela e perguntou:
     - Como se sente com relao a essa criana?
     - Encantada. E ainda  pouco. S hoje tive certeza. Edna confirmou minha suspeita.
     - Pai! Por Deus,  difcil acreditar! Que maravilha!
     - Voc j  pai, Thayer.
     - Se pensa que vou dar as costas para ele, no se preocupe. Bek  meu filho, e isso  um elo que jamais esquecerei. A me de Bek s me causou sofrimento e humilhao. 
Tentou arranc-lo do corpo e tentou mat-lo logo depois do nascimento. Eu nem soube da gravidez. Dessa vez vou participar de tudo desde o incio. Eu amo Bek. Ele 
sabe disso. Farei tudo que puder para dar a ele um futuro e alguma fortuna, e o reconheo como meu filho diante de todos e em todas as circunstncias. A nica amargura 
que ele pode sentir  contra a me, e acho que esse sentimento j existe. Voc o conforta com seu carinho.
     - Gosto de pensar que existe afeto entre ns.
     -  possvel notar esse sentimento. Bek  um menino muito carinhoso. Ele nunca saiu de perto de mim. Desde que o recebi da me, nunca o abandonei e nem ele 
quis ir embora.
     - Thayer, ele partiu comigo - Gytha sussurrou, compreendendo repentinamente o que isso significava.
     - E verdade. E nem me consultou antes de partir. Isso  bom.
     - Bom?
     - Sempre fiz questo de mostrar a ele quem  Elizabeth. No queria que ele alimentasse esperanas vs. Agora sei que meu esforo rendeu frutos. Se ele se agarrou 
em voc to rapidamente,  porque no tem nenhum vnculo com a me.
     - Ele ouviu coisas que foram ditas sobre ela. E vai ouvir ainda mais.  inevitvel. Mas, como  um menino justo, aproveitou a breve estadia na corte para ver 
por si mesmo quem  Elizabeth.
     - Ele falou com a me?
     - No, mas a observou. E a seguiu. Foi assim que ele descobriu tudo sobre o plano que ela tramou contra mim. Contra ns.
     Thayer suspirou, cheio de pesar pelo filho.
     - E uma lio muito dura para um menino ainda to jovem. Entendo que os meninos no mantm uma ligao muito forte com suas mes, mas ningum gosta de descobrir 
coisas negativas sobre elas.
     - No sei se ele se incomodou muito com tudo isso. No notei amargura ou revolta, e Bek no voltou a tocar no assunto desde que me contou sobre o que ouvira 
na corte.
     - Talvez eu deva falar com ele.
     - Pode ser bom.
     Gytha o beijou no pescoo.
     Thayer sabia o que ela pretendia, mas tratou de ignorar o convite nada sutil.
     - Vamos escolher nomes para meninos e meninas. Sorrindo ao detectar a rouquido na voz dele, Gytha mudou de posio e beijou o canto da boca do marido.
     Ele a segurou pelos cabelos, tentando cont-la. O truque foi ineficiente.
     - Gytha, voc est grvida...
     - Eu sei. No foi exatamente isso que acabei de lhe contar? - Ela continuou descrevendo uma trilha de fogo com os beijos que ia depositando em seu rosto, entre 
o queixo e a orelha.
     - Mas... Voc  to pequena! E eu sou muito grande...
     - Hum... Enorme!
     - Posso ferir o beb.
     - Ainda tenho muito para aprender sobre gravidez e parto, mas h uma coisa que j sei: os primeiros trs meses so os mais perigosos, porque  nesse perodo 
em que existe maior possibilidade de perder a criana. E eu j estou grvida h quatro meses.
     - Quatro meses...
     - Exatamente. E o que fizemos h um ms, Thayer?
     - H um ms? - Era difcil pensar. A febre que ardia em seu corpo afetava o raciocnio e prejudicava a memria. - Acho que... fizemos amor. E eu podia ter machucado...
     - Mas no machucou. Sendo assim, que concluses podemos tirar disso, meu grande e obtuso marido?
     - Que fazer amor no vai prejudicar o beb?
     - Exatamente!
     - Ento...?
     - Thayer, chega! Pare de fazer tantas perguntas e venha dar prazer  sua mulher! At uma esposa obediente como eu pode perder a pacincia em certas circunstncias.
     Rindo, ele a tomou nos braos e beijou com ardor, entregando-se s delcias que s podia viver com sua doce Gytha.
     Gytha estava feliz. Muito feliz. Resolvera todos os problemas com o marido, tinha certeza de que Elizabeth no ameaava sua felicidade, e ainda teria um filho 
do homem que amava. Dormir nos braos dele era tudo que podia querer depois do prazer intenso que acabara de experimentar.
     Mas ainda havia uma nuvem no horizonte. Uma ltima dvida a sanar.
     - Thayer?
     - J devia estar dormindo, Gytha - ele respondeu sonolento. - O beb...
     - E s uma pergunta. A ltima.
     - O que ?
     - Disse que Dennis est morto?
     - Sim. O patife voltou  corte pouco antes de eu partir. Como no tentei encontr-lo imediatamente depois da ofensa, ele julgou estar seguro. Eu o desafiei. 
Foi uma luta justa da qual ele saiu derrotado. Mesmo que tardiamente, vinguei o insulto contra sua honra. Isso a incomoda?
     - O que me incomoda  saber que a honra maculada s pode ser lavada com sangue. Mas, se  assim... - Era terrvel pensar que Elizabeth, a grande e verdadeira 
culpada de tudo, sara ilesa da situao.
     - Agora durma, Gytha. Voc precisa descansar. Estava mesmo muito cansada.
     - Eu vou dormir. Mas no quero que se preocupe comigo.
     - No estou preocupado - ele mentiu, incapaz de ignorar os temores que j superavam a alegria causada pela notcia da gravidez.
     Gytha adormeceu em seus braos. Havia muitas noites no a tinha a seu lado, e passara muitos dias se perguntando se algum dia voltaria a t-la. Por um tempo, 
ele manteve a mente livre de todos os pensamentos, concentrando-se apenas na felicidade de poder senti-la novamente.
     Porm, por maior que fosse a felicidade, era impossvel seguir ignorando todos os pensamentos a respeito do que poderia acontecer. A preocupao exigia ser 
reconhecida.
     Emoes confusas o invadiam, todas relacionadas  criana que nasceria em breve. Eram contraditrias, algumas mais intensas que outras. Sentia euforia, felicidade 
e terror. Agradecia a Deus por esse presente, mas tambm lamentava que a unio houvesse frutificado. Mal podia esperar para ter nos braos o filho de Gytha, mas 
tambm desejava que ela nunca houvesse concebido.
     A morte pairava sobre o leito do parto. Era impossvel no pensar nisso. As palavras "morta no parto" estavam gravadas em muitas lpides. Muitas mulheres tinham 
a vida interrompida nesse momento que devia ser de alegria e beleza. Mulheres pobres e ricas, amadas ou no, belas ou feias. At as fortes e saudveis podiam cair 
vtimas de um parto complicado. At Gytha...
     Ele se recusou a seguir essa linha de pensamento.
     Apertou-a contra o corpo, sorrindo ao ouvi-la murmurar seu nome. Queria proteg-la da ameaa que nenhuma espada podia deter. Se a vontade de um homem tinha 
algum peso no jogo da vida e da morte, nada poderia arranc-la de seus braos.
     Mas Thayer sabia que nada era mais forte que a vontade de Deus. Tudo que podia fazer era esperar para ver o que aconteceria. Porm, pensar no faturo sem Gytha 
o impediu de dormir naquela noite. E sabia que a noite de insnia era s a primeira de muitas que ainda viriam.
     - Tenho a sensao de liderar uma procisso - Gytha comentou enquanto olhava para trs, observando os quatro homens armados que a seguiam.
     Margaret riu e piscou para Bek, que se divertia com a situao.
     - Thayer diz que voc deve ser protegida.
     - E estou mais do que protegida. O nico lugar em que consigo estar sozinha  no banheiro, e no me surpreenderia encontrar um guarda parado na porta ao sair. 
- Olhando em volta pelo vilarejo por onde caminhavam, ela suspirou. - Acho que as pessoas se assustam com essa demonstrao de fora.
     - No. O povo fica atento,  verdade, mas no assustado.
     - Eles se mantm bem afastados de ns.
     - Bem, eles percebem que voc est protegida e deduzem que h algum motivo para isso. No querem fazer nenhum movimento que os homens possam considerar perigoso. 
Por isso ficam distantes, quietos.
     - Eu sei. S me queixo porque estou cansada de toda essa histria. No fomos mais ameaados por Pickney.
     - Acha que ele desistiu dos planos?
     - Quem sabe?
     - At algum ter certeza do fim do perigo, voc vai continuar protegida. - Margaret segurou o brao da prima. - Duvido que seu marido permita que saia por a 
sem escolta, mesmo que Pickney no represente mais uma ameaa.
     - E - Bek acrescentou, balanando a mo que segurava a de Gytha -, papai diz que agora tem de proteger vocs dois.
     - Minha barriga ainda nem aparece. - Ela riu.
     - Acha que terei um irmo?
     - Tenho me sentido um pouco irritada e mal-humorada desde o incio da gestao. Dizem que esse tipo de alterao acontece quando o beb  menino. Voc quer 
um irmo?
     - Sim, mas papai diz que devo rezar pedindo apenas para o beb ser saudvel, ento... - Ele franziu a testa ao ver uma mulher baixa e rolia acenando para eles 
na frente da hospedaria. - Quem  aquela?
     - No sei - Gytha respondeu, olhando para Merlion com ar espantado ao v-lo se colocar diante dela. - Conhece essa mulher, sir Merlion? Ela pode estar acenando 
para um de vocs.
     - No, nenhum dos homens a conhece. Vou verificar o que ela deseja.
     Ao ver Merlion caminhando em sua direo, a mulher recuou um passo.
     Gytha notou que a expresso de Merlion ia se tornando mais sombria na medida em que ele falava com a desconhecida. Havia nela algo de familiar. Por um momento, 
Gytha pensou t-la visto na corte, mas no podia ter certeza. Vira tantos rostos, todos to parecidos... Era impossvel afirmar.
     Quando Merlion retornou, ela sentia uma mistura de Curiosidade e desconforto.  - O que ela quer?
      - A mulher  criada pessoal de lady Elizabeth - respondeu Merlion com tom contrariado.
     - Lady Elizabeth? O que essa mulher faz aqui?
     - Parece que ela veio procur-la, milady. Pretendia cavalgar at Riverfall amanh cedo, mas quando a viu aqui, ela decidiu providenciar um encontro imediatamente. 
E ela tambm quer falar com Bek.
     - Ela disse por qu?
     - Para se redimir.
     Havia uma evidente incredulidade na voz de Merlion, e Gytha compartilhava do sentimento. Elizabeth no era o tipo de mulher que pedia desculpas. Por outro lado, 
ela podia estar preocupada com a prpria segurana. Devia saber que Thayer j havia tomado conhecimento de sua participao no episdio no jardim do rei. Dennis 
fora morto por isso. Elizabeth devia estar esperando algum tipo de retaliao.
     Por um momento, Gytha pensou em se negar a falar com ela. Seria um merecido castigo deix-la consumida pelo medo e pela apreenso. Mas tinha de pensar em Bek. 
Elizabeth era a me dele. Mesmo que o pedido de desculpas no fosse sincero, mas uma simples maneira de escapar das conseqncias de seus atos maldosos, seria bom 
para o menino ouvir a me manifestar arrependimento.
     - Ela est na hospedaria?
     - Sim. A criada disse que a levar at sua senhora. No gosto disso, milady.
     - Bem, sir Merlion, tambm no desejo rever essa mulher, mas... - Ela inclinou a cabea na direo de Bek. - O encontro pode beneficiar algumas pessoas. E no 
imagino que tipo de problema pode advir de uma breve conversa com lady Elizabeth.
     - Ela s receber milady e o menino. Mais ningum.
     - No me surpreende. Se quisesse pedir desculpas por alguma coisa, tambm no ia querer uma platia to numerosa e bem armada. Alm do mais, no caberamos 
todos em um quarto da hospedaria.
     - Seria prefervel que ela fosse pedir desculpas em Riverfall.
     - Na verdade, prefiro resolver isso hoje mesmo, o quanto antes. E tambm prefiro que ela no se aproxime de Riverfall. - Ela olhou para o menino. - Lamento, 
Bek, mas  o que sinto.
     - Eu entendo. Ela foi cruel com voc. - Bek olhou para Merlion. - Eu estarei com Gytha, senhor, caso haja algum problema.
     Merlion sorriu.
     - E verdade. Bem, v ento, milady. Estarei aqui com os homens esperando por seu retorno. No podemos nos demorar.
     - No vamos demorar. Leve os homens para beber uma cerveja na hospedaria, sir Merlion. Depois de toda  essa caminhada, eles merecem um pouco de conforto.
     Gytha se afastou do grupo e caminhou na direo da  criada. Podia ouvir os homens um passo atrs dela. Eles no a seguiriam ao quarto, mas estariam dentro da 
hospedaria, o que j seria um conforto. No acreditava que Elizabeth seria estpida a ponto de tentar atingi-la novamente, mas tambm no confiava na mulher. Segurando 
a mo de Bek, ela esperou que o menino no tivesse de ver novamente o lado diablico da me.
     Atrs da criada, Gytha entrou na hospedaria. Quando parou para esperar a criada abrir a porta do quarto de Elizabeth, ela sentiu Bek apertar sua mo e compartilhou 
do nervosismo do menino.
     Respirando fundo para se acalmar, ela entrou no aposento. Elizabeth se mantinha to bela quanto na corte. E tambm exibia a mesma atitude altiva e arrogante, 
in-congruente com algum que pretende se desculpar.
     - Ora, ora... - Elizabeth disse olhando para o ventre de Gytha. - Vejo que o homem ainda  frtil.
     Certa de que pedir desculpas no era a inteno da detestvel dama, Gytha perguntou:
     - O que deseja, Elizabeth?
     - Ah... bem, no desejo nada...
     Alarmada pelo sorriso vitorioso nos lbios da mulher, Gytha se virou para sair e foi detida por um baque. De repente Bek se tornou um peso morto pendurado em 
sua mo.. O menino caiu com um lado do rosto ensangentado. A mo inerte escorregou de seus dedos. Ela abriu a boca para gritar, mas foi silenciada por uma enorme 
e imunda mo. Gytha se debateu, tentando lutar, mas uma forte dor em sua cabea a deixou sem foras. A gargalhada de Elizabeth foi o ltimo som que ela registrou 
antes de perder os sentidos.
     - Depressa, tire-a daqui - ela ordenou enquanto pegava o manto, chamando a criada para ajud-la a cobrir-se.
     - Deixe o menino. Os homens que a escoltam logo estaro aqui em cima.  melhor sairmos rpido. - Empurrando a aturdida criada, Elizabeth saltou sobre o filho 
desfalecido e foi abrir a porta.
     Merlion decidiu que era hora de pr fim ao encontro entre Elizabeth e Gytha. No devia ter permitido que sua senhora se dirigisse ao quarto sozinha. Deixara 
a hospedaria para ir urinar do lado de fora, e ao retornar ele encontrou Thayer e Roger na porta, o que o fez sentir-se ainda mais tolo.
     - Onde est Gytha? - Thayer perguntou.
     - L em cima. Em um dos quartos.
     - Ela no se sente bem?
     - No h nada de errado com ela. Milady foi ao encontro de lady Eiizabeth.
     A expresso de Thayer sugeria que Merlion estava encrencado. -Voc a deixou ir sozinha ao encontro daquela vbora?
     - A criada afirmou que sua senhora s queria se desculpar.
     - Eiizabeth? Pedindo desculpas?
     - E possvel. Ela pode temer alguma retaliao, agora que Dennis est morto...
     - Sim,  possvel, mas deixar Gytha ir encontrar aquela megera sozinha...
     - Bek est com ela. O menino... Oh, meu bom Jesus! Virando-se para descobrir o que fizera Merlion ficar repentinamente to plido, Thayer praguejou. Com o rosto 
desprovido de cor e sujo de sangue, Bek descia cambaleante a escada da hospedaria. Thayer correu a ampar-lo. Sentado em um dos bancos do salo, ele acomodou o filho 
a seu lado, mantendo um brao em torno de seus ombros. Algum ps em sua mo uma toalha umedecida. Ele percebeu que tremia quando comeou a limpar o rosto do menino. 
O estado de Bek s podia ter um significado: algum havia levado Gytha.
     Ajoelhando-se, Roger ajudou o garoto, ainda atordoado, beber um pouco de caldo.
     - J examinei a cabea dele, Thayer. Encontrei um galo enorme e um corte superficial, mais nada. Bek, acha que consegue nos dizer o que aconteceu?
     - No tenho certeza - sussurrou o menino, incapaz de conter as lgrimas de dor e medo.
     - Voc foi encontrar sua me - Thayer lembrou, tentando conter a aflio e o pnico.
     - Sim, ela... disse que queria pedir desculpas a Gytha. Mas ela mentiu. Gytha desapareceu.
     Thayer fechou os olhos e respirou fundo. Ceder ao desespero no o ajudaria a resgatar a esposa.
     - Viu quem a levou? - perguntou.
     - No. Minha me disse que no queria nada. Gytha parecia preocupada e... E algum bateu na minha cabea. Quando acordei, no havia mais ningum no quarto. 
No fui capaz de proteg-la.
     - Filho, voc foi atacado pelas costas. Podia ter acontecido comigo ou com Roger... Com qualquer um.
     Margaret se aproximou de Thayer.
     - Deixe-me levar o menino, milorde. Ele precisa de um curativo nesse corte.
     - Obrigado, Margaret.
     Assim que ela se retirou com Bek, Merlion falou:
     - Os homens j saram em busca de algum ou alguma coisa. Acha que lady Eiizabeth se aliou a Pickney?
     - O que mais pode ser? - Thayer disparou furioso. - Pickney  o nico que est atrs de Gytha.
     Merlion passou a mo na cabea.
     - Eu no queria permitir o encontro, Thayer, mas nunca imaginei que isso pudesse acontecer.
     - E por que deveria imaginar? At onde sei, Pickney e Elizabeth nunca se encontraram. Nunca disse a ningum que Eiizabeth merecia cuidados especiais. Quando 
sa da corte, eu j sabia que havia contrado uma inimiga perigosa. De alguma forma, ela descobriu o que Pickney pretende e viu nele uma chance de vingar-se da humilhao 
que pensa ter sofrido com minha recusa. Por que Gytha foi encontrar essa mulher?
     - Acho que ela foi pelo menino. Duvido que tenha esperado um pedido sincero de desculpas, mas ela queria que o menino o escutasse.
     - Sim, eu entendo. - Thayer levantou-se de um salto. Preciso ir procurar por Gytha.
     Com a ajuda de Merlion, Roger conteve Thayer j a caminho da porta.
     - Espere os homens voltarem com notcias. No  bom sair por a s cegas. Pickney a quer casada com Robert. No  a vida dela que corre perigo.
     - No? Ela carrega meu herdeiro, Roger. Se a criana nascer e viver, Robert no poder mais herdar Saitun Manor. E  isso que Pickney quer.
     - Acho que  hora de mandar avisar a famlia dela - Roger opinou.
     - Sim, assim que soubermos um pouco mais. Os homens j esto retornando.
     Com grande esforo Thayer conseguiu ficar onde estava, Porem, ao ver quem os homens arrastavam para dentro da hospedaria, ele nem tentou se conter. Roger e 
Merlion precisaram de muita fora para conter o avano mortal contra Elizabeth. Ao v-lo contido e mais calmo, o terror da mulher deu lugar  velha arrogncia.
     - O que descobriram? - Thayer perguntou aos homens. Torr, o lder do grupo, respondeu:
     - Pouco, exceto por essas duas. - Ele apontou para Elizabeth e sua criada. A mulher tremia e choramingava apavorada.
     - Exijo ser libertada imediatamente - Elizabeth declarou com altivez, tentando ajeitar as roupas descompostas.
     - No est em posio de exigir nada - Thayer respondeu furioso. - O que faz em minhas terras?
     - Viajava para ir visitar minha famlia.
     - Sozinha? Voc j mentiu melhor. Onde est Gytha?
     - Sua esposa? E sou eu quem deve saber do paradeiro da mulher que mora com voc?
     - Elizabeth, escute, no estou com disposio para aturar seus jogos. Responda! Onde est Gytha?
     - No sei. Fomos atacadas no quarto enquanto conversvamos. E fomos roubadas. Minha criada e eu conseguimos fugir. E evidente que os bandidos levaram sua esposa. 
Logo pediro um resgate, imagino.
     Elizabeth deixou escapar um grito de pnico quando Thayer a segurou pelos ombros e a empurrou contra a parede, mantendo-a imobilizada com uma das mos em seu 
pescoo.
     - Quero a verdade! - ele trovejou.
     - Thayer, como pode me tratar assim? Sou a me de seu filho!
     - Me? Voc nunca foi me para Bek. Uma me de verdade no permitiria que outra pessoa criasse seu filho. Nem o deixaria ser atacado e depois fugiria, deixando-o 
desacordado e sozinho, com um sangramento na cabea! Quem levou Gytha?
     - Pickney. Charles Pickney e seu primo Robert. Dois homens de Pickney fugiram com ela.
     - Para onde?
     - Saitun Manor.
     Thayer soltou-a. Elizabeth caiu no cho ofegante. A pobre criada apavorada correu em seu socorro, mas ela se levantou sozinha e a afastou com um gesto irritado. 
A velocidade com que recuperava a arrogncia era espantosa. E tambm era admirvel sua total ausncia de noo de perigo.
     - Como ele pode buscar refgio em Saitun Manor? Eu sou o dono do lugar!
     - No ser mais. Pickney pretende usar sua esposa para abrir os portes e desarmar a guarda.
     - Como se envolveu com esse homem?
     - Eu o conheci quando deixava a corte a caminho de casa. Ele me contou seus planos, e vi nele uma chance de vingar-me e ainda ganhar um bom dinheiro. Charles 
prometeu me dar uma parte do que tirar de voc.
     - Ento, acha que tudo isso  s um jogo para obter lucro? Vejo que Charles mente muito melhor do que voc. Ele a envolveu em uma trama de assassinato, mulher! 
O resgate que pretende pedir  minha vida!
     - Bem, todos iremos ao encontro do Criador em algum momento.
     Ela parecia calma, mas Thayer reconheceu mais uma de suas mentiras. A verdade estava refletida em seus olhos, no medo que havia neles. Elizabeth percebia que 
a situao em que se envolvera era muito mais grave do que havia pensado em princpio, e nem mesmo sua elevada condio de nascena ou o nome obtido pelo casamento, 
poderiam livr-la da punio, caso algum morresse em conseqncia de seus planos.
     - Voc pode fazer essa viagem bem antes do que pretende - ele disparou ameaador.
     - O que quer dizer? - Elizabeth olhou em volta, estudando com certa aflio os homens armados.
     - Leve lady Elizabeth para Riverfall, Torr, e mantenha a prisioneira bem vigiada.
     Lutando inutilmente contra as mos que a agarravam pelos braos, Elizabeth olhou para Thayer.
     - No pode fazer isso comigo. No pode me prender como se eu fosse uma... uma qualquer! Esquece quem sou?
     - Nunca, milady. Ficar em Riverfall at tudo isso estar resolvido. Se eu retornar com minha esposa, ns a devolveremos a sua famlia em segurana. Se Gytha 
morrer, voc ser enforcada. - Ele sorriu com frieza ao v-la empalidecer. - Se eu no sobreviver para pr pessoalmente a corda em seu pescoo, muitos outros se 
apresentaro com alegria para essa misso.
     - No pode... Sou a me de seu filho!
     - Isso no vai salvar sua vida se Gytha morrer. E se ela viver e sua famlia for chamada para vir busc-la, aproveitaremos a ocasio para inform-los sobre 
Bek.
     - Inform-los...? Voc prometeu! Ningum jamais saberia! No! - Elizabeth gritou ao v-lo fazer um sinal ordenando que Torr a levasse. - Precisa me ouvir!
     - Devo voltar para c, milorde? - Torr indagou.
     - No. Espere por mim em Riverfall.
     Thayer deu as costas para Elizabeth, ignorando seus protestos. Olhando em volta, encontrou o olhar do filho. Um olhar sincero e penetrante que o fez reconhecer 
que no seria to fcil obter punio para Elizabeth. Decidiu considerar o problema mais tarde. Agora, a nica coisa que importava era encontrar Gytha e lev-la 
de volta  segurana de Riverfall.
     - Ento... vai fazer o que Pickney espera, indo atrs de Gytha ou vai sentar e esperar que ele venha procur-lo? - Roger perguntou, aproximando-se de Thayer.
     - Eu vou atrs dele. Armado e pronto para a batalha, embora ele no esteja interessado em um confronto justo.
     - Acha que  uma deciso sensata?
     - Que alternativa eu tenho? Pickney mantm minha esposa refm!
     - Ele quer cas-la com Robert. Isso significa que no vai fazer mal a ela. No enquanto no se beneficiar com esse casamento.
     - Acha que podemos ter certeza disso, Roger? Gytha est grvida. Meu herdeiro cresce em seu ventre, e isso pode ameaar os planos de Pickney. A existncia de 
outro herdeiro por a perder tudo que ele quer conquistar.
     Thayer tremia de raiva e medo. Pickney tinha nas mos tudo que era mais precioso para ele.
     No conseguia pensar em nenhum plano de imediato, mas no se surpreendia com isso. No estado em que se encontrava, no tinha mesmo condies de tratar uma estratgia 
de ao.
     - Vamos voltar a Riverfall. Agiremos como se nossa inteno fosse promover o confronto e a batalha - Thayer anunciou, j a caminho da porta da hospedaria. Seu 
povo o seguia. -  isso que aquele miservel espera. Ento, fingiremos agir de acordo com suas expectativas. Seguiremos para Saitun Manor e nos reuniremos diante 
das muralhas. Exibiremos toda a nossa fora e fria, como se quisssemos fazer desabar a fortaleza sobre a cabea do infeliz.
     - E qual ser nosso plano real? - quis saber Roger.
     - Nosso plano real? - Thayer deixou escapar uma gargalhada amarga. - Ainda no existe. Espero poder pensar em alguma coisa at acamparmos diante dos portes 
de Saitun Manor.
     No momento em que Thayer entrou em Riverfall, ele soube que Torr havia prevenido os homens. Sem rodeios, ele deu as ordens que todos em seu exrcito esperavam 
e seguiu para os prprios aposentos, preparando-se para partir.
     Nem mesmo na privacidade do quarto, ele encontrava paz para raciocinar claramente. O esprito de Gytha estava em todas as partes. Seu cheiro pairava no ar, 
e ele se apressou para poder escapar logo do quarto e das lembranas nele contidas. As recordaes alimentavam o medo que precisava controlar.
     Foi para o quarto de Margaret e no se surpreendeu ao encontrar Roger l. Os dois j eram considerados um par em Riverfall, e todos esperavam pelo anncio do 
casamento. Porm, seu interesse no era participar do momento de despedida dos amantes, mas encontrar Bek, que Margaret acomodara em seus aposentos. O menino dormia 
na cama da prima de Gytha.
     - Como ele est? - perguntou num sussurro preocupado.
     - Melhor, milorde - Margaret respondeu ao lado de Roger. - Dei a ele uma poo para aliviar a dor na cabea. Porm, nada poder diminuir a dor que o pobrezinho 
carrega na alma.
     - Eu sei. Em vez de ver alguma bondade na me, mesmo falsa, como se podia esperar, ele s viu maldade ainda maior do que j conhecia. E perdeu Gytha, que j 
era muito importante para ele.
     - Sim, minha prima tem um jeito todo especial com crianas. Gytha parece compreender como os pequenos enxergam o mundo.
     - Notei como ele conversa livremente com ela.
     - Vai traz-la de volta s e salva, milorde. Tenho certeza disso.
     Thayer sabia que Margaret no acreditava nas prprias palavras. No o suficiente para banir do rosto todos os sinais de preocupao. Mas ela queria acreditar.
     - Espero que esteja certa. Pode se incumbir de mandar notcias para a famlia de Gytha? Eles precisam ser informados sobre todo esse problema.
     - Sim, milorde. E tentarei inform-los com toda a... gentileza.
     - Faa isso. Serei eternamente grato. Roger,  melhor irmos de uma vez. - Ele sorriu com frieza. - No podemos fazer Charles Pickney esperar...
     - No. E claro que no. - Roger tomou a mo de Margaret e levou-a aos lbios para um beijo. - Eu volto assim que puder, meu corao.
     Os dois homens j se retiravam. J do lado de fora do quarto, Thayer murmurou para Roger:
     - Vamos precisar muito da ajuda divina.
     Os homens esperavam no salo, j armados e prontos para a jornada.
     - Ainda no tem um plano?
     - No. Nada. No consigo pensar. Toda a minha ateno est em Gytha e no mal que ela pode sofrer.
     Roger abriu as pesadas portas para o grande salo.
     - Ningum vai se surpreender com isso - disse. Thayer dirigiu-se  mesa e esperou que seus homens o seguissem.
     - Eu sou o lder - ele murmurou para o amigo em voz baixa. - Um homem com o raciocnio prejudicado no pode liderar um exrcito.
     - Pensaremos em alguma coisa enquanto nos dirigimos a Saitun Manor, velho amigo. J fizemos isso antes.
     Thayer sentou-se. Os criados serviam uma refeio simples, mas muito nutritiva. Comeriam enquanto conferenciavam e se preparavam para enfrentar os perigos que 
os aguardavam l fora. Thayer comia sem sentir o sabor dos alimentos. Estava devastado. Um plano apressado e sem nenhum cuidado no parecia ser o suficiente. No 
quando havia tanto em jogo.
     - Talvez tenhamos de segui-los - ele sugeriu, desistindo de comer.
     - Em que direo? - Roger perguntou. - A trilha no  certa ou clara. Eles podem ter seguido em dez direes diferentes. Seria perda de tempo e desgaste desnecessrio 
de homens e cavalos. Melhor se preparar e seguir diretamente para Saitun Manor. Voc sabe disso.
     - Sim, eu sei, mas queria minha deciso confirmada. O temor pela segurana de Gytha abala minha confiana. Duvido de minhas atitudes e estou sempre hesitando, 
sem saber se j cometi algum erro ou se deveria ter agido diferente em algum momento.
     - E um homem de batalha. Siga seus instintos. Oua o corao que lhe rendeu o apelido de Diabo Vermelho.  isso que nos mantm vivos. E vai garantir a sobrevivncia 
de Gytha tambm. Acredite nisso, Thayer.
     - Se eu puder encontrar esse instinto...-Thayer murmurou desanimado. O homem que havia liderado e sobrevivido a tantas batalhas parecia no existir mais dentro 
dele, sufocado pela preocupao e pelo medo. O amor podia despertar a covardia em um homem.
     Ele olhou para os bravos combatentes reunidos  sua volta enquanto era devorado por essa ltima idia. Por mais que houvesse tentado ignorar o sentimento, sabia 
que amava Gytha. Era essa emoo que despertava tanto medo, agora que ela estava em perigo. Por isso ele se sentia inundado pela desesperada necessidade de traz-la 
de volta  segurana, por isso via o fracasso como a prpria morte, embora no tivesse de ser assim. O amor que sentia por ela explicava muitas coisas, como atitudes 
que tomara, palavras que dissera ou coisas que sentira. Havia descoberto o que um homem precisa ter para se sentir completamente vivo. No era de estranhar que no 
conseguisse nem mesmo raciocinar diante da possibilidade de perder tudo isso.
     Ter alguma explicao o ajudava a recuperar parte da compostura, mesmo que fosse fria e forada. Ele se concentrou em ouvir os planos que eram sugeridos por 
seus homens. Nenhum deles era perfeito. A idia de Torr era a que despertava mais esperana. J havia pensado nela e a descartado em um dos poucos momentos de sanidade 
desde o rapto de Gytha. Infelizmente, Torr no sabia como solucionar o ponto mais fraco do plano. Como chegariam a Saitun Manor sem serem vistos? Nenhum deles conseguia 
lembrar uma entrada que pudesse usar para ganhar acesso ao interior da fortaleza. Se o castelo possua uma rea desprotegida e oculta, s a famlia tinha conhecimento 
dela, e William levara o segredo para o tmulo.
     Aceitando com pesar a necessidade de traarem um plano durante a jornada, j a caminho do campo de batalha, Thayer decretou que era hora de partirem. Ele parou 
por um momento quando, entre Merlion e Roger, se preparou para montar. Seu orgulho odiava revelar uma fraqueza, mas sabia que tinha esse dever moral com os dois 
amigos.
     - Roger, observe-me com ateno - ele disse.
     - No  o que sempre fao? Proteger sua retaguarda?
     - No me refiro a minha retaguarda, mas a mim. Fique de olho em mim. E voc tambm, Merlion.
     Roger franziu a testa.
     - No sei se entendi.
     - No estado em que me encontro, posso cometer algum tipo de sandice. Uma loucura.
     - Voc parece bem calmo - Merlion opinou depois de montar. - E tem razes de sobra para estar alterado.
     - Com ou sem razo, cuidem de mim. O que ferve em minha alma  justamente o que pode causar a morte de um homem. A calma que aparento  tnue. Essa  uma situao 
em que no podemos nos guiar pela emoo, mas ela  to forte em mim que pode facilmente assumir o comando. Vocs tm minha permisso para arrancar-me da liderana, 
caso eu comece a agir de maneira estranha ou de forma a pr em risco as vidas que levo para o campo de batalha. Jurem que no me seguiro cegamente, porque s Deus 
sabe aonde posso lev-los dessa vez. Para ser um bom lder na luta, um homem precisa ter sangue-frio e cabea no lugar. No disponho de nenhuma dessas coisas no 
momento. Agora jurem - ele exigiu enquanto montava.
     - Eu juro - Roger respondeu sem hesitar. Merlion tambm fez seu juramento. - Mas rezo para que no cheguemos a esse ponto.
   CAPTULO VII
     Gytha lutou contra a conscincia, porque com ela veio a dor. Uma dor lancinante que castigava sua cabea. Vozes invadiam o torpor a que tentava se agarrar. 
Cada rudo, cada pequeno movimento intensificava a dor.
     Abrindo os olhos com cautela, ela aceitou resignada o fato de que no teria mais o consolo da inconscincia. Tinha ps e mos amarrados. Estava sobre uma carroa, 
no meio de sacos e barris. No precisava olhar para o cu para saber que a carroa viajava em alta velocidade. Os solavancos que a sacudiam eram prova disso.
     Tentando no pensar muito na dor, ela se virou de lado para encontrar posio menos desconfortvel entre os sacos, protegendo-se contra os solavancos. Tanta 
agitao no faria bem ao beb.
     Mudar de posio tambm serviu para aliviar a dor na cabea, mas o dio contra Elizabeth s fazia crescer. Cara na armadilha da vbora!
     Inclinando um pouco o pescoo, ela olhou para os dois homens na frente da carroa. Via costas largas, prprias de adultos. Talvez eles tivessem alguma notcia 
de Bek...
     - Ah, finalmente acordou! - um deles exclamou olhando para trs.
     - O menino...? - Gytha tinha a garganta to seca que falar era dolorido.
     - Ns o deixamos para trs. No precisamos dele.
     - Como ele est?
     - Quem sabe? No tive tempo para olhar. E a fina dama tambm no parou para examinar o garoto. Passou por cima dele e fugiu to depressa quanto podia. Por que 
ficar? Ela j havia cumprido o que havia prometido.
     - Sim... colocou-me nas mos de Pickney...
     - Logo estar com ele.
     Era a confirmao de que precisava. J havia imaginado que Charles Pickney estava por trs disso. Mesmo assim, ter certeza s servia para desanim-la ainda 
mais.
     Pior ainda era no ter notcias de Bek. Queria ter certeza ao menos de que o menino estava vivo, ou de que Elizabeth, tomada de assalto por um resqucio de 
instinto maternal, cuidara de seus ferimentos antes de fugir. Em vez disso, levava na mente apenas a ltima imagem do garoto, uma viso que s alimentava seu tormento.
     Se estava sendo levada para Pickney, isso significava que a vida de Thayer corria perigo, ela compreendeu com um sobressalto de pavor. Seria usada como isca 
para atrair o marido para a morte. Era horrvel pensar nisso, mas sabia que no podia ignorar o fato. Pelo bem de Thayer, era importante que enfrentasse realmente 
o perigo. Se havia alguma chance de frustrar os planos de Pickney, mesmo que pequenas, ela precisava estar alerta para poder agarr-la rapidamente.
     Fechando os olhos, ela decidiu que sua situao era desesperadora. A sensao de derrota era inevitvel e premente, e por um momento se deixou dominar pelo 
pessimismo.
     A carroa parou, arrancando-a do poo de lamrias. Quando olhou em volta tentando localizar-se, Gytha foi tomada por um novo desconforto. Podia ver que os pulsos 
estavam inchados em conseqncia da imobilidade forada. No precisava olhar para os tornozelos para saber que estavam em pior estado.
     Ela deixou escapar um grito assustado quando um dos homens, o mais baixo e truculento, tirou-a da carroa e a ps em p no cho. No conseguia sustentar o prprio 
corpo. Mesmo amarrada, conseguiu usar a carroa como apoio para as costas, evitando a queda. Os dois homens comeavam a montar um acampamento.
     - Preciso de ajuda - ela anunciou em tom altivo e imperioso, aliviando a humilhao.
     - Henry, escute s a moa - disse irnico aquele que a tirara da carroa. - Cuide de si mesma, milady!
     - Se no precisasse de ajuda, nem me rebaixaria a ponto de dirigir a palavra a dois vermes como vocs. Vocs me amarraram com cordas muito apertadas. Tenho 
mos e ps inchados, o que significa que no posso me mover sozinha. Se cair, posso prejudicar o beb que estou esperando.
     - Rasteje, ento. - Henry encolheu os ombros. - Eu e John temos mais o que fazer.
     - E Pickney vai ficar satisfeito se voc perder o beb - acrescentou John.
     - Talvez ele fique, mas meu marido, o Diabo Vermelho, ser tomado por sua fria assassina.
     - Ele que se enfurea. Vai morrer antes de poder fazer alguma coisa. John e eu no precisamos ter medo dele.
     - No? Quem pode afirmar que ele vai morrer?
     - Bem, Pickney planeja... - John comeou.
     - Nem sempre os planos se desenrolam como queremos - ela o interrompeu, sorrindo ao ver que conseguia  deix-los preocupados. - Um homem esperto refletiria 
cuidadosamente sobre seus movimentos.
     - O que quer dizer? - Henry estava inquieto.
     - Bem, um homem realmente sensato tentaria agradar aos dois lados.
     - Ningum  capaz disso - John argumentou com uma risada nervosa.
     - No? Pickney quer que eu seja levada at ele com vida. O Diabo Vermelho me quer viva e ainda com seu filho no ventre. No sei onde est a dificuldade de atender 
aos dois lados. S  necessrio um pouco mais de cuidado. Lembrem-se de que o Diabo Vermelho  conhecido por sair vitorioso de todas as batalhas. Que batalhas Charles 
Pickney venceu?
     - V ajud-la, John.
     - Por que dar ouvidos a ela? - John resmungou enquanto ia ampar-la.
     - Porque ela demonstra muita sabedoria para uma mulher.
     Gytha foi levada para perto do fogo, onde se sentou, precisava convenc-los a mudar as amarras, pois sabia que no as removeriam. As cordas que impediam a circulao 
causavam dor, e sabia que seriam prejudiciais ao beb.
     - Acredita no que ela diz? - John perguntou ao companheiro.
     - Sim. Pickney tem bons planos, mas estamos esquecendo de considerar quem  o inimigo. O Diabo Vermelho j enfrentou homens mais valorosos que Pickney e sobreviveu. 
E est vivo at hoje.
     - Bem, pensando por esse lado... Por que nos colocamos do lado de Pickney, ento?
     - Porque recebemos um bom dinheiro por isso, idiota.
     - No vamos poder gastar essas moedas se formos mortos.
     - E verdade. Mas o Diabo Vermelho luta com justia, enquanto Pickney se vale de traio. Por isso achei que ele pode ter alguma chance de vitria. - Henry olhou 
srio para a prisioneira. - Agora tenho dvidas. Pickney j o atacou  traio outras vezes, e ele sempre escapou. E  bem possvel que ele desista de jogar limpo 
quando se vir encurralado, o que o tornar ainda mais perigoso.
     - Ento... vamos fugir? Vamos escapar antes que a armadilha se feche sobre ns?
     - No. No podemos fugir. Pickney nos mataria por isso. Forjamos nosso caminho e agora devemos percorr-lo at o fim. O que podemos fazer  assegurar que a 
mulher do Diabo Vermelho no sofra nenhum mal em nossas mos.
     - Mas ns a raptamos!
     - Pickney ordenou o rapto. Somos apenas criados, homens contratados para seguir ordens. Isso pode nos salvar. Ele vai se voltar contra Pickney e aquele outro 
idiota chamado Robert, mas no vai perder tempo com seus seguidores. Estaremos salvos se tomarmos cuidado com a senhora. Agora, deixe de ser covarde. Precisamos 
comer e descansar. Pickney nos espera amanh cedo.  melhor no nos atrasarmos.
      John seguiu os conselhos de Henry, e Gytha praguejou mentalmente. Por um momento havia esperado que o medo de John pudesse faz-los fugir, tentar escapar de 
Thayer e Pickney. Infelizmente, Henry no era apenas mais inteligente, mas era mais calmo que o parceiro, tambm.
     - Ento - ela resmungou para si mesma -, preciso ao menos de um pouco mais de conforto. - Estendendo as mos, ergueu a voz. - Preciso ser desamarrada. Henry 
a encarou e gargalhou.
     - Acha que somos desmiolados, mulher? Gytha no respondeu. Queria assust-los para tornar sua viagem mais fcil, e responder ao comentrio com as palavras speras 
que gostaria de dizer s os enfureceria e pioraria sua situao.
     - No v o que essas cordas me causam? - Ela mostrou os punhos e os tornozelos inchados.
     - No  nada com que deva se preocupar, mulher.
     - No? No me surpreende que no possa perceber o mal que isso pode causar. Duvido que tenha filhos. Esse inchao pode ser muito prejudicial para uma mulher 
grvida.
     - No me interessa. - Apesar das palavras, Henry aproximou-se dela e olhou apreensivo para seus pulsos.
     - Como poderemos mant-la sob controle se a desamarramos? Tola!
     - Tenho certeza de que homens to espertos podero pensar em alguma coisa. - Sabia que no conseguia banir da voz o desprezo, mas esperava que eles atribussem 
o tom  simples arrogncia aristocrtica. - Uma mulher grvida tem necessidade de momentos de privacidade. Se continuar hesitando, vai descobrir que digo a verdade 
e ns dois sofreremos um grande constrangimento.
     Quando finalmente desamarrou suas mos e seus tornozelos, Henry resmungou:
     - Entendi o que quer dizer, mas no vai se afastar daqui sozinha.
     - Afastar-me sozinha  o principal significado de ter momentos de privacidade.
     - Bem, a sua privacidade vai se restringir a eu me virar de costas. Vamos.
     Cambaleando, Gytha o acompanhou por entre alguns arbustos. Sua necessidade era to desesperada, que ela nem pensou em discutir com o homem. Duvidava mesmo de 
que houvesse algum argumento capaz de faz-lo mudar de idia. Apesar de ter conscincia de tudo isso, foi com grande constrangimento que ela se abaixou entre os 
arbustos enquanto o bandido lhe dava as costas. Era humilhante. Como se no bastasse, ainda precisou se apoiar no miservel para voltar ao acampamento, porque a 
circulao deficiente resultante das amarras dificultava o simples ato de caminhar.
     Assim que ela se sentou ao lado do fogo, John colocou uma vasilha e uma colher de pau em suas mos. A mistura parecia encaroada e pouco convidativa, mas estava 
faminta demais para recusar o alimento. A comida no tinha sabor, a textura era intolervel, mas ela comeu tudo e bebeu todo o vinho que lhe foi servido.
     Quando Henry se aproximou com uma corda, ela recuou. S agora encontrava pleno alvio para a dor e o inchao. No suportaria enfrentar tudo outra vez. Para 
evitar o tormento, jurou que no tentaria escapar.
     - No vou amarrar forte como antes, madame - explicou Henry com tom impaciente.
     - Precisa amarrar a mulher - John protestou. -  claro que ela vai fugir.
     - Pretendo prend-la a mim. Cintura com cintura. A escolha  sua, madame.
     Gytha cobriu o estmago com as mos.
     - No pode amarrar minha barriga. A criana...
     - A corda vai ficar acima da criana. E ento? Depois de uma breve hesitao, ela assentiu. Qualquer coisa seria melhor do que a dor que sentira. Se experimentasse 
algum desconforto, reclamaria ao primeiro sinal.
     A maneira como ele a amarrou forava uma certa proximidade. Gytha tentou ignorar a repulsa, mesmo quando teve de dividir um cobertor com o bandido e se deitar 
ao lado dele no cho. De olhos fechados, colocou alguma distncia entre eles, o mximo possvel naquelas circunstncias, e tentou encontrar conforto na inconscincia 
do sono.
     - L esto eles.
     Ao ouvir o anncio de Henry, Gytha olhou na direo indicada por ele. Sua nica restrio era a corda que a mantinha presa  carroa pela cintura. Como o n 
estava bem perto de Henry, ela no tinha nenhuma chance de se soltar, e duvidava de que pensasse em tentar, quaisquer que fossem as possibilidades. Saltar de uma 
carroa em alta velocidade seria um risco maior do que se dispunha a assumir. Porm, quando viu Charles Pickney, ela contemplou essa ao por um instante, pensando 
que talvez fosse dos males o menor.
     A carroa parou na entrada de um acampamento. L estava Charles. Ela notou que o homem tinha no mximo duas dzias de homens armados, garantindo sua segurana. 
Quando Robert e Pickney se aproximaram da carroa para estud-la, ela os encarou com ousadia e firmeza. O olhar de Pickney fixo em seu ventre a assustou, mas ela 
tentou esconder o medo. Robert parecia perplexo. Ela disse a si mesma que estava se concentrando em algo sem importncia. Era Pickney que devia observar. Ele era 
o lder.
     - Est grvida. - Pickney cerrou os punhos, contendo o impulso de esmurr-la.
     - Quanta astcia. A gravidez  algo que ocorre com relativa freqncia a uma mulher que tem um marido.
     - Chega de impertinncia! Maldito seja aquele homem e maldita seja voc! Vamos ter de resolver esse problema.
     As palavras geladas de Pickney a encheram de pavor. Robert tambm parecia aterrorizado. Havia um limite para o que ele podia endossar. Gytha s precisava descobrir 
se Robert poderia encontrar coragem para impedir o que o horrorizava, ou se podia dar a ele essa coragem de alguma maneira.
     - Eu no faria tantos planos - ela disse a Pickney com tom gelado, sem sequer tentar esconder o dio que sentia por ele.
     - E tola o bastante para pensar que seu grande Diabo Vermelho pode vencer dessa vez?
     -  tolo o bastante para pensar que ele no pode?
     - Mulher, eu a fiz prisioneira, e por seu intermdio, logo me apoderarei de Saitun Manor. Agora peguei aquele bastardo vermelho.
     - Ainda no.
     -  melhor tomar cuidado, milady. Como j disse, voc agora  minha prisioneira.
     - Nesse caso,  melhor me manter bem presa, senhor, porque posso ser o nico obstculo a separ-lo da morte mais do que merecida nas mos de meu marido. Fica 
a parado se gabando como se j houvesse vencido, mas  melhor no contar vitria antes do tempo, porque a batalha ainda nem comeou.
     Notando como as palavras de Gytha enfureciam seu tio, Robert ousou murmurar:
     - Cuidado, Gytha.
     - Sim, oua o conselho do idiota do meu sobrinho. No  inteligente me desafiar. - Ele se virou para os homens. -Vamos embora! E hora de seguirmos para Saitun 
Manor!
     Por um momento Gytha teve a impresso de que Robert ia falar com ela, mas ele correu atrs do tio sem dizer nada. O grupo partiu depressa demais, em sua opinio. 
Era evidente que Pickney no queria correr o risco de ser alcanado por Thayer em espao aberto. Desviando os olhos dos homens que seguiam na frente do grupo, Gytha 
notou que Henry olhava para ela. Havia preocupao nos olhos dele.
     - Robert pode ser idiota, mas ele disse a verdade - O rapaz comentou depois de um momento. - E melhor tomar cuidado, milady. Pickney costuma ter acessos de 
fria. Ele planeja cas-la com o pateta que chama de sobrinho, mas isso no o impedir de atac-la, caso provoque sua ira. Ele  capaz de matar. - Henry afastou-se, 
incitando John e os outros a aumentarem a velocidade do trote.
     Gytha acomodou-se entre os sacos na carroa. No estava pensando no aviso que acabara de receber, mas no motivo que o prontificara. De repente compreendia que 
havia julgado Henry e John mais perigosos do que realmente eram. Eles no a trataram mal. Eram grosseiros, sim, ignorantes, sem dvida, mas no eram cruis. Cumpriam 
ordens, nem mais nem menos. Mas agora notava que eles tambm tinham limites. Fechando os olhos, decidiu descansar e pensar em um jeito de usar todas essas recentes 
descobertas.
     - Ela dormiu. - Ouviu Henry comentar um pouco mais tarde.
     - Como consegue dormir em uma carroa que sacode tanto? - John estranhou.
     - Ouvi dizer que uma mulher grvida  capaz de dormir em qualquer lugar.  estranho, mas parece que  verdade.
     - Sim, e h outra coisa que tambm  verdade. Ns nos metemos em uma confuso muito maior do que nos fizeram acreditar que seria.
     - Tudo por causa daquele bastardo. Maldito Pickney! Eliminar um herdeiro, ele disse. Casar o idiota do sobrinho com essa mulher. E ns acreditamos nele. S 
ouvimos o tilintar das moedas, tolos que somos. Isso tudo  muito mais srio do que se livrar de um herdeiro problemtico.
     - E podemos cair em desgraa com ele. Acha que ele falou srio quando ameaou a criana que a mulher est esperando? - sussurrou John.
     - Alguma vez o homem fez uma ameaa que no pretendesse cumprir?
     - Confesso que no gostei nada de saber sobre o assassinato dos dois homens, mas pensei... Bem, eles podem lutar, e  assim que funciona toda essa coisa de 
cavalaria, nobres e duelos. Roubar a esposa de outro homem? - John encolheu os ombros. - Acontece muito. Nada de grave. Mas agora ele fala em matar um beb. Um beb, 
Henry! E acho que esse louco vai matar tambm a mulher, quando no tiver mais utilidade para ele.
     - Sim, ele  capaz disso. Pickney pode realmente matar mulheres e bebs. Tenho mais pecados pesando sobre minha alma do que gosto de pensar, mas nada to horrendo. 
Nunca sujei minhas mos com o sangue de mulheres e crianas. E nem pretendo cometer essas atrocidades.
     - Ento, podemos fugir agora? Vamos escapar antes que isso v mais longe?
     - Como? Se levarmos essa carroa para qualquer lugar que no seja o caminho indicado por Pickney, ele nos matar.
     - Estamos perdidos, ento.
     - Talvez. Talvez no. Vamos ver o que acontece em Saitun Manor.
     Gytha esperou tensa, mas nada mais foi dito. Outra chance, ela pensou, tentando no alimentar muitas esperanas. John e Henry podiam no ser totalmente maus, 
mas isso no queria dizer que seria capaz de convenc-los a ajud-la. Era mais provvel que eles estivessem pensando apenas em salvar a prpria pele. Para escapar 
das conseqncias do crime hediondo que acreditavam ser inevitvel, eles simplesmente fugiriam. E nada fariam para evitar a atrocidade.
     - Acorde, milady. O castelo est bem diante de ns.
     - Ah, Henry. - Ela piscou sonolenta sentando-se na carroa. - Estou acordada... mais ou menos.
     - Dormiu durante toda a jornada - John resmungou.
     - Ajuda a passar o tempo - ela respondeu. Haviam reduzido a velocidade de forma a no tornar a aproximao ameaadora. Gytha se sentiu desanimada quando eles 
foram recebidos quase com cordialidade pelos homens na muralha. Chegara a ter esperanas de que Thayer houvesse enviado um mensageiro para os homens na propriedade, 
qualquer coisa que os prevenisse contra Pickney. A velocidade em que viajaram matara essa esperana. Nenhum mensageiro poderia t-los ultrapassado. A idia de gritar 
um alarme tambm foi abandonada quando Pickney se aproximou da carroa.
     - Nem uma palavra, senhora - ele murmurou, puxando um manto sobre a corda presa em sua cintura.
     Ela engoliu o grito que se formava em sua garganta. Tudo que podia fazer era rezar para que seu silncio no causasse a morte dos homens que guardavam o castelo. 
O medo pelo beb a fez calar. Esperava que o custo de salvar essa vida ainda em formao no fosse um terrvel derramamento de sangue.
     - Levante-se agora - Pickney ordenou assim que passaram pelas muralhas da propriedade. - Levante-se para que eles possam ver que voc  minha prisioneira.
     No momento em que ela obedeceu  ordem, revelando-se amarrada, o som de espadas sendo removidas de suas bainhas ecoou pelo ptio. Pickney tambm empunhou sua 
espada e a aproximou dela. Gytha quase nem respirava. Todos os homens que guardavam a fortaleza ficaram imveis.
     - Quero todos os homens no ptio. Agora! E todas as armas descartadas - Pickney gritou quando, relutantes, os defensores do castelo comearam a se reunir. - 
No faam nenhuma tentativa corajosa de resgate, ou matarei sua senhora. E com ela ir o herdeiro de seu senhor... o Diabo Vermelho.
     Ningum esboava reao. Para grande alvio de Gytha, Pickney no matou os prisioneiros desarmados que tinha acabado de fazer. Em vez disso, ordenou que todos 
fossem trancafiados nas masmorras. S quando se certificou de que a ordem havia sido cumprida ele removeu a espada do pescoo da refm. Gytha caiu sobre os sacos 
na carroa. Enquanto Pickney se dedicava a tomar posse do castelo, ela foi deixada aos cuidados de Henry e John.
     - Parece que a chave para a porta de uma propriedade fortificada  uma mulher - Henry comentou enquanto puxava a carroa para o estbulo.
     - Duvido que funcione com todas as mulheres - John respondeu, ajudando o amigo a estacionar o veculo.
     Gytha estava sendo retirada da carroa pelos dois homens quando ouviu o som de um choro abafado. Choro de mulheres. Ela viu Pickney e seus homens reunindo no 
ptio todas as mulheres e crianas da fortaleza. A maneira como o grupo indefeso era cercado por homens armados a enervava. Compartilhava do pavor que as mulheres 
no conseguiam esconder, pois no era capaz de imaginar o que Pickney pretendia para elas e seus filhos.
     Olhando para o rosto srio de Henry, ela perguntou:
     - O que vai acontecer com elas?
     - Pickney vai trancafi-las. Ele quer tirar do caminho todos que possam tentar ajudar os homens ou voc. Alm do mais... - Ele hesitou antes de prosseguir. 
- O Diabo Vermelho no vai demorar para aparecer. Venha. - Segurando-a pelo brao, ele a levou para o castelo. - Recebi ordens para coloc-la no quarto da torre 
oeste.
     Uma vez no aposento da torre, Gytha sentou-se na cama. Sentia-se exausta e totalmente derrotada. Logo Thayer chegaria, mas no encontraria um jeito de salv-la 
ou de salvar a prpria vida. E ela no conseguia pensar em como poderia impedir Pickney de us-la como isca para atrair Thayer a uma armadilha mortal. S podia rezar 
para que Thayer tivesse alguma maldade nele, porque traio e crueldade seriam suas nicas possibilidades de sobrevivncia. S assim Pickney seria derrotado.
     Aproximando-se da janela, ela olhou para baixo, para o ptio. Os homens de Pickney se preparavam para a chegada de Thayer. Por que eles se armavam para uma 
batalha que Pickney no tinha inteno de lutar? Ele a usaria para matar Thayer, depois a usaria para impedir os homens de Thayer de buscar vingana.
     Por um momento ela lamentou a gravidez que complicava tudo, que a mantinha paralisada quando mais precisava agir. Cada movimento tinha de ser bem planejado 
para no pr em risco a integridade da criana. Em seguida ela tocou o prprio ventre num pedido silencioso de desculpas. Pickney era o nico culpado de toda a confuso 
em que ela estava metida.
     Seus pensamentos foram interrompidos pelo som de algum abrindo a porta. Pickney e dois de seus seguidores mais fieis e prximos, Thomas e Bertrand, entraram 
com ar confiante. O sorriso vitorioso nos lbios de Pickney a enfurecia. Adoraria apag-lo com um soco violento.
     - Lady Gytha, em breve poder ver o Diabo Vermelho encontrar a morte - ele anunciou com tom rouco e sinistro.
     - Senhor, talvez eu prefira assistir a sua morte. E rezo Deus para que ela seja lenta e dolorosa. Infelizmente, receio que meu marido seja incapaz de descer 
tanto quando o senhor.
     Pickney a atingiu no rosto com o dorso da mo. Gytha mal conteve o grito de dor ao ser jogada contra a parede. O sabor de seu prprio sangue explodiu em sua 
boca. Examinando o interior da boca com a lngua, ela descobriu que a bofetada provocara um corte em uma das laterais. Banindo do peito uma violenta onda de dio, 
ela se forou a recordar o aviso de Henry. Pickney estava tomado pela fria, e ela era o objeto desse sentimento. No queria expor-se mais do que o necessrio.
     - Eu venci, mas  claro que voc precisa de mais para aceitar essa vitria. Logo ter as evidncias que tanto deseja, milady. Porei em suas mos a cabea do 
arrogante Diabo Vermelho.
     Gytha sentiu uma sbita vontade de vomitar, mas lutou contra o impulso. Negava-se a recusar qualquer tipo de fraqueza diante de Pickney.
     - Um dia, senhor, vai pagar por esses crimes que comete com tanta alegria.
     Antes que ela pudesse dizer mais, um homem empurrou a porta e espiou para dentro do quarto.
     - Uma fora se aproxima das muralhas, senhor - ele anunciou.
     Pickney assentiu.
     - Bertrand, quando eu der o sinal, voc deve segurar a mulher diante da janela para que ela seja vista claramente pelo homem. - Ele riu, olhando uma ltima 
vez para Gytha antes de sair do quarto seguido por Thomas e o outro ajudante. - Parece, milady, que seu marido est muito ansioso para morrer.
     - Pickney!
     Thayer gritou para as muralhas de Saitun Manor enquanto lutava contra a fria cega. Ao ver o castelo, sentira vontade de cavalgar diretamente para os portes 
num gesto de loucura. Quando Pickney apareceu sobre a muralha, ele empunhou a espada, reconhecendo uma vontade inusitada de matar. Jamais havia experimentado tal 
sensao antes.
     - Ah, o grande Diabo Vermelho clama diante de minhas muralhas - Pickney respondeu com tom debochado.
     - So minhas muralhas, bastardo! Mas no  sobre esse roubo que vim tratar. Onde est minha mulher?
     - Sua mulher? Por que eu saberia do paradeiro da meretriz?
     - Quando eu puser as mos nesse desgraado, ele ter uma morte lenta e dolorosa - Thayer disse a Roger e Merlion, que o escoltavam. Depois ele ergueu a voz 
novamente. - Sua aliada preza mais a prpria vida do que a lealdade que professou a voc, idiota! Ela me contou tudo.
     - Ah... aquela mulher. Sua esposa. Sim, ela est comigo, mas vai ter de pagar para reav-la.
     - No discutirei mais nada antes de ver Gytha viva e bem.
     - Como quiser.
     Thayer viu Pickney acenar chamando algum. O homem apontou para a torre oeste. Olhando naquela direo, Thayer praguejou com ferocidade. Gytha estava precariamente 
equilibrada no parapeito da estreita janela da torre. Seu temor s arrefeceu um pouco quando ele viu as mos que a seguravam pelos braos. Algum impedia a queda. 
Porm, essa mesma pessoa poderia arremess-la para a morte.
     - Gytha - ele gritou, sem saber se a voz poderia chegar to longe -, voc est ferida?
     Ela balanou a cabea. Seu pavor era evidente.
     - Muito bem, Pickney, j a vi. Mande seu homem tir-la de l.
     Segundos depois, Gytha era levada para o interior da torre.
     - Ento, Diabo Vermelho, agora entende que eu estou no comando. Ter de se curvar  minha vontade.
     - Isso  o que vamos ver. O que voc quer?
     - No momento, creio ter tudo que desejo. Ah, no, ainda h uma coisa.
     Thayer continha a fria com grande esforo, concentrando os pensamentos na segurana de Gytha e do beb. Sabia que Pickney era um homem desequilibrado e perigoso. 
Precisava fingir que fazia seu jogo.
     - E que coisa  essa? - ele perguntou.
     - Voc.
     - Eu? Quer que eu entre no castelo, ento?
     - Sim, desarmado.
     - Para que possa me matar sem correr nenhum risco.
     - Sua vida pela da mulher.
     - No - Roger murmurou a seu lado. - Thayer, no pode ceder to depressa.
     - Ele no vai me dar muito tempo, Roger.
     - Ah, ele vai, nem que seja apenas para poder saborear o que considera ser uma vitria certa.
     - No acredita nessa vitria? Roger suspirou.
     - Acabamos de chegar. Estamos cansados e tensos. Ganhe algum tempo para ns. Precisamos estudar o lugar e tentar adivinhar o que ele realmente pensa. Deve haver 
alguma soluo que no seja a de se entregar  morte como um antigo cordeiro de sacrifcio.
     Thayer olhou para cima e viu Robert ao lado do tio.
     - L est a sombra de Pickney - ele disse, certo de que o rapaz jamais ousaria ajudar Gytha. - Pickney, tenho a impresso de que est esperando que eu ceda 
sem nenhuma garantia de retorno ou benefcio!
     - Voc no tem escolha, Diabo Vermelho. Porm, se acha que no pode atender s minhas exigncias...
     - Eu no disse isso.
     - No? Bem, hoje estou de bom humor. Sinto-me quase generoso, sabe? Vou lhe dar um tempo. Fique a ruminando em vo, se quiser. Tente inutilmente encontrar 
uma sada, uma soluo que ns dois sabemos que no existe. Voc tem at amanh, nessa mesma hora, para aceitar a derrota.
     Thayer virou o cavalo e retornou para o local onde seus homens haviam montado acampamento. Roger e Merlion o seguiram. A gargalhada sarcstica de Pickney ecoava 
em seus ouvidos. Thayer parou o cavalo, desmontou e foi se sentar sozinho sobre uma pedra no extremo oposto do acampamento. Precisava dominar as emoes. Estava 
comeando a superar o pior momento de angstia, quando ouviu algum se aproximar. A mo firme sobre seu ombro anunciou a presena de Roger.
     - Parece que falhei mais uma vez com a pobre Gytha, Roger.
     - Voc no falhou - o homem respondeu depois de se sentar ao lado do amigo.
     - No? Ela  prisioneira de um louco e no posso resgat-la. No h salvao para Gytha, nem mesmo se eu oferecer minha cabea a Pickney numa bandeja de prata. 
Tudo isso s vai mant-la viva por mais um tempo. No percebe?
     - No. O que vejo  s um plano bem-feito. Pickney criou uma armadilha ardilosa, e voc no pode sempre evitar todas elas. Mas isso no significa que a armadilha 
vai funcionar.
     - Pensou num meio de resolver a questo, no ?
     - Ainda no, mas temos tempo. Assim que escurecer, os homens iro vasculhar toda a rea em torno de Saitun Manor e as muralhas do castelo em busca de alguma 
coisa, seja um buraco de ratos ou um ponto fraco na guarda, no importa. Se esse lugar existe, ns o encontraremos.
     Thayer assentiu.
     - Pickney no pretende libertar Gytha, mesmo que eu cumpra sua exigncia.
     - No. Todos ns sabemos disso. Por essa razo os homens vo vasculhar a rea at encontrarem aquilo de que precisamos. Caso contrrio, voc perderia sua vida 
por nada, e ns nem teramos a chance de vingar sua morte. Os homens sabem que a vida de seu herdeiro tambm est em jogo. Se no encontrarem uma entrada para a 
fortaleza,  porque ela simplesmente no existe. E isso  impossvel. Sabemos bem que sempre h uma passagem qualquer.
     - Espero que esteja certo. Seno, amanh caminharei para a morte mesmo sem saber se ela ser a libertao de Gytha. Ser uma maneira terrvel de morrer.
     - Ento, por que ainda a considera?
     - Porque no poderia viver se me negasse a cumprir a exigncia e Pickney a matasse. Fazendo o que ele quer, pelo menos ganharei mais algum tempo para Gytha. 
Nesse tempo voc poder tentar libert-la. Se eu tiver de me entregar, quero que jure que vai continuar lutando para tir-la de l.
     - Eu juro. E juro tambm que no descansarei enquanto no puser um fim na vida daquele bastardo desgraado. Nem que tenha de derrubar as muralhas de Saitun 
Manor pedra por pedra para chegar at ele.
     Thayer sentiu-se confortado pelo juramento. Se tivesse de ir ao encontro da morte no dia seguinte, iria certo de que Gytha ainda teria um protetor. Algum faria 
Pickney pagar por seus crimes. Mas sua maior esperana era que, antes do final da noite, seus homens encontrassem uma forma de invadir a fortaleza.
     Gytha olhou pela janela e viu a luz do fogo no acampamento de Thayer. Queria estar com ele, abra-lo e encerrar esse tormento.
     Um rudo na porta interrompeu seus pensamentos.
     Sem nenhum interesse, ela viu Henry deixar a comida sobre uma mesa enquanto John se mantinha na porta. Quando os dois a encararam, ela suspirou e foi se sentar 
na banqueta diante da mesa. Sentia fome. Era desleal pensar em comer quando a vida do marido estava por um fio, mas tinha de pensar na criana dentro dela.
     - Precisa comer, milady - Henry manifestou-se.
     - Por qu?
     - O beb em seu ventre...
     - Ah, sim. Devo engord-lo para ser morto, no ? Sabia que os atingia com esse tipo de comentrio.
       - No, milady. Deve dar  criana uma chance de sobreviver.
       Ela riu, mas partiu um pedao de po e outro de queijo, comendo-os sem pressa.
     - No minta! Sabe to bem quanto eu que Pickney no vai permitir que eu e o beb sigamos vivos. Mesmo que me deixe ter o beb, ser apenas para mat-lo assim 
que nascer. Trago no ventre um herdeiro para o lugar onde agora estamos. Sabe como Pickney lida com herdeiros, no sabe?
     - Talvez tenha uma menina.
     - E acha que isso vai mudar o destino do beb, Henry? No seja tolo! Se o rei descobrir que um de seus cavaleiros morreu deixando viva uma filha, ele a tomar 
sob sua proteo. E direito e dever de um soberano agir assim. Ele a entregar com todos os bens de Thayer a um cavaleiro qualquer, um sujeito que sinta necessidade 
de recompensar por um ou outro motivo. Pickney no vai querer correr esse risco.
     -Bem, no temos nenhuma participao nisso - John anunciou.
     - Ah, no? E quem me trouxe para c?
     - No conhecamos todo o plano de Pickney.
     - Declaram-se inocentes. Entendo. Bem, agora no podem mais alegar ignorncia. Conhecem as reais intenes de Charles Pickney, mas se negam a me ajudar.
     - No queremos morrer - Henry protestou irritado. - Somos vigiados. Pickney no confia em ningum.
     - E assim, vo ficar a parados enquanto ele os envolve em uma sangrenta seqncia de assassinatos. O fato de no empunharem a espada no manter suas mos 
limpas de sangue. Omisso no  sinnimo de inocncia, senhores.
     - E contrariar Pickney s servir para nos levar  morte, porque no conseguiremos cont-lo. - Henry recolheu a bandeja vazia. - No quero morrer, muito menos 
numa intil e tola tentativa de impedir algo que  inevitvel.
     - No pode nos culpar por isso - John gritou.
     - Ah, mas eu no os culpo! Sei como a fome pode induzir um homem a fazer qualquer coisa por um punhado de moedas. Sei tambm que muitos no consideram errada 
a inteno de Pickney, tomar o que no pertence a ele e ceifar vidas que encontre esse caminho, roubar a mulher de um homem para coloc-la na cama de outro... Infelizmente, 
essas coisas acontecem com freqncia suficiente para serem aceitas. E tambm no os culpo por desejarem seguir vivendo. Esse tambm  o meu maior desejo. Sendo 
assim, podem ir... e garantam sua segurana. No os condenarei por isso.
     A batida furiosa da porta no a surpreendeu. Tinha oferecido perdo com uma das mos, mas usara a outra para esbofete-los. Compreendia realmente o que os metera 
naquela confuso e por que no conseguiam sair dela. Mas sua vida e a do beb tambm estavam em risco, e era impossvel no se ressentir contra aqueles que recusavam 
ajuda. No pedia nenhum sacrifcio. S queria auxlio. Infelizmente, eles acreditavam que ajud-la equivalia a assinar a prpria sentena de morte, e nada os faria 
mudar de idia.
     - Resumindo, estou sozinha - ela murmurou enquanto caminhava de volta  janela com a caneca de vinho.
     Olhando para a luz da fogueira do acampamento de Thayer, ela tentou pensar em alguma coisa. Nenhum plano sobrevivia a uma anlise mais aprofundada. Todos precisavam 
de pelo menos mais uma pessoa, e no podia contar com ningum.
     O som de algum entrando em sua priso a fez pensar que, talvez, o destino pudesse estar mandando essa pessoa.
     Quando se virou e viu Robert, ela decidiu que o destino tinha um senso de humor cruel.
     - O que quer aqui, Robert? - indagou, sentindo uma estranha mistura de piedade e dio.
     - S vim me certificar de que no est sendo maltratada.
     - Maltratada? No! A priso  muito confortvel!
     - A torre  mais uma forma de mant-la segura.
     - E mesmo? Estranho... Com a tranca do lado de fora, deduzi que o objetivo era impedir-me de sair, no impedir a entrada de outras pessoas. Entende o que digo? 
Voc entrou, mas eu ainda no posso sair.
     Robert passou a mo pelos cabelos loiros. Gytha ainda era linda, apesar do ressentimento. E a queria tanto, que no conseguia dormir  noite pensando nela. 
Mas Thayer a tinha. Grande, vermelho e desajeitado, era ele quem se deitava com Gytha todas as noites. Uma injustia.
     - No gostaria de ser pega no meio da batalha - ele explicou, tentando parecer calmo.
     - Batalha? Que batalha? Seu tio no tem coragem para enfrentar Thayer. Ele me usa para atrair meu marido para a morte.
     O desconforto e a vergonha refletidos na expresso de Robert no a comoveram. Ele que se afogasse em vergonha. Seria um castigo merecido para algum to fraco.
     - No quero falar sobre isso - resmungou Robert.
     - No, e tambm no quer pensar nisso. Pois saiba que fingir ignorncia no vai salvar sua alma.
     - Serei um bom marido para voc, Gytha.
     - Acha mesmo que vou permitir que seja alguma coisa para mim, mesmo depois de participar do assassinato de meu marido?
     - Vai ter de se casar comigo! Esse  o plano de meu tio.
     - Ah, sim,  provvel que ele possa me obrigar a casar com voc. Combinando foras, tambm sejam capazes de me colocar em sua cama. Mas nada vai me obrigar 
a gostar de voc. Considerando que seu tio pretende matar meu filho...
     - No! Isso no  verdade! Ele nunca disse isso.
     - Disse. Voc ouviu e entendeu. Mas  evidente que se convenceu do contrrio. Mas no vai poder ignorar a realidade quando estiver diante do tmulo desse inocente. 
Ser tarde demais para agir, ento.
     De repente ela percebeu que a porta estava destrancada. Nervoso, Robert andava pelo quarto, deixando o caminho livre para ela. Podia sair. A pergunta era: o 
que faria depois disso? Permaneceria entre as muralhas de Saitun Manor, mas poderia se esconder em algum lugar, talvez at escapar por uma brecha qualquer. Eram 
chances mnimas, ela reconhecia, mas era melhor do que nada.
     Ela correu para a porta.
     - No, Gytha! Espere!
     Um corpo masculino bloqueava a sada e destrua suas esperanas. Dedos furiosos a agarravam pelos braos, empurrando-a de volta para o interior do quarto.
     Antes mesmo de erguer o olhar, Gytha soube que havia sido interceptada pelo furioso Pickney. Thomas e Bertrand o seguiam.
     - O que faz aqui, Robert? - Pickney perguntou. - Quase nos faz perder nosso trunfo!
     Depois de jog-la sobre a cama, ele esbofeteou o sobrinho com tanta fora que o rapaz cambaleou.
     Gytha ficou sentada na cama assistindo  cena. Robert nem tentou se esquivar do golpe. E tambm no tentava se defender com palavras ou atos. Era difcil entender 
como um homem adulto aceitava esse tipo de tratamento. A rebelio surgia apenas no brilho intenso e ressentido de seus olhos.
     - Ela s havia corrido para a porta - Robert murmurou. - E vim para tentar acalm-la.
     - Aproximar-se dela, voc quer dizer. - Pickney riu, olhando para Gytha. - No se incomode com isso. Logo ter o que tanto deseja, meu rapaz. A jovem Gytha 
ser sua esposa. E se ela quer ou no esse destino... No importa.
     - E a opinio de minha famlia tambm no tem importncia? - Gytha manifestou-se. - Ou se esqueceu deles?
     - De jeito nenhum. Eles no me atacaro pela mesma razo que contm seu marido. Eu a tenho cativa.
     - Eles podem esperar para faz-lo pagar por seus crimes. Como os homens de meu marido tambm podem esperar. A vida que planeja levar ser muito precria, senhor, 
com tantas espadas eternamente apontadas em sua direo. Todas estaro esperando pelo momento de mand-lo para o inferno.
     - Por um tempo, talvez, mas todos se cansaro do jogo.
     - Senhor, h homens cuja sede de justia e a lealdade no arrefecem com o tempo.
     - E voc, milady, superestima seu valor. E agora, vamos tratar do assunto que me traz aqui. Minha inteno, como sabe,  matar seu marido. Porm, penso agora 
que h outra forma de elimin-lo, de aumentar o tormento que ser imposto a sua alma na jornada ao encontro do Criador.
     - O que est dizendo?
     - Ele saber que a esposa conheceu outro homem. - Pickney riu ao ver que ela tentava fugir, mas era contida por Thomas e Bertrand. - Sim, e ser um delicioso 
passatempo enquanto espero. Vamos ver se toda essa beleza tambm tem ardor, fogo e paixo.
     - Tio, no - Robert protestou aflito. - Voc prometeu que ela seria minha.
     - E voc a ter. No seja egosta, meu rapaz.
     - Ela est grvida! Pode fazer essa mulher perder o beb!
     - Melhor ainda. A criana  intil para ns. Na verdade, no  apenas intil, mas  um grande problema.
     Gytha se debatia entre Thomas e Bertrand, mas era intil. Eles a imobilizaram sobre a cama. Tudo que podia fazer era se contorcer, tambm inutilmente, o que 
parecia diverti-los. Ela olhou para Robert, plido e trmulo, e soube que no poderia contar com sua ajuda. Mesmo que se rebelasse e tentasse lutar contra Pickney, 
no teria fora fsica para venc-lo.
     Quando Pickney estendeu as mos para as fitas que fechavam o corpete de seu vestido, Robert o puxou para trs.
     - No! Deixe-a em paz. No vou permitir tal coisa.
     - Voc no vai permitir? - Pickney debochou.
     - No posso deixar que a ataque dessa maneira.
     A luta que se seguiu foi breve, furiosa e terrvel de ver. Quando Thomas se moveu para ir ajudar Pickney, Gytha tentou fugir, mas foi impedida por Bertrand. 
No foi com surpresa que ela viu, momentos mais tarde, um Robert tonto e ensangentado ser arrastado at a porta do quarto. Pickney sorriu para ela. Thomas e Bertrand 
tambm sorriam. Ela sabia que no tinha meios de impedir a violncia que eles planejavam, um ataque que provavelmente poria em risco a vida do beb, mas lutaria 
at o fim. No se submeteria sem luta.
     Robert estava sentado no cho no corredor, olhando para a porta do quarto. Limpando o sangue dos lbios na manga da casaca, ele ouviu um grito abafado e tentou 
se levantar.
     - Ento, finalmente criou coragem para lutar, rapaz. Assustado, Robert olhou para os dois desconhecidos em p a seu lado.
     - Quem so vocs?
     - Sou Henry - disse o que havia falado antes, estendendo a mo para ajud-lo a ficar em p. - E esse  John. Somos os dois idiotas que trouxemos a mulher para 
c.
     - Precisamos det-los! - Robert deu um passo na direo da porta, mas foi contido por Henry.
     - Se entrar, vai levar outra surra e ser novamente jogado para fora.
     - Vocs podem me ajudar. Seremos trs. Trs contra trs.
     - No sei usar a espada. John tambm no.
     - Nem eu - Robert declarou, cobrindo o rosto com as mos. - Eles vo machucar Gytha. Como posso permitir tal horror?
     - Ficar a chorando no vai ajudar a dama.
     - Ento, o que devo fazer? Devo ficar aqui ouvindo aqueles animais abusarem dela?
     - O que faria se pudesse tir-la das garras daquelas bestas? Ainda estaramos cativos dentro dessas muralhas.
     - No! Eu a tiraria daqui. Sei como sair. Levaria Gytha de volta a Thayer - Robert sussurrou, desistindo do sonho de ter a seu lado a mulher que tanto amava 
e desejava. - Ela no me quer.
     - Est dizendo que conhece um sada desse lugar? - Henry perguntou eufrico, segurando Robert pelo brao e sacudindo-o.
     - Sim, um buraco em uma parte muito isolada da propriedade. William me mostrou a sada h muito tempo.
     - Seu tio sabe disso?
     - No. Guardei o segredo.
     - Ento, talvez haja uma forma de repararmos nossos erros. - Henry olhou para John. - Quer tentar?
     -  claro que sim - John respondeu, perturbado com mais um grito de Gytha.
     - Mas voc disse que no podemos lutar contra aqueles trs - Robert comentou.
     - Ento, traremos at aqui algum que possa.
     - Quem?
     - O Diabo Vermelho - Henry respondeu. - Vamos sair pelo tal buraco e voltaremos com ele.
     - Ser tarde demais para Gytha. Todos a tero violentando, ento.
     - No, vou adiar a violncia - Henry anunciou. - Posso atrair a ateno deles sem despertar suspeitas. Tero uma hora, no mximo. Quanto menos, melhor.
     - Ser o suficiente. Receio encontrar problemas quando passarmos pelas masmorras, porque h dois homens de guarda l.
     John sorriu.
     - No sou bom com a espada, mas sou timo para bater na cabea do inimigo.
     - Perfeito. Robert, voc vai atrair a ateno dos dois guardas nas masmorras. John vai se colocar atrs deles. No se esqueam de amarrar bem os dois infelizes 
depois de acert-los na cabea. Em seguida, corram at o acampamento do Diabo Vermelho e tragam-no aqui o mais depressa possvel.
     Assim que John e Robert se afastaram, Henry bateu na porta do quarto. O palavro do outro lado foi prova de que havia interrompido Pickney.
     - V embora - ele gritou furioso.
     - E importante, senhor. Caso contrrio, eu jamais o teria incomodado.
     - Seja o que for, mande o idiota do meu sobrinho cuidar disso.
     - No quero desrespeitar o rapaz, senhor, mas creio que essa questo exige mais do que ele pode oferecer.
     - Maldio! Malditos sejam todos os tolos - Pickney gritou, afastando-se de Gytha e vestindo a cala. - Meu bem, vai ter de esperar para conhecer o prazer que 
um homem de verdade pode proporcionar.
     Ela no respondeu. No se sentia capaz de falar. Thomas e Bertrand a soltaram, e ela ajeitou as roupas com mos trmulas, cobrindo-se rapidamente. Os trs homens 
se dirigiram  porta, e ela se encolheu contra a parede do outro lado do quarto. No foi surpresa para Gytha ver Henry diante da porta aberta. Jamais acreditara 
que ele fosse um membro do grupo de Pickney.
     - Espero que o assunto seja mesmo importante como diz - Pickney disparou furioso.
     - E importante, senhor.
     - O que ?
     - Creio ter encontrado uma fraqueza em sua defesa. E um buraco grande o bastante para permitir a passagem de um certo diabo ruivo.
     - Ento, algum est facilitando a entrada do inimigo, porque cobri todos os pontos. Tenho certeza disso.
     - Foi o que pensei, senhor. Por isso vim procur-lo imediatamente. Sabia que ia querer ver a falha pessoalmente e cuidar das punies necessrias. E sempre 
melhor o lder cuidar desses assuntos mais srios.
     -Tem razo. Venham comigo - Pickney disse a Thomas e Bertrand. - Tudo indica que vou precisar de ajuda. - Ele olhou para trs, para Gytha. - No fique desapontada, 
meu bem. Eu volto logo para cuidar de voc.
     Robert viu John amarrar os dois guardas inconscientes. Estava enfrentando o tio. A constatao o aterrorizava e o enchia de alegria. Ele quase riu. Esperava 
que Gytha desse a ele a fora necessria para se libertar do domnio do tio, e ela acabava de fazer justamente isso, porm no como havia imaginado.
     - Terminei - John anunciou. - Qual  o problema? Est arrependido?
     - No, eu... Acabei de perceber que estou livre.
     - O que est dizendo?
     - Nada. No se incomode comigo. Vamos em frente. Meu tio vai voltar para Gytha assim que puder. Temos de nos apressar.
     Um dos presos manifestou-se.
     - Vo nos deixar aqui? - ele perguntou.
     Robert reconheceu o homem que acabara de falar. Era Wee Tom, um homem enorme que se agarrava  grade da cela.
     - Por enquanto - ele respondeu.
     - Podemos lutar contra Pickney.
     - Sem espadas, Wee Tom? No. Seja paciente. Logo estaremos de volta. - Ele se encaminhou para um pequeno cmodo  direita.
     - Espere... - John agarrou as chaves e foi abrir a porta da cela. - Um de vocs. S um - ele decidiu quando todos se aproximaram da porta.
     - O que est fazendo? - perguntou Robert. - Por que vai deixar um deles sair?
     Enquanto puxava para fora o enorme Wee Tom e voltava a trancar a porta, John respondeu:
     - Ele pode assegurar que qualquer um que aparea por aqui fique quieto. No precisamos de um alerta. - John entregou as chaves ao grandalho. - Entende o que 
quero dizer?
     - Perfeitamente. Se algum aparecer por aqui, devo silenci-lo.
     - Isso mesmo. E se no puder calar o sujeito, solte os homens. A comoo vai nos dar o tempo de que precisamos.
     - Tempo para qu? - quis saber Wee Tom.
     - Para irmos buscar o Diabo Vermelho - disse Robert, agarrando o brao de John e levando-o para o cmodo  direita da cela. - Ajude-me a afastar esses bas, 
John - ele ordenou, j se dedicando  tarefa.
     Sob os bas havia uma pequena porta. Robert a abriu e rastejou pelo minsculo tnel alm dela. John o seguia. mido e escuro, o tnel no era alto o bastante 
para permitir que ficassem em p, mas era largo para acomodar dois homens adultos. Rangendo os dentes para suportar o som e a sensao de uma multido de pequenas 
criaturas, Robert ia tateando pelo tnel escuro. Foi um alvio chegar finalmente  curva que dava incio  subida.
     Argolas de metal incrustadas na parede de pedra serviam de sustentao e escada. John teve de se espremer ao lado de Robert para ajud-lo com o alapo emperrado. 
O sopro de ar fresco que invadiu o tnel trouxe tambm uma chuva de folhas secas, galhos e pedregulhos. Robert foi o primeiro a sair do tnel. John o seguiu. O interior 
do tronco de rvore oca era pequeno demais para os dois, por isso Robert deixou o esconderijo, permitindo que John fizesse o mesmo. Ele olhou para o campo aberto 
e para as muralhas de Saitun Manor. Esperava que o plano de Henry estivesse surtindo efeito.
     - Depressa - John resmungou limpando as roupas. - Podemos nos proteger entre as rvores at estarmos bem perto do acampamento do Diabo Vermelho. Assim, ningum 
vai nos ver e pensar que somos inimigos.
     Robert e John haviam percorrido uns dez metros, quando um bando de homens saltou sobre eles e os agarrou antes que pudessem lutar. O sorriso de Merlion encheu 
de pavor o pobre e trmulo Robert.
     - Quero falar com Thayer - Robert anunciou, odiando o tom apavorado da prpria voz.
     - Oh, sim, voc vai falar com ele - Merlion respondeu irnico. - Afinal de contas, todo homem tem o direito de manifestar seu ltimo desejo diante daquele que 
o executar.
   CAPTULO VIII
     Quando Merlion entrou repentinamente na tenda, Thayer se levantou. Havia uma urgncia tensa no visitante que despertava sua esperana.
     -Descobriu alguma coisa? - ele perguntou, orgulhoso do tom calmo.
     - Sim. - Merlion apontou para trs, e dois homens foram jogados dentro da tenda. - No sei que tipo de jogo eles planejam, mas encontramos os dois idiotas perambulando 
pelo bosque.
     Thayer reconheceu o primo e foi invadido pela fria, uma ira cega que o impelia a atacar Robert. E ele o teria atacado e matado, no fosse a interferncia precisa 
de Roger e Merlion.
     - Podem me soltar - ele disse aos amigos e defensores. - No vou matar o covarde. No por enquanto. Antes ele vai ter de falar. E quem  esse outro?
     - Meu nome  John, sir Robert e eu estamos aqui para oferecer ajuda. Queremos mudar de lado.
     - Ah, sim? Sentem-se. - Thayer viu John se sentar no banco de madeira, puxando o amedrontado Robert para se sentar a seu lado. - Por que devo acreditar no que 
diz?
     - Senhor, que outro motivo nos traria aqui desarmados?
     - No sei. E ainda no me disse quem  voc. O que faz com Robert?
     - Sou um dos homens que entregou sua esposa a Pickney. - Ele se encolheu quando Thayer deu um passo em sua direo. - Meu amigo e eu fomos informados apenas 
de que roubvamos uma noiva. Fomos levados a acreditar que tudo era apenas um desses jogos praticados entre os nobres. Vocs esto sempre se matando e roubando terras 
e mulheres uns dos outros.
     - Nem todos somos iguais. O que fez vocs mudarem de idia?
     - Descobrimos que fomos enganados. No era s um jogo. Talvez no acredite nisso, mas meu amigo Henry e eu temos algum senso do que  certo.
     - Talvez possa me convencer disso. Continue.
     - Bem, Pickney vai longe demais. Ele no se incomoda se tem de prejudicar mulheres e bebs. Henry e eu no aceitamos isso. Nunca participamos desse tipo de 
atrocidade, e no vamos comear agora. Descobrimos que ele no pretende deixar a mulher e o beb vivos por muito tempo.
     - E voc tambm se incomoda com isso, Robert?
     - Sim. - Ele finalmente encarou o primo. - Foi um erro deix-lo atacar William, e agora voc.
     - Ele matou William?
     - No posso dizer com certeza, mas quando fala sobre o assunto, ele no se refere ao ocorrido como um acidente. De qualquer maneira, isso no  importante agora. 
Estou aqui por Gytha. Ele quer... Ele quer...
     - Fale de uma vez, garoto! - John se inquietou. - Henry no vai conseguir segurar aqueles homens para sempre!
     - Ele a quer. E pretende tom-la. E Thomas e Bertrand esto com ele... com a mesma inteno. - Robert no continha as lgrimas.
     - E voc a deixou l? - Thayer gritou descontrolado.
     - No! Henry os afastou dela. Temos algum tempo.
     - Pouco - John acrescentou. - Henry no vai poder ret-los para sempre. Temos de voltar para l.
     - Passamos metade da noite procurando uma brecha por onde pudssemos entrar - disse Merlion. - No h nenhuma.
     - E como acha que samos?
     - H uma passagem. Samos por ela e viemos at aqui para busc-los.
     - Para sermos assassinados l dentro? - Roger questionou desconfiado.
     Robert balanou a cabea e respondeu:
     - Por que eu me incomodaria com isso? Pickney s precisaria esperar at amanh para ter tudo que quer. Thayer simplesmente se entregaria. Por favor, confiem 
em mim. Por Gytha! Meu tio pretende violent-la e depois entreg-la a Thomas e Bertrand! Acha que eu poderia ficar quieto diante dessa barbaridade?
     Thayer pegou a espada.
     - Vamos - disse.
     - Melhor deixar alguns homens aqui - John sugeriu enquanto se levantava.
     - E verdade - concordou Robert. - Eles no podem ver muito bem do alto das muralhas, mas se no identificarem uma ou outra sombra se movendo pelo acampamento 
de vez em quando, podem ficar desconfiados.  melhor no alert-los.
     - Pickney sabe sobre essa brecha?
     - No, Thayer. Eu nunca contei nada a ele. Ah, e seus homens esto na masmorra. E l que fica a passagem por onde vamos entrar. Eles vo precisar de armas. 
Deixamos Wee Tom vigiando para impedir que um dos homens de Pickney descesse e desse o alarme.
     Thayer saiu da tenda seguido pelos outros. Ele deixou Roger com Robert e John enquanto dava ordens e cuidava dos preparativos. Sentia que Robert era sincero 
em sua inteno de ajudar, mas duvidava de sua fora para perseverar. De qualquer maneira, pretendia tirar proveito desse raro momento de coragem do primo.
     - Estamos prontos para partir - anunciou por fim. - Vocs vo na frente para indicar o caminho. E se tudo isso for uma armadilha, saibam que morrero conosco.
     Quando penetraram no bosque rumo ao tronco de rvore por onde entrariam na fortaleza, Roger perguntou a Thayer:
     - O que vai fazer com Robert e John quando tudo isso acabar?
     - Muitos homens os enforcariam.
     - Sim. Mas sei que no vai ser essa sua deciso.
     - Como posso punir Robert por ter sido dominado pelo tio durante toda a vida? E esse John... Ele me olhou nos olhos, Roger. Foi honesto. Ele realmente acredita 
que roubar mulheres e terras  comum entre os nobres. Mesmo assim, sabe distinguir at onde pode ir com seus erros. No vai fazer mal a mulheres e bebs. Devo a 
ele a vida de Gytha. Como poderia puni-lo?
     -Tem razo, deixe-os. Imagino que eles pensaro duas vezes antes de se envolver novamente em malfeitos, mesmo que o pagamento seja tentador.
     -  verdade. - Robert e John pararam ao lado de uma rvore. - E aqui?
     - Sim, por aqui - Robert confirmou.
     Todos o seguiram. Thayer empunhava uma lanterna e, atento, passou pelo alapo.
     Wee Tom os esperava do outro lado.
     - Finalmente! - ele exclamou aflito. - Milorde...
     - Trouxemos armas para os homens.
     - timo! Eles esto ansiosos para entrar em ao.
     - Alguma notcia de Gytha? - Robert perguntou.
     - Aquele homem... Henry... Ele esteve aqui. Quase o feri com a espada antes de perceber que era ele.
     - E verdade - Henry confirmou.
     - Gytha - Robert murmurou, segurando seu brao. - Como ela est?
     - Contive Pickney tanto quanto pude.  bem verdade que um homem foi chicoteado por isso, mas... Bem, agora eles voltaram  torre. Se querem libertar a dama, 
 melhor correrem.
     - Colin, Wee Tom - Thayer chamou. - Libertem os homens que esto aqui e armem-nos. Vou levar Roger, Merlion e os outros. Onde est Gytha? Eu a vi na janela 
da torre oeste. E isso?
     - Sim - confirmou Henry. - Mas tome cuidado quando for at l.
     - Eu sei. Eles a tm como refm.
     - Ainda no - Henry gritou, correndo atrs deles. - Sua mulher encontrou um jeito de mant-los afastados por mais um tempo.
     - Como?
     - Ela est na janela, milorde, e ameaa se jogar se um deles ousar toc-la. Sa de l um momento, e eles tentavam convenc-la a se afastar da janela.
     - Por Deus! - Thayer estremeceu. - Venham, vamos depressa! Ela pode estar falando srio!
     Gytha se agarrava ao parapeito e tentava no perder o equilbrio. Estava apavorada, mas temia ainda mais os homens no quarto. Era detestvel pensar em se atirar 
no vazio, em voar para a morte e cometer o imperdovel pecado do suicdio, mas o que Pickney e seus capangas planejavam tambm era horrvel. De um. jeito ou de outro, 
ela pensou deprimida, o beb no sobreviveria.
     - Saia dessa janela, mulher - Pickney exigiu furioso.
     - No. Ficarei aqui at voc sair.
     - Vai macular sua alma por toda a eternidade se saltar para a morte.
     - Est preocupado com minha alma? Pois saiba que prefiro o inferno ao que planeja para mim!
     - Se pular, vai matar tambm a criana que espera.
     - O que voc e esses homens imundos pretendem tambm vai significar a morte do beb. No me d escolha.
     - Est bem, est bem. - Pickney ergueu as duas mos num gesto conciliatrio. - Desa da, e prometo que nenhum de ns vai tocar em voc. Tem minha palavra de 
que ser deixada em paz.
     - Sua palavra? Ah! Ela no vale nada. S um tolo aceitaria sua palavra.
     - Pense no que estou dizendo, mulher. Voc no  til para mim morta. No quero que morra.
     - Ainda no! - ela respondeu, sem perceber que os homens no a ouviam mais.
     S quando o quarto foi invadido ela percebeu que havia sido esquecida. Thayer comandava a invaso ruidosa e violenta.
     - Thayer! - ela gritou incrdula.
     - Desa da antes que se machuque, mulher maluca! - ele gritou, apontando a espada para Pickney.
     - Sim, marido. Como quiser.
     Gytha desceu da janela com grande cautela, mas, antes que pudesse saborear a sensao de estar novamente em segurana, as pernas comearam a tremer sob seu 
corpo. Zonza, ela escorregou para o cho sem entender o que acontecia, e foi se arrastando at um canto seguro contra a parede, fora da rea onde se desenrolava 
a luta. Era impossvel parar de tremer.
     Thayer se concentrava em Pickney. As roupas rasgadas e os hematomas que vira nos braos da mulher confirmavam o relato de Robert. Seu desejo era matar Pickney 
pouco a pouco, causando grande dor e interminvel sofrimento. No foi com surpresa que ele viu Charles empunhar a espada e, mesmo armado, empurrar Thomas na sua 
frente. Sua covardia era revoltante.
     - Pare de se esconder atrs de seus cmplices e me enfrente como um homem - Thayer provocou. - Estou lhe dando uma chance que voc no me teria dado.
     - Mate-o! - gritou Pickney, encolhendo-se atrs de Bertrand e de Thomas. - Matem esse desgraado, seus idiotas!
     Roger adiantou-se. Merlion tambm deu alguns passou  frente, pronto para agir, caso fosse necessrio. Gytha fechou os olhos por um momento, sem saber o que 
esperar, mas voltou a abri-los ao sentir que algum se aproximava. Surpresa, ela viu Robert, John e Henry se reunirem a sua volta formando um escudo.
     - O que esto fazendo?
     - Queremos impedir que meu tio tente us-la como escudo - explicou Robert.
     - Eu agradeo, mas preciso ao menos de um espao para ver o que est acontecendo.
     - Uma dama no deve testemunhar esse tipo de coisa.
     - No seja idiota, Robert!
     Henry e John riram.
     A violncia a horrorizava, mas ela sentia uma estranha e inesperada excitao vendo o marido brandir sua espada com tanta maestria. Fechou os olhos por um momento 
quando Thayer feriu Thomas. No gostava dos seguidores de Pickney, mas nem por isso desejava v-los sangrar at a morte. Sabendo que agora Thayer enfrentaria Pickney, 
ela abriu os olhos e ainda testemunhou os ltimos instantes do combate entre Bertrand e Roger. Pickney perdia mais um homem.
     Roger colocou-se ao lado de Thayer.
     - No - disse ele. - Quero enfrentar esse verme pessoalmente, Roger.
     - A culpa  toda de Robert - Pickney gritou desesperado ao se ver desamparado. - Foi idia dele. Confesse, Robert! Revele como fui s um mero soldado forado 
a fazer seu jogo!
     A resposta de Robert foi to cruel, vulgar e cheia de dio, que Gytha o encarou boquiaberta. O som do choque entre espadas atraiu sua ateno de volta  luta. 
Apesar da evidente covardia, Pickney era um bom lutador. Gytha tremia novamente. Confiava na habilidade de Thayer e sabia que ele poderia derrotar Pickney numa luta 
justa, mas no acreditava que Pickney tivesse a inteno de lutar com justia e honestidade.
     Depois de alguns momentos percebeu que o marido estava brincando com o oponente, causando ferimentos pequenos, mas dolorosos, adiando o golpe fatal. Considerava 
que Pickney era merecedor dos mais duros castigos, mas no suportava assistir  morte lenta.
     De repente Pickney gritou, e ela soube que havia acabado.
     Thayer estava abaixado a seu lado, amparando-a.
     - Est ferida?
     - No... - respondeu com voz fraca, dominada por forte vertigem. - Minhas roupas foram rasgadas, tenho alguns hematomas... Mas  s isso. E Bek...?
     - Est bem. Sofreu um corte na cabea, mas no foi nada grave. Agora que conheci os dois homens que os atacaram na pousada, chego a acreditar que eles no usaram 
muita fora quando o agrediram, ou meu filho estaria morto.
     Ela fechou os olhos e sorriu aliviada.
     - Sobre Henry e John...
     - Depois, minha querida. Antes quero que as mulheres a examinem para termos certeza de que est mesmo bem. Depois ser banhada e vestida com trajes apropriados 
e limpos. Ento poderemos conversar.
     O quarto foi rapidamente limpo. Todos os sinais de morte desapareceram. Duas mulheres chegaram para ajud-la. Gytha foi examinada, banhada e ungida com blsamos 
que aliviaram a dor de pequenos hematomas e ferimentos. Depois, ela foi posta na cama sobre muitos travesseiros e recebeu uma bandeja com uma variedade de guloseimas. 
Enquanto comia, conseguiu captar alguns detalhes sobre como Thayer fora capaz de resgat-la, mas foi um grande alvio v-lo retornar ao quarto, depois de inspecionar 
o castelo, e expulsar todos que ameaavam sua privacidade.
     - J comeava a me sentir uma invlida - ela resmungou.
     Thayer riu e se serviu de um pedao de queijo do prato na bandeja.
     - Logo a levarei para os nossos aposentos - ele disse. - Pickney se instalou em nosso quarto, por isso dei ordens para que tudo fosse limpo antes de voltarmos 
para l. Achei que voc ia preferir assim.
     - Sim, obrigada.
     Ela parecia melhor, mas ainda estava um pouco plida. Thayer conteve o riso ao imaginar o que ela diria se soubesse como o marido passara a ltima hora, de 
joelhos na capela agradecendo a Deus por ainda ter a mulher e o beb a seu lado.
     Parte dele clamava pela revelao de seus mais profundos sentimentos, mas se mantinha calado. Acabara de salvar a vida dela, evitara uma terrvel e traumtica 
violncia sexual, e toda e qualquer declarao de amor seria recebida com gratido efusiva. E esse era o ltimo sentimento que desejava despertar nela.
     - J mandei informar sua famlia de que o perigo est superado. Mandei notcias tambm para os que esperam em Riverfall - ele disse.
     - Lamento por todo esse problema, Thayer. Se eu no tivesse ido ao encontro de Elizabeth...
     - Voc no tem do que se desculpar. Nunca disse a ningum que ela era minha inimiga, que poderia oferecer perigo. Quando deixei a corte estava decidido a falar 
sobre esse assunto, mas depois esqueci tudo sobre Elizabeth.
     - O que fez com ela? Deixou aquela mulher livre para cometer outras maldades?
     - No. Ela est presa na masmorra em Riverfall. Quando eu voltar, chamarei a famlia dela para ir busc-la e lev-la sob custdia. Porm, antes de partirem, 
sero informados sobre algumas verdades a respeito de Elizabeth. Falarei inclusive sobre o filho que tivemos.
     - Pobre Bek! Agora sabe que a me no se importa mesmo com ele.
     - Se isso o magoa, ele esconde bem o que sente. Na verdade, acho que Bek sempre soube disso. O que realmente o incomoda  que, mais uma vez, Elizabeth participou 
de um plano para prejudicar voc. Isso  algo que ele no pode entender, e no sei se o ajudei muito nesse sentido. No tive tempo. De qualquer maneira, tenho de 
inform-lo de que a me dele no sabia que um assassinato fazia parte desse plano.
     - Tem certeza disso?
     - Sim. Ela sabia de um plano de rapto para pedir um resgate, e viu nesse esquema uma forma de pr algumas moedas em sua bolsa sempre vazia.
     Gytha se reclinou contra os travesseiros e bebeu sem pressa o vinho em sua caneca, vendo Thayer devorar o que ainda havia na bandeja. Ela estendeu a mo para 
tocar os cabelos do marido, que sorriu. Exceto por aquele primeiro abrao emocionado depois da morte de Pickney, haviam retomado o estado anterior da relao. Prximos, 
mas no muito, e confortveis. A situao a entristecia, mas sentia-se ainda mais triste por sua participao nela. Ainda no revelara seus verdadeiros sentimentos, 
calando-se covardemente cada vez que tentava falar.
     - Thayer, acha mesmo que deve informar a famlia de Elizabeth sobre Bek?
     - Por que no? - Ele se levantou para remover da cama a bandeja vazia.
     - E se eles tambm rejeitarem o menino? - Quando o marido voltou e se sentou a seu lado, ela apoiou a cabea em seu ombro e se sentiu confortada pelo abrao. 
- Bek saberia que tem familiares, mas que eles tambm no o querem.
     - Existe essa possibilidade, eu sei. Mas tenho de dizer a eles. J devia ter falado. Talvez a soluo seja no conversar com Bek sobre isso at ter certeza 
de qual vai ser a reao da famlia de Elizabeth. No quero que ele sofra ainda mais.
     - Quando ele for mais velho, talvez voc possa falar com ele sobre tudo isso. Se a famlia o reconhecer,  claro. Se no...
     - Se no, ele nunca saber. Sim, talvez tenha razo, Gytha. Decidiremos tudo quando o momento chegar. Agora, temos outra questo a tratar. Queria falar comigo 
sobre Henry, John e Robert?
     - Sim. O que planeja fazer com eles?
     - No pensei em nada. Por qu? O que acha que devo fazer? Foi voc quem mais sofreu nas mos deles.
     - No, Thayer. Nas mos de Pickney. Sei que Henry e John me trouxeram at aqui, para ele, mas esses homens so s seguidores, pequenos comandados. O verdadeiro 
mal estava em Pickney. Mesmo depois de terem me batido na cabea, eles me trataram bem. E quando tomaram conhecimento dos verdadeiros planos de Pickney, eles ficaram 
chocados. Infelizmente, Henry e John no so modelos de coragem.
     - Eu no teria tanta certeza. John me encarou quando admitiu ser um dos homens que a trouxe para c. E estava desarmado quando fez essa confisso.
     - Ora, isso  uma surpresa. Ele e Henry demonstraram sentir muito medo de voc.
     - De mim? - Thayer fingiu inocncia.
     - O que quero dizer  que h neles uma semente do bem.
     - E ela germinar se eles forem mantidos bem alimentados, abrigados e com algumas poucas moedas para atender s prprias necessidades - deduziu Thayer.
     Gytha riu.
     - Voc j havia decidido poup-los.
     - Sim, mas queria ter certeza da sua opinio. E Robert?
     - Pobre Robert. Pickney fez dele o que . Quem sabe que tipo de homem ele poderia ser, se no houvesse sido manipulado e prejudicado pela pssima influncia 
do tio? Mas, por um momento, Robert enfrentou o tio. Infelizmente, ele no tinha a fora e a habilidade, e Pickney percebeu e usou essa carncia.
     - Sim, eu sei disso. No final, quando foi realmente importante, Robert fez o que era certo. No tenho estmago para matar algum que tem o mesmo sangue que 
eu nas veias. Alm do mais, Robert no sabe que William foi assassinado. Ele desconfia, mas no tem certeza.
     - Mas ele sabia que voc seria assassinado.
     - Sim, e ignorou essa informao por uma razo que muitos homens considerariam boa. Ele queria voc. Agora, creio que Robert desistiu inteiramente desse sonho. 
Sabe, comeo a pensar que John e Henry o tomaram sob sua proteo. Talvez a melhor coisa a fazer seja pensar em alguma coisa que eles possam fazer juntos e que proporcione 
um certo lucro e os mantenha fora de confuses.
     Gytha levou a mo  boca para conter um bocejo.
     - E quanto aos homens de Pickney?
     - Esto mortos.
     - Todos eles?
     - Sim, todos. Os homens que libertamos da masmorra sofreram um golpe duro contra sua honra. Foi impossvel cont-los em sua nsia de vingana. - Thayer se levantou 
e a cobriu, acomodando-a para dormir. - Agora descanse. Passou por momentos difceis e precisa se recuperar.
     - Thayer, sei que vai me achar um pouco tola, mas ser que pode ficar aqui comigo? Pelo menos at eu dormir?
     - Sim, e no acho que voc  tola. Est traumatizada, assustada... Tudo isso  normal. O perigo real j passou, mas a memria ainda vai incomod-la por um tempo.
     Ela sorriu agradecida diante da resposta compreensiva. Aninhada nos braos do marido, Gytha fechou os olhos e comeou a relaxar. Finalmente sentia que estava 
realmente viva, que o plano de Pickney fracassara.
     - Gytha?
     - Hum...?
     - Ia mesmo pular daquela janela?
     Sonolenta como estava, era difcil responder com clareza, mas ela tentou:
     - No sei. Parte de mim no via razo para no pular, mas outra parte repelia essa idia. Se Pickney houvesse se aproximado, talvez... Sentia mais medo dele 
do que da morte ou do castigo de Deus.
     Gytha j havia adormecido, mas Thayer continuava ao lado dela, segurando sua mo. Estivera muito perto de perd-la e de perder o filho que ela esperava. Depois 
disso seria muito difcil no tentar escond-la do mundo, de qualquer possibilidade de perigo. Talvez estivesse condenado a passar o resto da vida temendo pela vida 
da mulher amada.
     Thayer resmungou e bateu na mo que tocava seu ombro. No queria acordar. Estava ainda um pouco embriagado depois da celebrao do casamento de Roger e Margaret 
na noite anterior.
     - Se eu fosse um inimigo, j teria cortado sua garganta. Havia algo de familiar na voz profunda e rica, mas Thayer tentou ignor-la e continuar dormindo.
     - Jesus! - gritou Fulke.
timo! O invasor havia acordado o irmo de Gytha. Os trs Raouille dormiam em esteiras em seus aposentos, e logo poriam para fora quem ousava incomod-lo.
     - Mas... ouvimos dizer que estava morto! - John murmurou. - Como pode estar aqui?
     - Porque no estou morto, talvez? - Soou a resposta debochada. - Acorde, pateta ruivo!
     Thayer tinha certeza de que ainda estava embriagado, ou no teria pensamentos to absurdos.
     Gytha no sabia se gritava ou desmaiava de susto. Queria arrancar o marido daquele torpor, mas hesitava em despert-lo para o que s podia ser uma viso estranha 
e irreal. William Saitun estava morto! No podia estar em p ao lado de sua cama em Riverfall, sorrindo tranqilamente.
     - Pela quantidade de bbados que encontrei dormindo pelos corredores, suponho que tenha acontecido uma festa grandiosa ontem  noite.
     - Roger se casou com minha prima Margaret - ela respondeu, tentando entender como podia estar conversando com uma viso.
     - Ah, ento era sobre isso que Robert falava.
     - Falou com Robert?
     - Ele resmungou algumas palavras antes de cair desfalecido. O tio dele est morto? Isso  verdade?
     - Sim. Thayer o matou em Saitun Manor.
     - Lstima... Esperava ter esse prazer. E claro que muitas coisas aconteceram durante os meses que passei fora. - William sacudiu Thayer mais uma vez. - Acorde, 
seu grande idiota. Precisamos conversar. Onde est sua educao? No vai acolher e receber algum que volta da morte?
     Decidindo que William devia estar vivo, j que sua imagem no desaparecia, Gytha tambm sacudiu o marido. Seus irmos j estavam em p, lavando-se e vestindo-se 
enquanto trocavam opinies variadas a respeito de como contar aos pais tudo que havia acontecido ali.
     - Thayer, acho que devia acordar e falar com esse homem. - Vendo que ele abria os olhos, Gytha insistiu: - Tente superar o torpor, Thayer. Olhe para a sua direita. 
Relutante, ele se virou... e no conteve uma exclamao espantada. Thayer esfregou os olhos, mas o que via no desapareceu. Olhando para Gytha e para os irmos dela, 
soube que todos ali esperavam alguma reao. Quando William gargalhou, abraou-o e bateu em suas costas, ele se recuperou pelo menos o suficiente para retribuir 
o abrao. Depois, quando William recuou, ele comeou a pensar nas conseqncias do retorno do primo.
     -  voc mesmo, William... - Thayer sentou-se na cama. - Por que fomos informados de que estava morto?
     Sentado na beirada da cama, William agradeceu o vinho que Fulke servia.
     - Eu quase morri de verdade. A queda do cavalo causou-me graves ferimentos. Cortland, meu escudeiro, achou que seria melhor se todos me julgassem morto. Ele 
sabia que a queda no havia sido um acidente, e sabia tambm que eu no estava em condies de lutar contra outro possvel atentado. Alm do mais, no podamos ter 
certeza da origem do atentado. Tenho alguns inimigos.
     - Todos ns temos. Onde esteve?
     - No muito longe, para dizer a verdade. Estava em uma estalagem. A princpio no percebi o que Cortland havia feito. Quando me recuperei o bastante para pensar 
com clareza, tentamos descobrir quem havia me atacado. Quando soubemos que tinha sido Pickney, pensei em preveni-lo, mas Cortland garantiu que voc j sabia.
     - Eu sabia. Ele me havia declarado morto tambm. No precisei de muito tempo para deduzir tudo. Sofri alguns acidentes incomuns, embora no tenha me ferido 
tanto quanto voc. Parece bem agora, William.
     - Sim, mas tenho cicatrizes novas, e minha perna direita enrijece consideravelmente em alguns momentos. E um milagre que no tenha ficado manco. S lamento 
por uma coisa. - Ele sorriu.
     - O qu?
     - Receio que meu retorno represente para voc a perda de tudo que voc obteve. S isso  suficiente para me fazer quase desejar estar morto. Por um breve momento, 
pelo menos.
     Thayer tambm sorriu. A perda de tudo que obteve. As palavras ecoavam em sua mente, causando insuportvel agonia com seu verdadeiro significado. Nada do que 
tinha era realmente dele. E isso inclua sua esposa. O contrato decretava que Gytha deveria se casar com o herdeiro de Saitun Manor. Como William no morrera, ele 
no era o herdeiro e no tinha o direito legal de estar casado com Gytha. William tinha esse direito.
     - Bem. - Ele olhou para William. - Nunca tive nada. No vai ser to difcil retornar ao que era antes. - E nunca contara uma mentira to grande. Certamente 
perderia Gytha tambm.
     - Nada? - Ela estranhou. - Sei que Riverfall no  to grande ou to prspero quando Saitun Manor, mas  mais do que nada.
     - Sim, mas Riverfall  seu dote.
     - Sim, e por isso agora voc  o senhor dessas terras. Quando nos casamos, Riverfall passou para suas mos.
     - Gytha, ns nos casamos porque William foi considerado morto.
     - E da? - Tinha o pressentimento de que no ia gostar do fim dessa conversa.
     - Pelos termos do contrato, voc deveria se casar com o herdeiro de Saitun Manor. No sou mais esse herdeiro. Agora tudo pertence a William.
     - E da?
     - Voc nunca teve um raciocnio lento. O contrato determina que voc deveria se casar com o herdeiro. William  o herdeiro. E ele est vivo. Voc vai ter de 
ser devolvida a ele.
     William engasgou com o vinho. Thayer teve de bater nas costas do primo para salv-lo de sufocar.
     Gytha se sentia to perplexa quanto seus irmos pareciam estar. De onde Thayer tirava essa argumentao absurda? Estavam casados havia meses! O casamento havia 
sido consumado centenas de vezes e j produzia frutos. Ele no podia estar pensando em simplesmente anular a unio e entreg-la a William, s porque, de repente, 
o homem aparecia vivo.
     De repente ela se sentiu zangada. No poupou esforos para mostrar a Thayer que gostava de estar a seu lado e queria continuar com ele. Agora descobriu que 
fracassara. Ele ainda acreditava que poderia simplesmente trocar sua cama pela de William.
     Era insultante! Na opinio de Thayer, no era mais do que parte de uma herana, quase como uma pedra de Saitun Manor. William voltava para reclamar a propriedade; 
portanto, William levaria tambm a noiva.
     Ela o atingiu com um soco. Quando Thayer praguejou e a encarou surpreso, ela o acertou com outro soco. Depois se levantou da cama, sem dar importncia  falta 
de jeito provocada pela barriga distendida.
     William a estudava surpreso e boquiaberto. No havia notado sua condio antes. Gytha no podia deixar de pensar na atitude desprezvel de Thayer. Ele havia 
esquecido a gravidez, ou pretendia entregar tambm o beb a William?
     - Quer me jogar fora como se eu fosse um trapo velho? E isso? - ela disparou. - Vai me oferecer numa bandeja para o herdeiro que retorna? Ah, ol, William! 
J que  dono do castelo e do ttulo, por que no leva tambm a mulher?
     - Voc entendeu mal - Thayer protestou, lamentando no estar vestido. Era horrvel se descobrir nu na cama enquanto tentava conduzir uma conversa to sria 
com uma esposa furiosa. - O contrato de casamento...
     - Para o diabo com o contrato! No sou um objeto a ser negociado com a propriedade e os outros bens! E o beb? Fica, ou tambm vai ser descartado com a me?
     - No estou descartando voc! Por que distorce minhas palavras?
     - Distoro? Elas j saem distorcidas de sua boca! O que pretende fazer? Anular o casamento? A gravidez pode dificultar seus planos, caso ainda no tenha pensado 
nisso. Qualquer um pode perceber que nosso casamento foi consumado. Acha que pode tomar uma deciso e tornar-me virgem outra vez?
     - Agora est sendo tola - ele decidiu irritado, levantando-se para ir vestir a ceroula. - William entende as razes para tudo que aconteceu.
     - William ainda no foi interpelado quanto ao que pensa - disse o prprio William, notando que sua presena era ignorada.
     Uma dor aguda surgiu e desapareceu em seguida. Gytha franziu a testa. De repente entendia o que estava acontecendo. Sabia por que havia dormido to mal  noite. 
Ela encarou o marido e decidiu ignorar os sinais do parto iminente. Atac-lo era mais importante que tudo nesse momento.
     - E timo saber que William  to compreensivo, mas receio no ter a mesma qualidade. Como pode desistir de mim to rapidamente, sem sequer pensar nos meus 
sentimentos? No que eu quero? Voc est sempre dando ordens, decidindo por todos!
     - Acalme-se e escute. Eu s mencionei o contrato. E legal, vlido e sancionado pelo rei. Seus pais a casaram comigo porque eu era o herdeiro naquele momento. 
Eles foram enganados, embora ningum tenha tido essa inteno. Isso vai ter de ser discutido. Voc  uma dama de origem nobre que devia ter sido casada com um ttulo 
e posses. E eu no tenho nada disso.
     - Estranho. Pensei que fosse casada com um homem.
     - Est dificultando as coisas de propsito.
     - Eu estou dificultando as coisas? - Gytha olhou para os irmos. - No tm nada a dizer sobre isso?
     Fulke respondeu hesitante:
     - Lamento, mas no consigo raciocinar com clareza desde que William ressurgiu dos mortos. E, por mais maluco que parea, pode haver alguma verdade nas palavras 
de Thayer.
     O insulto que ela pretendia dirigir ao irmo e  sua confuso mental soou apenas como um gemido de dor.
     Agarrou-se  cabeceira da cama, segurou o ventre com a outra mo e dobrou-se ao meio, tomada de assalto por uma violenta contrao. Todos os homens a olharam 
com compreenso horrorizada.
     - E ento? - ela disparou. - Vo ficar a parados at o pobrezinho cair no cho?
     Thayer deu um passo na direo da esposa.
     - Gytha...  o beb?
     - O que voc acha? V buscar Janet e chame minha me! - ela ordenou. Foram os irmos dela que se retiraram para obedecer  ordem. Outra contrao a castigava 
quando, notando a mo de Thayer estendida em sua direo, ela reagiu: - O que est fazendo?
     - Vou coloc-la na cama - ele respondeu enquanto a tomava nos braos e a deitava novamente. - E l que deve ficar.
     - Eu nem teria me levantado, se voc no fosse o idiota tolo que !
     Thayer ignorou o insulto e olhou para William.
     - Ajude-me a encontrar minhas roupas antes que as mulheres cheguem.
     - Onde est Bek? - William indagou curioso enquanto ajudava o primo a recompor-se. - Ele no  mais seu pajem?
     - Ele , mas est se recuperando de algumas dificuldades criadas pela prpria me dele.
     Thayer resumiu tudo que havia acontecido recentemente, notando o horror nos olhos de William. Felizmente, Bek fora aceito com grande alegria pela famlia materna, 
que o reconhecera como descendente mesmo enquanto ameaava deserdar Elizabeth. Mas as explicaes eram breves, entrecortadas, porque Thayer permanecia atento em 
Gytha. Vestido, ele correu para perto da cama e segurou a mo da esposa, notando com alvio que ela no o repudiava. Porm, a fria ainda no havia arrefecido.
     - Ora, ento no vai delegar essa tarefa a William, tambm?
     Antes que Thayer pudesse responder, William segurou a outra mo de Gytha, ignorando o olhar ruivoso do primo.
     - Gytha, no seja to severa. Um contrato de casamento  um lao de honra, e se existe um homem no mundo que respeita a honra e a palavra, esse homem  meu 
primo Thayer. Pode soar absurdo e at ofensivo, mas esse casamento  agora uma questo legal.
     Gytha queria responder, mas foi dominada pela dor de outra contrao.
     William apertou a mo dela.
     - Voc  forte. Mais do que parece - disse.
     - Sente muita dor? - Thayer perguntou aflito.
     - Vejo que hoje acordou disposto a formular questes estpidas - ela respondeu irritada, tentando respirar antes da prxima onda de dor.
     - Quanto ao dilema que estamos enfrentando aqui... - William adiantou-se, sentindo que o casal poderia comear uma discusso que, naquelas circunstncias, no 
seria conveniente.
     - O dilema s existe - Gytha cortou - para certas pessoas que querem se desfazer de suas esposas.
     - Eu no disse que quero me desfazer de voc.
     - Chega! - William exclamou com firmeza. - Quero dizer o que penso, e vocs precisam me ouvir. Gytha, quando a deixei depois de nosso ltimo encontro, parti 
mais do que satisfeito com o arranjo. Porm, as coisas mudaram, e no me refiro apenas ao beb que vai nascer a qualquer momento. No. Sei que  melhor voc ficar 
com seu marido. No pretendo reclam-la para mim.
     Gytha o encarou entre uma e outra contrao. William resolvia o conflito antes mesmo de ele surgir. Ainda estava furiosa com Thayer por sua aparente disponibilidade 
para entreg-la ao primo, mas no precisava mais temer que uma lei qualquer o arrancasse de seus braos. Porm, a facilidade com que William abria mo dela no era 
exatamente lisonjeira.
     -  estranho - ela murmurou. - Considerando que no desejo trocar de marido, mas sinto-me ofendida.
     Thayer continha a vontade de rir. Em nenhum momento havia pensado em desistir dela. Era um alvio constatar que William no pretendia criar problemas. Porm, 
tambm se sentia insultado com a atitude desinteressada do primo. Sentira o corao dilacerado ao pensar que talvez tivesse de se separar de sua Gytha, porque a 
lei poderia obrig-lo a isso, mas William nem se dava ao trabalho de reconhecer com gratido sua inteno de sacrifcio.
     William riu e beijou o rosto de Gytha.
     - Confesso que no incio fiquei desapontado por ter perdido uma noiva to adorvel. E para meu primo! Mas, sendo livre, logo entreguei meu corao a outras 
mos. Casei-me h trs meses.
     Gytha queria fazer dezenas de perguntas, mas, antes que pudesse comear, ela viu Janet e sua me se aproximando da cama. Thayer e William foram expulsos do 
quarto.
     Era frustrante no poder saciar a curiosidade, mas o nascimento de seu primeiro filho chamava a ateno de todos. Especialmente a dela.
     Thayer esperava no salo em companhia dos primos, William e Robert, e de seus mais novos amigos, John e Henry. A demora o preocupava. William falava sobre sua 
inteno de levar Robert de volta a Saitun Manor, mas Thayer protestou.
     - Ele no quer ir. Prefere ficar aqui, pois l todos se lembram dele como o comandado de Pickney. Robert pretende gerenciar uma hospedaria, e j prometi ajud-lo 
nessa empreitada. Sei que o trabalho no  apropriado para um homem de sua origem, mas ele est animado. O negcio  promissor. Robert cuida das contas, e os dois, 
John e Henry, fazem o trabalho propriamente dito. Creio at que Robert j se interessou por algum, uma jovem delicada e interessante o bastante para faz-lo esquecer 
sua devoo por minha esposa. Isso  muito bom, porque, quando tiver de me ausentar e deix-la aqui sozinha, posso pedir a Robert para cuidar dela sem nenhum temor.
     - Por que pensa em se ausentar? O rei o convocou novamente?
     - No, mas agora sou destitudo de terras e ttulo. Vou ter de vender minha fora de trabalho.
     - Riverfall  uma bela propriedade.
     - Sim, mas  o dote de Gytha. O que ela trouxe ao nosso casamento. Eu no trouxe nada. Preciso trabalhar para contribuir com minha parte. Gytha deveria ter 
se casado com um homem de ttulo e posses, e tenho o dever de compens-la pela perda que sofreu com toda essa confuso.
     - Primo, sempre admirei sua inteligncia, mas voc parece ser incapaz de usar o raciocnio quando o assunto  sua esposa.
     Antes que Thayer pudesse responder, lady Bertha entrou no salo. A mulher parecia cansada, mas feliz. Mesmo assim, Thayer se recusava a ter esperanas, a acreditar 
que Gytha escapara ilesa do difcil e arriscado momento do parto.
     - Voc  pai de um menino, Thayer - ela anunciou, indo se sentar ao lado do marido.
     Ele assentiu e aceitou distrado os votos de felicidades e congratulaes. Queria que tudo acabasse depressa, porque tinha uma pergunta a fazer a lady Bertha. 
Ela ainda no havia revelado o que, para ele, era mais importante que tudo.
     - E Gytha? - finalmente murmurou depois de um instante.
     - Est bem. Cansada, mas bem. Ela ter muitos outros filhos, a julgar por como enfrentou o primeiro parto. Por que no vai v-la? Sua mulher o espera.
     Thayer subiu a escada correndo, mas parou diante da porta do quarto. No podia deixar de lembrar a ltima vez em que estivera ao lado da cama de uma mulher 
com quem tivera um filho. Dizendo a si mesmo que Gytha no era como a fria e imoral Elizabeth, ele entrou e se aproximou da cama da esposa. Janet saiu imediatamente. 
Gytha parecia cansada, mas radiante. Ela segurava o beb com uma ternura emocionante.
     - Como se sente? - Thayer perguntou com a voz embargada.
     - Bem. Venha conhecer seu filho.
     - Bek vai ficar feliz - ele murmurou, sorrindo atordoado.
     Gytha o viu tocar a criana com sua mo grande e calejada. Enquanto ele se certificava de que o menino era forte e saudvel, ela se emocionava com a cena. No 
precisava perguntar se o marido estava feliz. Podia ver a resposta em seu rosto.
     Mas ela ainda sentia os resqucios da velha mistura de raiva e dor. Havia conversado com a me sobre a discusso que precedera o parto. Lady Bertha ficara um 
pouco chocada, mas tentara fazer a filha entender que havia bons motivos para a reao de Thayer. O argumento no servira para acalm-la. Queria alguma indicao 
do marido de que ele teria ao menos relutado em entreg-la a William. Mas ele se mostrara dolorosamente complacente.
     - O beb  forte, Gytha. E  bonito, tambm - Thayer comentou antes de beij-la, desejando encontrar um meio mais eloqente de manifestar seus sentimentos. 
- Vamos cham-lo de Everard, como combinamos? Ainda quer dar  criana o nome de meu pai?
     -  claro que sim. No mudei de idia.  um bom nome. Porm, confesso que tive medo de que deixasse tambm essa escolha aos cuidados de William.
     Thayer sentou-se na banqueta ao lado da cama e respirou fundo. Chegara a esquecer o confronto, mas era evidente que ela ainda o tinha ntido na memria. Teria 
de dar boas explicaes, embora no soubesse nem por onde comear.
     - Gytha, precisa entender como funcionam esses contratos - ele comeou.
     - Isso j foi explicado. Ainda acho que  tudo uma grande loucura, mas entendo que esses documentos e essas leis nunca levam em considerao as pessoas que 
so afetadas por elas.
     - Ento, se entende, por que continua to zangada? Quando William voltou, era minha obrigao oferecer de volta tudo que ele deveria ter herdado, tudo que obtive 
em conseqncia de sua suposta morte. Saitun Manor, o ttulo, voc...
     Ela quase praguejou. Mais uma vez, era relacionada como um bem, um objeto qualquer. Isso a enfurecia. A raiva a impedia de ceder  exausto que reclamava seu 
corpo.
     - Entendo. Porm, como seria se, por ocasio do retorno de William, eu me virasse para voc e dissesse: "Bem, Thayer, meu verdadeiro marido voltou, e agora 
tenho de deix-lo"? Teria sido aceitvel para voc?
     Ele piscou. De repente percebia tudo. Ela afirmava compreender o contrato de casamento e a questo levantada pelo retorno de William, mas a verdade era que 
Gytha no estava pensando. Estava sentindo. Entendia que ele se dispunha a entreg-la a William, mas no sabia que dor e que tumulto emocional a deciso causava 
em sua alma. Vira frieza em vez de obedincia, honra e lealdade. E, com seu controle frreo e sua aparente calma, ele causara sofrimento e at a ofendera.
     - Gytha, querida, se a fiz acreditar que queria entreg-la a William, peo que me perdoe.
     - Foi exatamente essa a impresso que tive.
     - Sim, eu sei. Estou vendo agora, querida. Voc est certa. s vezes sou mesmo um idiota. Tudo que posso dizer  que o choque provocado pelo retorno de William 
tornou-me ainda mais tolo.
     - Entendo. V-lo tambm me deixou atordoada.
     - Quando me lembrei de que deveria devolver tudo que havia herdado, naturalmente a inclu na lista. Descobri-me dividido entre o que a honra exigia de mim e 
o que eu queria fazer. Saitun Manor e o ttulo tinham pouca importncia. Se incluindo voc nesse pacote, a fiz se sentir pouco importante tambm, tudo o que posso 
dizer  que nunca tive essa inteno. Sempre soube que no poderia entreg-la a outro homem. E o beb... Por acaso no consegui demonstrar a alegria que me deu com 
essa gravidez? Por isso acreditou que eu poderia desistir de tudo?
     - No. Eu sabia... Eu sei... Sim, tenho certeza de que est feliz com a criana.
     - No imagina o alvio que experimentei quando William revelou que havia se casado com outra. Naquele momento eu percebi que no teria de me colocar contra 
ele.
     - E teria feito isso?
     - Sim. Teria feito qualquer coisa para mant-la a meu lado. O contrato deixava de ser importante. Voc  minha esposa. O beb  nosso filho. Podia devolver 
todo o restante a William, mas vocs dois... Nunca! E h mais uma coisa.
     - O qu?
     - Queria que voc tivesse uma chance de escolher. Como tinha a alternativa de ir viver com William, no quis que se sentisse obrigada a ficar onde no desejava 
estar.
     Era como Gytha havia suspeitado. No estava surpresa, mas magoada, uma emoo que tentava esconder. E tambm se sentia muito desanimada. Nada do que tinha feito 
ou dito o tocara como pretendia. Como poderia dizer a esse homem que o amava? Ele nunca acreditaria. No se podia pensar que seria capaz de deix-lo por outro homem, 
por um ttulo e terras. Thayer no acreditava na fora desse casamento. Parte dele ainda duvidava de que ela o desejaria como marido para sempre. E Gytha no sabia 
como resolver esse problema.
     - Thayer, em algum momento fui desonesta com voc?
     - No. Nunca. Em alguns momentos chegou a ser dolorosamente honesta.
     - Pois bem, se eu quisesse ir viver com William, no teria ido? No teria simplesmente manifestado minha vontade? Eu mesma teria usado esse argumento do contrato 
de casamento.
     - Como, se o considerava uma loucura, se nem entendia o que estvamos dizendo? Deixe-me pr Everard no bero - ele sugeriu, estendendo o brao para pegar o 
beb.
     Ver as mos fortes cuidando to bem de seu filho despertou em Gytha uma intensa fraqueza. Thayer seria um bom pai. J havia notado a bondade com que ele tratava 
Bek. Esperava que essa certeza ajudasse a demonstrar que ela tambm era tudo que ele podia querer.
     - Se acreditasse que um papel idiota e estpido poderia me ser til, eu mesma o teria mencionado.
     Sentado na beirada da cama, ele segurou as mos da esposa e sorriu. Gytha estava certa. Sempre que lidava com uma questo de importncia ou necessidade, ou 
quando defendia um desejo pessoal, ela demonstrava ter mais inteligncia e fibra do que todas as mulheres que ele conhecia. A verdade era que ela no pensara em 
troc-lo por William. Em nenhum momento. Sustentava seus votos com firmeza, votos que fizera a ele, no a William. Ele beijou-lhe as mos, tocado pelo brilho que 
viu em seus olhos.
     - Estou perdoado, ento, esposa?
     - Por sua estupidez?
     - No devia chamar seu marido de estpido. E muito desrespeitoso.
     - Sim, eu sei.
     - Estou perdoado, ento?
     - Sim, eu o perdo por ser to tolo. Ele riu e a beijou nos lbios.
     - Descanse. Vou mandar Janet levar nosso filho para o quarto vizinho. Assim, os que quiserem conhec-lo no perturbaro seu repouso. Voc precisa dormir.
     - No foi to difcil quanto eu imaginava que seria.
     - No precisa me fazer acreditar que foi fcil.
     - No disse que foi fcil. Apenas que no foi to difcil. Acho que estava to zangada com voc que esqueci o medo. S pensava no que queria dizer quando o 
encontrasse novamente. Por favor, lembre-se de me deixar furiosa sempre que eu for ter um filho.
     - Sempre? No esperava que pensasse em ter outros filhos agora, logo depois do parto.
     - No quero outra gravidez to cedo,  verdade. Mas no estou assustada a ponto de no pensar em ter mais filhos. No pretendo ter tantos que me veja envelhecida 
antes da hora, mas espero ter pelo menos mais um. E isso, meu marido, quer dizer que pretendo ficar do seu lado. Portanto, pare de pensar que vou abandon-lo a qualquer 
momento.
     - Nada poderia me fazer feliz, exceto, talvez, devolver-lhe tudo que foi perdido, tudo que voc tem por direito.
     Algo nessas palavras a atingiram como um pressgio. Gytha no teve chance de pression-lo, fazer perguntas, porque ele a beijou e saiu levando o beb. Gytha 
prometeu a si mesma que arrancaria de Thayer uma explicao assim que o visse novamente. O instinto a prevenia de que o marido tinha na cabea uma daquelas estpidas 
idias de homem, algo de que ela certamente no gostaria.
     Thayer saiu do quarto pensando no filho que acabara de nascer. Gytha havia dado a ele o mais valioso de todos os presentes, e ele nada tinha para oferecer em 
retribuio. Horas antes do parto, fora devolvido  condio de homem destitudo de terras e ttulo. E esse estado no era mais tolervel. Gytha merecia mais, seus 
filhos mereciam mais... E como poderia planejar ter mais filhos, se ainda nem acumulara o suficiente para a famlia que j devia sustentar e manter? Recentemente, 
o rei havia comentado alguma coisa sobre uma boa recompensa por seus leais servios. Ele decidiu que era hora de se curvar agradecido por essas sugestes e cobrar 
o que lhe fora prometido.
   CAPTULO IX
     ? Vai partir. No tente negar novamente. Gytha olhou para o marido enquanto amamentava o beb. Notara os preparativos, apesar da tentativa bvia de ocult-los 
e mant-la confinada em seus aposentos. Thayer suspirou e sentou-se na beirada da cama. Era covardia, sabia, mas havia mesmo tentado esconder dela seus planos at 
o momento de partir. Odiava mentir, mas algo lhe dizia para no revelar exatamente o motivo de sua jornada. Quando retornasse vitorioso com sua recompensa, ento 
poderia ser totalmente honesto e franco.
     - Esperava poup-la da preocupao enquanto fosse possvel.
     - Acha que no percebo toda a movimentao? E acha que me preocupo menos por no saber a verdade?
     - Na verdade, sim... tinha esperanas de que no notasse.
     - Percebi tudo logo depois da partida de William e de minha famlia. Tem idia do barulho provocado por tantos homens se preparando para uma batalha? E isso 
que eles fazem, no ? Logo ir lutar em algum lugar distante daqui.
     - Sim, vamos para a Esccia. Para o Norte. Os escoceses causam problemas na fronteira mais uma vez.
     - Mas voc j deu ao rei seus quarenta dias de servio. H menos de um ano!
     - No se pode recusar a convocao do rei. - Especialmente quando a convocao foi solicitada pelo convocado.
     - No  fcil, eu sei, mas tambm sei que j foi feito antes. Um cavaleiro que j prestou tantos servios e sempre foi leal pode solicitar licena.
     - No posso, Gytha. O rei precisa da fora de muitos guerreiros. Os escoceses no respeitam nosso soberano e nosso territrio. Algum tem de cont-los.
     - Ningum conseguiu conter aqueles brbaros at hoje. Era verdade, mas Thayer no pretendia concordar com ela. Invocar um chamado do rei e a necessidade de 
ao imediata pelo bem do pas era a nica maneira de fazer Gytha aceitar sua partida, mesmo que relutante. Era um subterfgio detestvel, mas necessrio.
     - Os saques no causam apenas a morte pela espada ou pelas flechas. Os escoceses roubam alimento, matando tambm pela fome. O Norte no pode mais ser submetido 
a esse tipo de terror.
     - Eu sei. - Ela suspirou. - O beb terminou de mamar. Pode coloc-lo no bero, por favor? Edna no vai voltar enquanto voc estiver aqui.
     Thayer atendeu ao pedido e voltou a se sentar sobre a cama. Gytha sabia que no podia mais tentar ret-lo em casa. Insistir seria atentar contra sua honra e 
seu senso de dever. Isso era algo que no podia fazer.
     Quando ele segurou suas mos e fitou-a nos olhos, Gytha estudou-o. No havia nele nenhum sinal de relutncia, o que a desapontou, mas no a surpreendeu. Havia 
desposado um guerreiro, um homem que passara boa parte da vida empunhando uma espada. Diante da chance de lutar uma batalha justa, ele no podia recuar. Era seu 
dever de esposa esconder o medo e a apreenso e libert-lo sem lgrimas ou condenao.
     - Quer ir mostrar aos escoceses a fria do Diabo Vermelho, no ? - Ela sorriu com tristeza.
     - Como diz Roger, j enfrentamos dezenas de guerreiros escoceses de cabelos vermelhos. Chegou a hora de mostrar que a Inglaterra tambm tem alguns deles.
     - Quando vai partir?
     - Em dois dias.
     - Dois dias? To cedo? No pode esperar um pouco mais? Uma semana, talvez?
     - Os escoceses no vo esperar por ns, minha querida.
     - Malditos escoceses!
     - No vou demorar a voltar.
     - Como pode ter certeza disso?
     - Estamos falando de saques, no de uma guerra. Eles s querem roubar. No querem lutar. E claro que no fugiro do confronto, mas no  esse o objetivo dos 
escoceses. Sua principal preocupao  voltar para casa levando o produto do saque. A nossa  recuperar tudo que pudermos. Essas coisas no so demoradas.
     Gytha no concordava, mas havia um certo conforto na argumentao de Thayer. Se os escoceses s queriam saquear e roubar, o perigo seria menor. Eles estariam 
mais interessados em fugir do que em lutar. Ficaria em casa rezando para que os escoceses encontrados por Thayer fossem os mais covardes que jamais haviam vivido.
     - O vento  frio. O beb devia estar dentro de casa. E voc tambm.
     Gytha nem se deu ao trabalho de responder ao conselho de Edna. Ficaria ali at seu marido partir, e no pensaria que essa podia ser a ltima vez em que o via 
com vida. Ele voltaria. Precisava acreditar nisso.
     Quando Bek se aproximou para beijar o irmo e a madrasta e despedir-se, Gytha forou um sorriso. Quisera impedi-lo de ir. To jovem ainda... S um menino! Mas 
no havia manifestado esse desejo. Bek era pajem de Thayer. Fazia parte de seu treinamento de cavaleiro acompanh-lo em batalhas. S o mortificaria se tentasse ret-lo 
em Riverfall. E um dia teria de ter o mesmo controle emocional, porque Everard e todos os outros filhos que tivesse tambm partiriam.
     Esperava ter a mesma fora para se despedir de Thayer, porque ele caminhava em sua direo.
     - No devia ficar aqui fora, minha querida.
     - Estamos agasalhados. Seu filho e eu viemos desejar boa viagem e orar para que Deus o proteja. E viemos dizer tambm que queremos v-lo de volta em breve. 
So e salvo.
     - Esse tambm  o meu desejo, Gytha. Vamos espantar aqueles escoceses, tomar de volta tudo o que eles roubaram, e ento retornaremos. No ter tempo nem para 
sentir nossa falta.
     - Impossvel! J sinto sua falta, e voc ainda est aqui. Vou ter de providenciar pedras quentes para aquecer nossa cama  noite.
     - Desde que no utilize nenhum outro recurso... - Ele brincou, beijando-a na testa.
     - E vou ter de encontrar pedras bem grandes para ocupar o espao vazio. - Ela apoiou o rosto em seu peito. - Vai cuidar, no vai?
     - Pode ter certeza disso, Gytha. E voc tambm vai. Espero encontr-la saudvel e forte quando eu voltar.
     Gytha sorriu com esforo e recuou um passo. Thayer montou. Ela o viu passar pelos portes de Riverfall e esperou at que todos os homens sassem. E continuava 
ali quando os portes foram fechados. Margaret se virou e correu para seus aposentos. Esperava que ela superasse a tristeza o quanto antes, porque precisariam muito 
da ajuda uma da outra para esperarem pelo retorno de seus homens.
     - Onde est Margaret? - Gytha perguntou a Edna quando a criada chegou a seus aposentos para cuidar de Everard.
     - Nas muralhas novamente.
     - Isso j foi longe demais. Onde est meu manto? Tentando ajudar sua senhora a se proteger contra o ar frio da noite, Edna argumentou:
     - Ela se casou h pouco...
     - Eu tambm. E no pretendo censur-la. Quero dizer, no pretendo ser muito dura. Mas Margaret se casou com um cavaleiro, e precisa aprender a aceitar esses 
perodos de ausncia. Caso contrrio, expe-se ao risco de adoecer e ainda envergonha o marido com sua fraqueza.
     - Sim, a senhora est certa. S peo que no fique muito tempo l fora. O ar est frio e mido.
     Gytha assentiu e saiu do quarto. Thayer e Roger haviam partido uma semana antes. Margaret se comportava de maneira to estranha, que ela comeava a se perguntar 
se a ausncia de Roger era a nica coisa que a incomodava. Nos ltimos dois ou trs dias, passou a ter a impresso de que a prima estava zangada com ela, evitando-a 
deliberadamente. Por mais que tentasse se livrar dessa sensao, ela permanecia.
     Margaret estava em p sobre uma das muralhas, olhando para o horizonte na direo em que seguiram Thayer, Roger e todos os outros. Ela tocou o brao da prima 
com a inteno de oferecer conforto, mas Margaret se afastou.
     - Sei que sente falta de Roger. Eu tambm sinto falta de Thayer e...
     - Sente mesmo?
     Estranhando a questo e o tom furioso, Gytha respondeu:
     - E claro que sim. Como pode perguntar tal coisa?
     - Considero estranho que afirme sentir falta do homem que voc mesma enviou para o campo de batalha.
     - Eu enviei?
     - Nunca esperei isso de voc, Gytha. No imaginava que se importasse tanto com ttulos e terras. Parecia to satisfeita com Riverfall! No pensei que faria 
diferena o fato de seu marido ser um simples cavaleiro ou um lorde. Acho que essas coisas devem fazer falta para quem sempre as teve, no ? Porm, devia ter pensado 
em mim antes de fazer esse pedido a Thayer. Deve saber que Roger sempre estar ao lado de seu marido. Uma coisa  enviar seu marido de encontro ao perigo para obter 
um ttulo e propriedade. Mas mandar tambm o homem que eu amo? Nunca pensei que fosse to cruel. To insensvel.
     - Margaret, do que est falando? No entendo... Thayer disse que o rei o convocou para ir lutar contra os escoceses.
     - Sim, mas s depois de Thayer ter dito ao rei que precisava realizar um certo feito.
     - Um feito...? Quer dizer que meu marido pediu para lutar?
     - Exatamente. O rei h muito vem sugerindo que seu marido merece uma recompensa concreta, mais do que elogios e honras. Thayer pediu para lutar em troca dessa 
recompensa. Ttulo e terra. E ele fez isso por voc, para poder oferecer a voc tudo que teve de devolver a William.
     - E ele disse que eu pedi isso?
     - No, ningum disse isso. No exatamente. - Margaret suspirou, arrependida de ter julgado mal a prima que conhecia to bem. - Foi a maneira como Roger falou... 
No pude acreditar que Thayer partiria para a batalha, que poria em risco a prpria vida e de todos que o seguem, apenas para obter uma recompensa de que no precisa. 
Eleja tem a terra que antes buscava. Sendo assim, deduzi que voc havia falado alguma coisa... Que havia pedido de alguma maneira, ou insinuado... Gytha, se me enganei...
     -  claro que se enganou, Margaret. Sabe de meus sentimentos por Thayer. Acha que eu o poria em risco por uma recompensa qualquer?
     - No, mas era a nica explicao vivel. E se no pediu nada, por que ele foi, ento?
     - No sei. Mas pode estar certa de que vou perguntar ao idiota, se no acabar com a vida dele antes disso.
     - Deve ter sido o orgulho. Ele pode sentir que precisa fazer tal coisa, ou vai parecer que se casou com voc para obter lucro.
     - Esse  o motivo pelo qual so arranjados quase todos os casamentos. Mas voc tem razo. O orgulho tem boa participao nisso tudo. Porm, h outra razo. 
Um motivo que conheo bem. H meses luto contra isso sem chance de vitria, e j comeo a perder a esperana.
     - Do que est falando?
     - No consigo fazer Thayer acreditar que ele  o homem que quero.
     - Ele deve ter percebido seu interesse quando voc no quis acompanhar William. E se j disse a ele que o ama...
     - Eu no disse.
     - No disse? Gytha, mas...
     - Por favor, no me critique. No disse nada porque acho que ele no vai acreditar em mim. Tentei de tudo para faz-lo entender que estou contente a seu lado, 
mas ele ainda parece acreditar que me sinto sacrificada com esse casamento. No sei mais o que fazer.
     - Ame-o, Gytha. S isso. Ele no pode ignorar seu amor para sempre. E reze para que ele volte logo para casa. Inteiro.
     - No tenho feito outra coisa, Margaret.
     - Nem eu.
     - Continue rezando. Se Deus atender a nossas preces e eles retornarem inteiros, juro que estrangularei aquele idiota com quem me casei.
     Thayer mantinha a mo sobre o focinho do cavalo para silenci-lo. Sentia que os escoceses estavam ali. Podia senti-los. Normalmente, iria embora e os deixaria 
fugir, porque j haviam recuperado quase todo o produto do saque, mas o rei queria sangue. Queria que os escoceses pagassem caro por sua ousadia. Muitos j estavam 
mortos, mas recebera ordens para matar todos que fossem encontrados em solo ingls, elimin-los at que no restasse nenhum.
     Por isso estava ali parado, cercado pela umidade e pela escurido, tentando localizar o inimigo que no podia ver. E felizmente estava atento, ou teria sido 
atingido pelo golpe que ele s conseguiu conter com a espada no ltimo instante.
     Desequilibrado pelo impacto do golpe, ele se recuperou e contra-atacou.
     O combate causava grande estardalhao, anunciando sua posio para quem quisesse encontr-lo. Em uma rea repleta de inimigos, essa era uma idia que o incomodava.
     Matar o oponente no deu a ele nenhum sentimento de vitria. Na verdade, Thayer nem teve tempo para sentir-se vitorioso. Um rudo anunciou uma segunda ameaa, 
e ele se virou apressado. Mas, antes que pudesse reagir, uma dor aguda na perna esquerda o derrubou do cavalo. Cado, ele tentou conter o inimigo com habilidade 
e destreza, mas no tinha foras para erguer a espada. A nica alternativa era enfrentar o ataque da adaga adversria com a mo esquerda. A lmina atingiu seus dedos, 
causando uma segunda onda de dor. Mesmo assim, conseguiu mover o brao e enterrar a espada no peito do escocs, matando-o.
     Remover o corpo que o imobilizava foi o mais difcil. Sabia que perdia a pouca fora que ainda lhe restava. Ele tentou se levantar e descobriu que a perna esquerda 
estava inutilizada. Podia tentar rastejar, mas montar seria impossvel, e o cavalo estava agitado, uma indicao clara de que ainda havia algum perigo por ali.
     Gytha foi a nica imagem que passou por sua cabea antes do mergulho na escurido.
     Roger insistia em cavalgar pela rea.
     - Estou dizendo que ouvi sons de batalha - ele repetia para Merlion e Torr.
     - E como pode saber de onde viveram? - indagou o ltimo. - Nessa escurido...
     - Quieto - Merlion interrompeu o parceiro. - Ouviram isso?
     - Um cavalo - sussurrou Roger. - Ali na frente. Eles seguiram adiante. Mais dois ou trs minutos, e Roger saltava de sua montaria para se ajoelhar ao lado do 
amigo cado no cho.
     -  Thayer!
     - Ele est vivo? - Merlion perguntou enquanto desmontava.
     - Sim, mas no estar por muito tempo se no receber alguns cuidados. - Roger j comeava a cuidar dos ferimentos. - Ele perdeu alguns dedos - disse, envolvendo 
a mo ensangentada em ataduras improvisadas com pedaos de tecido que Torr ia rasgando da prpria camisa.
     - Devemos lev-lo para a cidade para uma sangria - opinou Merlion, unindo-se a Torr no esforo para estancar o sangramento da perna de Thayer.
     - Ele j perdeu muito sangue. No precisa de sangria - protestou Roger. - Aquela senhora que cuidou dos nossos feridos ontem  noite seria melhor.
     Os trs levantaram Thayer do cho e o puseram sobre seu cavalo, conduzindo o animal com grande cuidado. A jornada foi longa e lenta, e Roger temia que a demora 
pudesse custar a vida do grande amigo. Quando chegaram ao casebre que utilizavam como quartel-general, Roger j no acreditava que Thayer pudesse sobreviver para 
rever Riverfall.
     Por muito tempo, Thayer s teve conscincia da dor. Depois ele ouviu um rudo abafado. Um ronco, talvez. De olhos fechados, moveu a mo numa explorao cega 
do ambiente que o cercava. Estava em uma cama. Algum o encontrara. Recordaes confusas o tomavam de assalto. A voz de Roger, compressas frias sobre sua pele, um 
sacerdote murmurando e... o rei. Sem saber quanto era sonho e quanto era realidade, ele abriu os olhos. Havia luz no ambiente. Roger dormia numa esteira ao lado 
de sua cama.
     - Roger... Roger...
     O cavaleiro se levantou de um salto empunhando a espada, olhando em volta com ar confuso e assustado.
     - Roger, sou eu. Est apavorado demais para um soldado.
     Identificando a rouquido seca na voz do amigo, Roger foi buscar um pouco de caldo. Passando um brao em torno dos ombros de Thayer, ele o ergueu apenas o suficiente 
para ajud-lo a beber. A fraqueza no corpo castigado por inmeros ferimentos era evidente e assustadora. A febre o enfraquecera tambm.
     - Muito obrigado, amigo. Sinto-me fraco. H quanto estou aqui?
     Roger sentou-se numa banqueta ao lado da cama.
     - H quase uma semana. Estava sangrando muito quando o encontramos. Uma senhora esteve aqui para cuidar dos ferimentos.
     - Sim, sim, eu me lembro dela.  muito grave?
     - Bem... Dois de seus dedos esto menores. Foram cortados quase ao meio.
     - E minha perna?
     - Ainda a tem, mas o ferimento  grave. O homem tentou aleij-lo.
     - E conseguiu.
     - Ainda no sabemos. No podemos saber enquanto no tentar andar. Vai sentir dificuldade no incio,  claro, mas no temos como prever se o tempo vai trazer 
alvio ou devolver sua capacidade de locomoo. Mas, como disse, ainda tem sua perna. S isso j  motivo para se sentir grato.
     - Algum outro ferimento?
     - Algumas novas cicatrizes, mas nenhuma que no pudesse ter adquirido antes em batalhas.
     - E voc, meu amigo, ficou com o ingrato dever de cuidar de mim? Est presente em todos os fragmentos de recordaes que tenho desses ltimos dias.
     - No foi um dever ingrato. Voc j fez o mesmo por mim. No me esqueci daquele tempo na Frana.
     - Um tempo que eu tambm no vou esquecer. E o rei? Ele esteve aqui, ou foi uma alucinao?
     - Sim, o rei esteve aqui. Por um momento, cheguei a pensar que voc havia superado o delrio da febre, porque falou claramente com nosso soberano, mas assim 
que ele partiu, voc voltou a delirar. Na verdade, quando falou com ele ainda estava delirando, lembrando outra visita do rei ao nosso acampamento, trs anos atrs. 
Voc conversava com uma lembrana. Mas no importa. O rei nada percebeu. Deu a recompensa que voc tanto queria, e voc respondeu como era esperado.
     - Eu consegui o que queria?
     - Sim, agora voc  o baro de Riverfall, milorde. - Roger sorriu e se inclinou. - E tambm  proprietrio de uma pequena rea trs dias ao sul de Riverfall. 
Contarei mais quando se sentir mais forte. Precisa descansar para recuperar-se completamente. A batalha terminou, voc conseguiu o que queria, e agora s precisa 
voltar para Riverfall e Gytha.
     - Ah, Gytha... No era um belo cavaleiro antes, mas pelo menos tinha todas as partes do corpo. Agora sou um aleijado. Talvez fosse melhor se...
     - Thayer, se disser que talvez seja melhor se afastar dela, juro que causarei mais alguns ferimentos nessa sua cabea dura. Por favor! Durante todo o tempo 
em que esteve inconsciente voc chamou por ela. Gytha  parte de voc, meu amigo. No conseguiu esquec-la nem quando estava sofrendo com a possibilidade da morte. 
Acha mesmo que pode deix-la, arranc-la de sua vida? E justamente agora, quando tem tudo que pensa que ela queria?
     - Sim, agora tenho que sua origem nobre requer, mas olhe para mim! Minha me foi mutilada e  bem provvel que tenha de mancar pela vida. A nica coisa que 
tinha a oferecer antes era uni corpo forte e saudvel. Agora no tenho mais essa sade e essa fora. E como nunca tive beleza...
     - Voc  mesmo um idiota. Est sempre ressaltando sua falta de atrativos fsicos, sem parar para pensar como as outras pessoas o vem. Acredita que Gytha se 
incomoda por no ser belo, mas j parou para tentar encontrar nela alguma evidncia disso? No, ou j teria descoberto seu erro.
     - Est tentando me dizer que uma beldade como Gytha poderia amar um homem grande, vermelho, feio e cheio de cicatrizes?
     - No sei qual  a profundidade dos sentimentos de sua mulher..O que sei  que ela no o v como voc acredita. No h desapontamento ou desgosto quando ela 
olha para voc, e ela nunca tentou esconder o marido do mundo. No. A mulher sempre esteve a seu lado e sem nenhuma demonstrao de relutncia.
     - Sim,  verdade. Voc tem razo. Nunca parei para examinar... Tem razo, Roger, nunca notei nela a repulsa que vi em tantas outras mulheres.
     - No em sua esposa.
     -- No, nunca em Gytha. - Ele sorriu. - Mas isso foi antes de eu sofrer esses ferimentos. Agora...
     - Chega, Thayer. Voc j chegou ao casamento coberto de cicatrizes, e ela o aceitou como . No se martirize mais, meu amigo. Aceite com gratido o que a vida 
lhe deu.
     Thayer considerou as palavras de Roger por um momento, depois sorriu. Como sempre, seu grande amigo estava certo. A revelao o enchia de alegria. Havia sido 
injusto com Gytha, at ofensivo de certa forma. Por mais que revirasse os prprios pensamentos, no era capaz de encontrar uma nica ocasio em que ela houvesse 
demonstrado repulsa, desgosto ou decepo por sua aparncia. Simplesmente no tinha importncia. Ele lembrou os elogios que ouvira da esposa em vrias situaes 
e teve certeza de que Roger tinha razo.
     - No, ela no vai me repelir - disse. - Porm, quando descobrir por que vim para o campo de batalha, por que fiz tudo isso... Gytha vai ficar furiosa comigo.
     - Pela primeira vez desde que o conheo, meu amigo, sou obrigado a concordar com voc e reconhecer que seu julgamento  acertado.
     - Eles voltaram! Os homens retornaram!
     Gytha mal olhou para Edna quando a jovem criada invadiu seu quarto gritando a notcia. Era algo que ela j sabia. Vira a aproximao de Thayer e de seus homens 
do alto de uma das muralhas de Riverfall. No a surpreendia que o marido no houvesse mandado ningum para anunciar sua chegada. Ele devia pensar que a breve mensagem 
enviada quase um ms antes era suficiente, embora no tivesse determinado nela a data de seu retorno.
     Suspeitava de que a culpa fosse a principal causadora desse retorno silencioso. Thayer devia pensar que ela j tinha conhecimento das razes que o levaram a 
lutar contra os escoceses. Ponderava preocupado a necessidade de falar com ela, de revelar toda a verdade. Qualquer que fosse a situao, ele esperava ameniz-la 
valendo-se da ttica da surpresa. Pois seria ele o grande surpreendido.
     Edna se aproximou de onde Gytha escovava os cabelos com calma aparente.
     - Milady, vim informar que seu marido est de volta.
     - Eu ouvi.
     - No vai receb-lo?
     - Sim, eu vou. Em breve. Mande preparar banhos para os homens. Pode providenciar o de Thayer com o de Roger, nos aposentos de Roger. No, espere! Margaret estar 
l. Prepare o banho de Thayer aqui mesmo. Irei me preparar para o banquete de boas-vindas no aposento das damas.
     - Mas logo eles estaro chegando...
     - Sim, eu sei. Trate de se apressar. Precisa ajudar com os preparativos do banho de Thayer e levar minhas coisas para o aposento das damas.
     Gytha se dedicou  escolha do traje que usaria no banquete de boas-vindas. Os criados j corriam para a cozinha numa euforia visvel e ruidosa. No ir receber 
Thayer no ptio ou no salo serviria para demonstrar claramente a extenso de sua fria. Mesmo que Margaret nada dissesse, ele acabaria adivinhando o que a causava. 
A grande surpresa estaria em quando e como ela o confrontaria. E esperava causar grande constrangimento.
     Thayer suspirou profundamente ao ver o abrao de Margaret e Roger. Infelizmente, ele ainda tinha os braos vazios. Gytha no estava ali. Sim, ela podia estar 
furiosa, mas... Ele foi invadido pelos primeiros sinais de alarme. Ela podia no estar em Riverfall.
     - Margaret, onde est Gytha? - O olhar nervoso e relutante da jovem no o acalmava.
     - L dentro - ela disse.
     - Ainda est aqui?
     -  claro que sim.
     - E no est doente?
     - No.
     - E meu filho?
     - Tambm est muito bem de sade.
     - Ento... Ela est zangada comigo. Deve ter descoberto a verdade. Eu pretendia mesmo inform-la de tudo.
     - Entendo. Bem, isso vai servir para acalm-la.
     A falta de convico na voz de Margaret quase o fez rir.
     Gytha tambm no estava em seus aposentos, o que no o surpreendeu. Havia ali um banho quente esperando por ele. Era difcil calcular a extenso de sua ira.
     Em silncio, Bek o ajudou a despir-se para o banho, enquanto Thayer considerava a possibilidade de usar sua autoridade de marido e exigir a presena da esposa 
imediatamente. A idia foi logo descartada. Ainda no sabia qual era a melhor maneira de enfrent-la nesses momentos de ira, mas sabia que impor sua vontade no 
era a melhor delas.
     - Voc aborreceu Gytha novamente?-Bek perguntou enquanto o pai entrava na banheira.
     - Sim, receio que sim.
     - Como, se foi lutar por recompensas para ela?
     - Esqueci de perguntar se ela queria essas recompensas. Pode esfregar minhas costas, filho?
     Bek atendeu ao pedido e franziu a testa.
     - Uma esposa no deve ficar satisfeita com tudo que faz o marido?
     No foi fcil, mas Thayer engoliu o riso. - Bek, vou lhe dizer duas coisas sobre as mulheres. E oua com ateno, porque  melhor no esquecer o que vai ouvir 
agora. O primeiro conselho, meu filho,  que nunca faa o que eu fao. Receio que seu pobre pai saiba muito pouco sobre as mulheres. Se manejasse a espada como lido 
com as mulheres, teria sido morto em minha primeira batalha. A segunda coisa que tenho para dizer, Bek,  que poucos homens so verdadeiramente mestres nessas questes 
envolvendo as mulheres. E poucos so realmente senhores em suas casas. Francamente, eu olharia desconfiado para qualquer mulher que se comporte como se isso fosse 
verdade. Ou ela mente, ou  desprovida de inteligncia, ou  fraca de esprito, o que far dela uma companhia tediosa.
     - Ento, no se incomoda por Gytha estar zangada com voc.
     - Eu no disse isso. Depende de quanto ela est zangada e de como poderei acalm-la.
     Thayer ainda pensava nisso quando entrou no salo. L tambm no havia nenhum sinal de Gytha. A situao comeava a se tornar embaraosa. No precisava olhar 
para os que ali se reuniam para saber que o observavam discretamente, tentando entender o que acontecia. Quando se sentou  mesa, no lugar que cabia ao chefe da 
casa, ele ainda pensou em ir procur-la e arrast-la at ali. Gytha podia ficar zangada, revoltada, furiosa ou deprimida, mas no tinha o direito de ridiculariz-lo 
diante de seu povo. Eleja comeava a se levantar para ir procur-la, quando a viu entrar no salo. Sentiu-se grato por ainda estar sentado.
     Gytha caminhou para a mesa com passos lentos e os olhos fixos no marido. Havia algo de estranho em sua postura, alguma coisa diferente... Ele se levantou para 
ir receb-la, como exigia seu papel de marido e senhor do lugar, e foi ento que Gytha percebeu a dificuldade com qu ele movia a perna esquerda. Thayer havia sofrido 
um ferimento grave.
     Preocupada, ela o examinou rapidamente, porm com grande ateno, e percebeu os dedos parcialmente ceifados de sua mo esquerda. Era um alvio constatar que 
nada de mais srio havia ocorrido, mas o alvio no fazia diminuir a raiva.
     No fora informada. Sim, sabia que ele havia sido ferido na batalha, mas nunca fora informada da gravidade desses ferimentos. Agora descobria que sua preocupao 
era justificada, afinal.
     - Ento... Conseguiu tudo que queria por ter ido enfrentar os malditos escoceses encrenqueiros? - ela disparou.
     - Sim. Agora sou um baro, lorde de Riverfall.
     - De fato? E a terra?
     - Sim, sou dono de uma pequena propriedade a trs dias daqui, para o Sul.
     - Que timo. No vai precisar ir muito longe para bancar o grande senhor de terras.
     - Gytha, fiz isso por voc.
     - Por mim? Eu nunca pedi essas coisas. No sugeri que fosse para a fronteira ao norte e se oferecesse para ser todo cortado como um carneiro de sacrifcio.
     - No, realmente no me pediu nada disso. Eu fui porque quis. Porque essa foi minha escolha. Porque sei que uma mulher de sua origem elevada no devia se casar 
com um cavaleiro destitudo. Ento, fui lutar para ser agraciado por um ttulo.
     - Ah, sim. Voc foi, lutou e conquistou seu precioso ttulo. E agora? O que vai acontecer quando decidir que o recebeu no  suficiente? Deu parte dos dedos 
e dos movimentos para tornar-se baro. O que vai dar para ser um... conde? O brao? Sim, talvez meta na cabea que pode conquistar uma extensa coleo de ttulos, 
como muitos homens j fizeram e ainda fazem. E eu terei de carreg-lo por a num desses carrinhos com rodas, mas poderei exibir seus pedaos e anunciar orgulhosa 
que sou casada com o lorde disso, o baro daquilo e o conde no-sei-de-qu. Haver um conforto para mim, afinal.
     Gytha estava zangada. Muito zangada. Thayer no se surpreendia por ser o alvo dos olhares chocados de seus homens. Tambm estaria boquiaberto, no fosse o receio 
de expor-se a um constrangimento ainda maior. Queria acalm-la, cont-la, mas no sabia como isso era possvel. No sabia nem determinar qual era a verdadeira extenso 
da raiva de Gytha.
     Ela se sentia dilacerada. Rasgada ao meio. Queria chorar sobre os ferimentos do marido e gritar por ele ter castigado um corpo to belo por recompensas tolas 
e inteis. Queria ofend-lo por ter sido to estpido, mas tambm queria correr para longe dali, fugir, ir refugiar-se em algum lugar onde pudesse examinar e compreender 
seus sentimentos atormentados.
     - Por que faz essas coisas comigo? - ela indagou em voz baixa. - O que foi que eu fiz para convenc-lo de que me importo com coisas to banais? Ttulos, terras... 
Por que acha que dou mais valor a bens materiais do que a sua vida? Tudo que fiz e disse deveria ter provado o contrrio, mas voc est cego para qualquer coisa 
que contrarie essa sua eterna autodepreciao. No me interessa se voc  um baro ou um ferreiro. No me interessa se  dono da melhor propriedade da Inglaterra 
ou se mora em uma caverna. E voc que eu quero. No estou procurando riquezas, conforto ou luxo.
     Thayer estava boquiaberto. E perceber que muitos ali tambm reagiam espantados diante da confisso emocionada o fez compreender que a conversa estava se tornando 
pessoal demais para ser conduzida em local pblico. Sentia-se muito constrangido.
     - E muito bom saber disso, Gytha.
     - Muito bom? - Era incrvel como ele podia receber palavras to tocantes e sinceras com aquela atitude distante, desinteressada. - Muito bom... Acho que vou 
conversar com a lua. Ela me entender melhor. Devo estar perdendo a razo para tentar... Sim, eu perdi o juzo. S isso pode explicar meu amor por um homem to estpido. 
O mais estpido da Inglaterra!
     Silncio.
     Gytha se virou e saiu do salo. Estava confusa, abalada,  beira das lgrimas. A ltima coisa que queria era comear a chorar diante de Thayer e de todos os 
outros. Precisava se refugiar em seus aposentos, onde poderia chorar, gritar e quebrar algumas coisas para tentar se acalmar.
     Thayer continuava parado no mesmo lugar, ainda boquiaberto. Vozes abafadas o arrancaram do estado de choque. Todos discutiam o que tinham acabado de presenciar. 
Sua adorvel esposa confessara am-lo diante de todos os habitantes de Riverfall! Ele, o grande, feio e vermelho Thayer Saitun, conhecido por todos como Diabo Vermelho, 
conquistara o corao da rica e nobre beldade. Era impossvel no se sentir orgulhoso. 
     - E ento, o que vai fazer? - Roger perguntou a seu lado.
     - Eu? O que vou fazer?
     Margaret piscou para superar o espanto.
     - No vai atrs dela?
     Thayer balanou a cabea e olhou para a mesa.
     - No posso comer primeiro?
     - Thayer! - Margaret reagiu furiosa.
     - Bem, acho que devo ir censur-la por ter chamado o marido de estpido de maneira to desrespeitosa. E diante de tantas pessoas!
     - Ah, sim, isso  importante - concordou Roger. - Se no se apressar, alguns homens podem comear a pensar que ela tem razo.
     Como Margaret parecia muito perto de partir para a agresso fsica, Thayer se retirou apressado.
     Quando abriu a porta do quarto, ele a ouviu chorar. O som desesperado partiu seu corao e quase o fez chorar tambm. Fechou a porta e mancou at perto da cama, 
onde ela estava deitada de bruos com o rosto enterrado no travesseiro. Sentando-se na beirada, ele segurou a mo dela e ps entre os dedos tensos um leno que retirou 
do bolso. Queria tom-la nos braos, mas depois de tantos meses de privao, temia no ser capaz de oferecer apenas consolo.
     - Gytha... - Ele afagou seus cabelos. - Por favor, no chore mais. No suporto... Melhor gritar comigo ou me tratar com indiferena, como j fez antes. A dor 
 menor do que a que me causa com essas lgrimas.
     Ela se virou para encar-lo, secando o rosto com o leno.
     Thayer ainda acariciava seus cabelos.
     - Gytha, eu disse que fui atrs das recompensas para voc, mas fui porque eu queria tudo isso. Queria aquelas coisas para voc. No disse a verdade antes porque 
sabia que tentaria me impedir de ir.
     - Eu certamente teria tentado. E se no tentei foi por pensar que a questo envolvia honra e lealdade.
     - Foi orgulho. Pouco mais que isso. Queria conquistar tudo que tive de devolver a William. Eu, meu corao. eu sabia que voc no se importava com bens materiais, 
mas eu me importava. No queria viver pensando que voc perdeu tudo para continuar casada comigo. Isso era mais importante do que eu queria admitir, mas s enfrentei 
essa dura realidade quando fui forado a permanecer na cama me curando dos ferimentos.
     - Dos quais nem chegou a falar comigo. Devia ter mandado me buscar.
     - No, minha querida. A viagem at a fronteira ao norte  longa e perigosa. Aquela regio  muito perigosa. Havia na cidade uma velha muito habilidosa que cuidou 
de mim. Roger tambm esteve o tempo todo comigo. Ele e eu cuidamos dos ferimentos um do outro h anos. Temos algum conhecimento.
     - Qual  a real extenso de seus ferimentos, Thayer? Podia ter morrido, e eu s saberia quando fosse tarde demais?
     - Oh, no, no foi to srio!
     - No minta para mim.
     - Primeiro me chama de estpido, agora de mentiroso... - Ele se inclinou para beij-la nos lbios. - Ah, Gytha, como senti sua falta!
     Ela suspirou, sentindo todo o seu ser responder ao desejo na voz dele.
     - Eu sei - disse. Consolava aquela parte dela que pensava estar cedendo depressa demais com uma justificativa plausvel. Thayer havia explicado bem seus motivos 
para ter ido lutar contra os escoceses.
     Tomada pela necessidade, embora ele ainda nem a houvesse tocado, Gytha sentou-se e sorriu.
     - De quanto tempo precisa para despir-se, marido?
     - Estarei pronto quando voc estiver - ele respondeu, rindo.
     Cerca de uma hora mais tarde, quando se levantou dos braos de Thayer para puxar a coberta sobre seus corpos nus e saciados, Gytha notou a enorme cicatriz em 
sua perna e no conseguiu conter uma exclamao aterrorizada.
     - E horrvel, no?
     - Bem, no  bonita, mas o que me espanta  que... Cus, ele poderia ter cortado sua perna no joelho!
     - No. Foi um corte profundo, reconheo, mas no o bastante para me fazer perder a perna, a menos que fosse por conseqncia de uma infeco. Felizmente, esse 
risco est superado. Tive febre por um tempo, mas ela cedeu, graas s ervas utilizadas pela velha que cuidou dos meus ferimentos. S demorei a voltar porque sou 
teimoso. Quis me recuperar completamente sem sua ajuda, sem preocup-la.
     - Agora est recuperado.
     - No inteiramente. No como gostaria. Estou mancando, Gytha.
     - Sim, mas isso pode melhorar com o tempo. E eu me sinto culpada por no ter estado a seu lado para cuidar de sua sade.
     - No, Gytha. S teria se atormentado e adoecido de preocupao. Agora que sei o quanto se preocupa comigo...
     - Acredita em mim, ento?
     - Sim. No deveria acreditar?
     - Na verdade, no esperava conquistar sua confiana. O que o fez mudar de idia? Quero dizer, por que acredita em mim agora? Por favor, eu preciso saber. Devo 
ter feito algo certo para convenc-lo de meus sentimentos com uma nica declarao, depois de todo o empenho infrutfero dos ltimos meses.
     - Voc gritou comigo.
     - Eu no gritei!
     Mas ela sabia que havia se descontrolado.
     - Estava furiosa. As palavras foram saindo de sua boca sem que pudesse elabor-las, pensar muito no que ia dizer. Uma confisso feita dessa maneira, sem nenhum 
estmulo, soa mais verdadeira. E sei que no  o tipo de mulher capaz de mentir sobre o que sente. No disse essas palavras antes por medo de que eu duvidasse delas?
     - Confesse que no teria acreditado em uma declarao.
     - No. - Ele riu. - Talvez no.
     - Eu sabia. J havia tentado de tudo sem sucesso.
     - No tinha confiana em mim, Gytha. Por isso no podia confiar em ningum. Temia cometer um erro de julgamento, ouvir apenas o que me interessava... Aceitei 
apenas o que no podia ser questionado, o que eu no tinha de considerar. Como a paixo que existe entre ns. Era to evidente, que eu jamais poderia duvidar dela.
     - Eu entendo. Voc aprendeu a desconfiar.
     - Sim, e fui injusto com voc por conta dessa desconfiana generalizada.
     - Talvez. Mas demonstrou sabedoria, porque no ignorou uma lio que aprendeu com grande sofrimento.
     - Sim... Uma lio que agora posso deixar para trs, no passado. Graas a voc, minha doce Gytha.
     - A mim? No. Sou s uma mulher!
     - E mesmo assim poderia ter me ferido mais profundamente que a espada de um guerreiro sanguinrio.
     - Ento... voc me ama? - Ela arriscou hesitante, mas cheia de esperana.
     - E claro que a amo! - Ele a apertou entre os braos quando a esposa se atirou sobre seu peito. - Gytha, por favor, no chore!
     - No estou chorando - ela mentiu, abraando-o com todo o corpo. - Finalmente alcancei seu corao. Sentia-me derrotada, porque no conseguia imaginar uma maneira 
de toc-lo profundamente, de abrir caminho para sua alma.
     - Voc encontrou esse caminho h muito tempo, minha querida.
     - Oh, Thayer, eu o amo como nunca pensei que pudesse amar algum!
     - E eu amo voc, minha doce Gytha.
     Mesmo que Thayer no a estivesse beijando, Gytha no poderia falar, tal a intensidade da emoo que experimentava. Esse nico momento a compensava por todos 
os instantes de dvida, medo e decepo que sofrer ao longo do caminho. Encolhida em seus braos, com a cabea descansando sobre o peito largo e forte, ela ouvia 
as batidas firmes do corao do valente guerreiro e sabia que encontrara seu lugar no mundo, na vida.
     - Quando teve certeza? - ela perguntou.
     - No instante em que a vi pela primeira vez.
     - No, Thayer. Quando teve certeza do seu amor por mim?
     - Acho que... Sim, foi quando Pickney a fez refm. Enlouqueci de medo e dor. No conseguia fazer nem o que sempre fiz bem, lutar contra o inimigo. Nunca senti 
um pavor to grande. Sabia que sua presena era vital para a minha felicidade antes disso, mas me negava a entender por qu. Depois disso, restava-me apenas dizer 
como e quando declarar meu amor por voc. Quando voc me deu Everard... A propsito, onde ele est?
     - Com as mulheres no aposento das damas. Voc o ver em breve, Esse momento  s nosso, Thayer. Everard tem todo o meu tempo.
     - Eu sei. E j que esse momento  s nosso, diga-me...
     - O qu?
     - Quando voc soube?
     - Desde o incio tive certeza de que nosso casamento era o certo.
     - Certo?
     - Sim, certo. Quando voc foi apresentado como o Saitun com quem eu deveria me casar. Experimentei um sentimento de adequao, como se cumprisse meu destino...
     - E no sentiu isso com William ou Robert?
     - No! Aceitei William com resignao, porque ele era belo e simptico, mas Robert... Pobre Robert! Eu s queria domin-lo, como todos pareciam fazer. Com voc 
foi diferente. E eu tive certeza do meu amor quando voc foi ferido em nossa jornada para c. Desde ento, passei todos os momentos do dia e da noite tentando encontrar 
um jeito de faz-lo acreditar em minha sinceridade, em minha inteno de ser sua esposa para sempre e fazer de voc um homem feliz.
     - Eu sou um homem feliz. Graas a voc.
     - Quer dizer que no vai mais lutar?
     - No preciso mais do estmulo da batalha para sentir-me vivo. Voc me devolveu a vida, Gytha. Quando enfrentei os escoceses, descobri que no sinto mais prazer 
no confronto. Acabou. Eu s queria voltar para Riverfall, para voc e para Everard. E queria trazer Bek para um local seguro, tambm.
     - Ento, ser um homem de ttulo e propriedade acalmou o Diabo Vermelho!
     - No. O Diabo Vermelho foi domado por um pequenino anjo de grandes olhos azuis. O Diabo Vermelho no existe mais.
     - No quero que ele desaparea. E tambm no quero que ele seja domesticado... demais.
     - Ah, no? E onde pretende perpetuar a existncia do Diabo Vermelho?
     - Aqui. Em nossa cama. Ao meu lado, amando-me com paixo.
     - Acho que posso traz-lo sempre que quiser convoc-lo. Nem mesmo um diabo pode se cansar de amar e ser amado por um anjo lindo e delicado.
     - Mesmo que seja para sempre? Porque  essa minha nica condio.
     - Para sempre, meu corao, ainda no ser suficiente.
Fim.

